domingo, 23 de outubro de 2011

TAO – Caminho da Paz e da Leveza Interior


O sábio chinês Lao Tsé viveu há mais de cinco séculos antes de Cristo. Sua filosofia profundamente espiritual, o Taoísmo, chegou até nós pela sua obra “Tao Té Ching”. Sua influência foi profunda nas culturas chinesa e japonesa, e permanece viva, não só nestes países. O “Tao Té Ching” é uma daquelas obras perenes da humanidade da qual, se nos aproximarmos dela com abertura de espírito, colheremos ensinamentos preciosos que nos ajudarão a trilhar nossa vida com mais paz e harmonia.

É difícil se traduzir a palavra “Tao”. Algumas das suas traduções são: a Essência, a Suprema Realidade, a Lei Universal que está em tudo o que existe, a Divindade, o Insondável. “Té” pode ser traduzido por caminho, diretriz, revelação. E “Ching”, por livro, escrito, documento. Uma tradução que gosto é o “Livro do Caminho para a Essência”.

O Tao deve ser mais sentido, intuído, do que compreendido intelectualmente. Para ajudar você a senti-lo intuitivamente, sugiro que faça uma bela experiência, aqui e agora:

Sente-se confortavelmente e endireite com naturalidade o corpo e a cabeça.
Imagine um facho de luz azul muito bonito e suave vindo lá do alto, penetrando pelo topo de sua cabeça, descendo pelo interior do seu tronco e continuando até o chão.
Respire fundo e lentamente algumas vezes, e relaxe-se..., descontraia-se...
Imagine que essa luz azul suave lhe transmite uma sensação muito agradável, de equilíbrio e paz.
Perceba o ambiente ao seu redor. Sinta nele o Tao... Respire-o... Sinta-o em você, nas coisas ao seu redor, no ambiente todo.
Pare um pouco de ler e tome contato, por alguns instantes, com a paz, a beleza e a simplicidade nas pessoas e coisas ao seu redor..., pois, como disse Lao Tsé, o Tao “poderá, nas menores coisas, ser encontrado.”

Se você vivenciou efetivamente este exercício, seu nível de consciência ampliou-se e é capaz de começar a sentir o Tao. Uma maior leveza e paz interior é um indicativo disto.

Esse mesmo exercício você poderá repetir em outras situações. Ao ar livre, em contato direto com a natureza ele é vivificante. E mesmo em recintos fechados, como no trabalho. Às vezes, ficamos tão imersos em problemas do trabalho que perdemos a perspectiva dos reais objetivos da tarefa que estamos realizando. Com isso, perdemos nossa eficácia e produtividade. Em momentos como esses, parar por um ou dois minutos, endireitar o corpo e fazer o exercício vivencial aqui descrito pode aclarar nossa mente, ajudando-nos a desenvolver melhor o que estamos fazendo.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Regressão Vivencial na Superação de Fobia


Esta postagem dá continuidade à série sobre regressão vivencial, iniciada em 14/03/2011 com “Terapia de Regressão Vivencial”, seguida em 30/03/2011 por “O Que é Vivenciado numa Sessão de Regressão é Real ou Fantasia?”, e em 02/04/2011 por “Regressão Terapêutica a uma Suposta Vida Anterior”. Na presente postagem, conto um caso real de processo de superação de fobia de dirigir por meio de regressão vivencial.

Júlia (nome fictício) tinha cerca de 40 anos, casada, com um casal de filhos. Trabalhava antes de se casar, mas, na época desta narrativa, apenas ajudava um pouco na empresa do marido.

Freqüentemente, sentia-se insegura em muitas coisas que fazia. Queria fazer tudo perfeito, tinha muito medo de errar. Este medo de errar estava presente também ao dirigir seu carro, um dos motivos que a levaram a fazer psicoterapia. Embora já dirigisse há anos, algumas vezes esta insegurança aumentava e pensava: “se eu pegar o carro, vou bater”. Ao pensar isto, sentia muito medo, até pavor, pois imaginava que, se batesse num outro carro, o motorista deste ficaria enfurecido e a agrediria fisicamente.

Estava com acompanhamento psiquiátrico e já havia feito um curso de direção especializado em ajudar pessoas com fobia de dirigir, porém sem resultados.

É surpreendente como a mente humana funciona! Nunca me canso de admirar sua complexidade e sua lógica, que vai além da simples lógica linear a que estamos acostumados. Esta regressão que descrevo, mostra como um episódio que viveu, muito antes de aprender a dirigir, teve uma forte conexão com sua fobia posterior.

Para entender alguns aspectos desta regressão, alguns dados preliminares são importantes. Seu pai era alcoólico. Quando bebia, ficava violento, embora nunca tenha lhe batido, mas seu comportamento agressivo causava muito medo nela e em toda a família: “quando ele bebia, não era uma pessoa muito boa”.

Quando a regressão começa, Júlia vê-se com cerca de 12 anos, no início da manhã, aprontando-se para ir para a escola. Sai de casa e, como habitual, passa na casa de uma amiguinha para irem juntas. Quando chega lá, a irmã mais velha da menina a atende e lhe diz que a irmã caçula havia ido mais cedo para a escola naquele dia. E lhe dá uma notícia que a deixa profundamente consternada: o pai de Júlia estava deitado, bêbado, em frente ao portão da escola. Provavelmente havia saído de algum bar de madrugada e caíra de bêbado na calçada em frente à escola, ficando lá dormindo até então.

