sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Bendita Dúvida


Na última “Mente & Cérebro” (no 212, editora Duetto, com conteúdos da Scientific American), o artigo “Bendita Dúvida” chamou-me a atenção por suas possíveis implicações para a oposição entre a “fé raciocinada” preconizada por Kardec e a “fé cega” valorizada por muitos.


O autor do texto, Wray Herbert, é diretor da Associação Americana de Ciências Psicológicas. Uma chamada logo após o título resume o artigo: “Fixar a mente em uma meta única pode ser contraproducente; com certeza, traçar objetivos é importante, mas questioná-los pode ser decisivo para obter sucesso.”


Herbert reporta sobre recentes experimentos conduzidos pelo psicólogo Ibrahim Senay, da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, que parecem identificar algumas características necessárias para o restabelecimento de dependentes químicos (manutenção da abstinência de longo prazo), “mas também para atingir qualquer objetivo pessoal, desde perder peso até aprender a tocar violão.” Um componente-chave identificado é a “autoconversação”, o diálogo interno através do qual exploramos em detalhes opções, intenções, medos, esperanças etc.





O 1º Experimento

Num experimento de solução de problemas, metade dos voluntários (escolhidos por sorteio), antes de começar a tarefa, “era instruída a ponderar se de fato queria e achava que cumpriria a tarefa”, enquanto que a outra metade (também sorteada) era apenas orientada a trabalhar na tarefa. Os resultados foram surpreendentes: “as pessoas que haviam se questionado sobre o desejo de participar do trabalho se mantiveram mais criativas, motivadas e interessadas nele, completando um número significativamente maior de anagramas [os problemas experimentais], em comparação ao dos voluntários que apenas foram instruídos a cumprir a atividade.

Buscando responder sobre o porquê deste resultado, Senay aventa a hipótese de que “talvez porque as perguntas, por sua própria natureza, transmitem a idéia de possibilidade e liberdade de escolha, e meditar sobre elas pode estimular sentimentos de autonomia e motivação intrínseca, criando uma mentalidade que favorece o sucesso”.

2º Experimento

Para analisar de forma diferente a questão, Senay criou outro experimento: “recrutou voluntários sob o pretexto de que estavam sendo convocados para um estudo sobre caligrafia. Alguns deveriam escrever as palavras ‘Eu quero’ várias vezes, e outros, ‘Será que eu quero?’.” Os resultados foram semelhantes ao do experimento anterior: os participantes que haviam escrito a frase afirmativa, “tiveram pior desempenho que aqueles que tinham redigido a sentença interrogativa”.

3º Experimento

Senay realizou mais uma versão desse experimento, focando “a intenção dos voluntários de iniciar e manter um programa de exercícios físicos”. O resultado foi o mesmo: “aqueles que escreveram a frase interrogativa ‘Será que eu quero?’ mostraram comprometimento muito maior com a prática regular de exercícios do que os que escreveram no início do teste a frase afirmativa ‘Eu quero’.

Foi, também, perguntado aos voluntários deste experimento “se achavam que estariam mais motivados a ir á academia com maior freqüência, os que foram preparados com a frase interrogativa justificaram declarando, por exemplo: ‘Quero cuidar mais de minha saúde’. Aqueles que escreveram a frase afirmativa deram explicações como: ‘Porque me sentiria culpado ou envergonhado se não o fizesse’, mostrando-se mais perseguidos e culpados do que realmente comprometidos”.

Conclusões do autor

Concluindo, “considerando a recuperação de dependentes químicos e o autoaperfeiçoamento em geral, aqueles que declaravam sua força de vontade sem contestações estavam, na verdade, fechando a mente e estreitando sua visão de futuro. Aqueles que se perguntavam sobre os rumos a seguir e conjecturavam possibilidades reafirmavam sua escolha  ̶  e se comprometiam com ela”.

Possíveis implicações para a questão fé raciocinada x fé cega

Estes experimentos e as conclusões do autor parecem fortalecer a posição de Kardec sobre a importância da “fé raciocinada” como base do Espiritismo consciente. Aceitar, mesmo o que Kardec ensina, sem ponderar, sem passar pelo filtro da razão, pode levar a pessoa a fechar sua mente e estreitar sua visão de futuro. Enquanto que questionar, refletir, exercer sua liberdade de escolha, seu livre-arbítrio (a meu ver, um dever, não apenas um direito), poderá “estimular sentimentos de autonomia e motivação intrínseca, criando uma mentalidade que favorece o sucesso”. O sucesso, neste caso, significa a reafirmação da sua opção, seu compromisso concreto (não apenas teórico) com o Espiritismo. 

2 comentários:

  1. COM REFERÊNCIA AOS GRUPOS EXPERIMENTADOS NAS VÁRIAS CATEGORIAS, PODEMOS LEMBRAR QUE ALGUMAS PESSOAS PODEM SER CONVIDADAS, SEM TEREM ANTES PROGRAMADO QUALQUER PARTICIPAÇÃO NOS EXPERIMENTOS, COMO TAMBÉM NÃO TEREM PRETENSÕES AFINIZADAS COM O ESTUDO EM QUESTÃO, MAS APRESENTAREM RESULTADOS DIVERSIFICADOS, DEPENDENDO DO ESTÍMULO RECEBIDO.
    REALIZAMOS SEMPRE MELHOR O QUE FOR INCENTIVADO A FAZER!

    FRANK

    ResponderExcluir
  2. Frank,tenho relaxado um pouco neste blog, só hoje li seu comentário. Este espaço é pequeno, eu sei, para um comentário mais analítico. A necessidade de ser sintético pode dificultar a clareza de comentários mais profundos.

    Escrevi isto em razão de seu comentário ter sido muito sintético e, por isto, não tenho certeza de te-lo entendido claramente. Não ficou claro para mim se você concorda ou não com as conclusões do Senay, autor do experimento, se está fazendo uma crítica aos procedimentos experimentais que ele utilizou, ou propondo conclusões alternativas e, neste caso, seria a de que "realizamos sempre o melhor o que for incentivado a fazer"? Sendo isto, se compreendi corretamente, então você está discordando das conclusões do autor, é isto?

    ResponderExcluir