Júlia, neste momento, sente medo, vergonha, um nó na garganta, pressão na cabeça. Sente-se inferior a todo mundo, com inveja das amigas que, a seu ver, tinham pais normais. Pensa que as pessoas estão falando dela coisas como: “coitadinha, tem um pai que não tem responsabilidade para nada”. Quer se esconder: “tenho medo que alguém fale algo para mim”. E pensa: “talvez seja melhor não ir para a escola. É melhor ficar em casa para não ver ninguém”. Mas, decide ir para escola assim mesmo, pois sabe que a mãe, muito brava, não permitiria que voltasse para casa sem ter ido à escola.

Decide, então, entrar na escola pelo portão dos fundos, assim não teria que passar por seu pai dormindo na calçada. Caminha por um terreno baldio que vai dar nos fundos da escola e, andando, fica “segurando a vontade de chorar”, pois não quer “que meus colegas pensem que sou uma coitada”.

Ao entrar na sala de aula, sente-se inferior às colegas que, na sua fantasia, tinham “pais normais”. Por isto, não se sente merecedora de estar ali no meio delas: “sinto que estou invadindo o espaço dos outros. Eu não tenho o direito de estar aqui. Eu sou diferente dos outros”. Sente medo, dor no pescoço, pressão no rosto, vergonha. Acha que sua vergonha está escrita em seu rosto. Acha que estão “rindo de mim, fazendo gozação”. Sente, também, uma tristeza muito grande, angústia, e pensa que é uma “pessoa sem nenhum valor, sem nenhum respeito”. Tem medo de que a agridam, “me joguem pedra”.

Quando o psicoterapeuta pergunta o que tem a ver o que ela está vivenciando com seu medo de dirigir, Júlia percebe que, também no trânsito, sente-se invadindo um espaço que não é dela, um espaço onde não tem direito de estar, pois é diferente, inferior às outras pessoas. E que, por isto, sente medo e imagina que, se fizer algo errado, não haverá tolerância com ela, vão agredi-la, talvez até matá-la, pensa.

O psicoterapeuta lhe diz que ela pode começar a mudar aquela crença negativa sobre si mesma, a crença de que é inferior às outras pessoas. E lhe pergunta: “você quer mudar isto? Sim ou não?“ (Esta pergunta é importante, pois a mudança de crenças profundamente arraigadas, para ser efetiva, deve ser algo que o paciente queira realmente, porque se sentir que é uma decisão de outra pessoa, não dele próprio, a mudança não perdurará). Júlia responde: “sim, eu quero ser igual a todo mundo, a todas as pessoas”.

O psicoterapeuta a ajuda, então, a elaborar o que, na Terapia de Regressão Vivencial, chama-se “redecisão”  ̶  uma frase que sintetiza, cognitiva e emocionalmente, a mudança que já está sendo desencadeada a partir daquela catarse* que Júlia está vivenciando. No processo de elaboração da frase de redecisão (processo que o psicopsicoterapeuta conduz apenas na forma, não no conteúdo, o qual deve ser genuinamente do paciente). Iniciando a superação do seu trauma e, conseqüentemente, da crença negativa que tem sobre si mesma, Júlia diz, já enfocando o ato de dirigir: “eu posso ser igual às outras pessoas”. A partir daí, percebe que pode fazer “tudo o que as outras pessoas normais fazem”, chegando, então, na sua frase de redecisão: “eu dirijo o carro com segurança”.

O psicoterapeuta testa, através de algumas perguntas, a ressonância emocional que tem, para a Júlia, a frase que ela elaborou na sua redecisão e se ela a consegue colocar em prática concreta. Júlia diz que se sente aliviada e realizada, e sente que consegue “ser igual às outras pessoas” e que dirigir para ela “é importante, eu me sinto grande, importante” (em contraste com a maneira com que, muitas vezes, se sente: pequena e sem importância).

No processo de uma sessão de regressão, após a redecisão há, como já comentado em postagens anteriores, um processo de desprogramação das emoções e sensações doloridas revivenciadas na sessão e o fortalecimento de emoções e sensações que ajudam a superá-las e que apóiam a redecisão. Além disto, o psicoterapeuta também ajuda o paciente a imaginar uma situação, num futuro próximo, na qual ele coloca em prática a redecisão, com naturalidade, bem como a programar os próximos passos neste sentido. No caso da Júlia, os próximos passos programados foram: vir à próxima sessão dirigindo e, durante a semana, praticar dirigindo em pequenos percursos.

Já na sessão seguinte (a sessão integrativa, na qual o psicoterapeuta auxilia o paciente a integrar melhor, a sua vida atual, o que vivenciou durante a regressão), Júlia descreveu um progresso significativo, sentindo-se mais segura ao dirigir. Contudo, chegara à sessão de táxi, pois ainda não estava se sentindo suficientemente segura. Entretanto, na sessão seguinte à sessão integrativa, chegou dirigindo pela primeira vez.

No decorrer do processo terapêutico, sua segurança e habilidade no trânsito foram crescendo, a tal ponto que Júlia não apenas chegava a todas as sessões dirigindo, como também ia sem medo para todo o lado. O próprio marido, embora muito cioso de sua própria habilidade como motorista, confessou-lhe que ela estava dirigindo melhor do que ele.
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*Catarse: efeito salutar provocado pela conscientização de uma lembrança fortemente emocional e/ou traumatizante, até então reprimida. (Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda, 1a edição. Ed. Nova Fronteira).

O Pontinho Preto e os 3 Crivos

Muitos dos nossos problemas decorrem de percebermos apenas um dos lados das situações e das pessoas. Quando sentimos simpatia por alguém, nossa tendência é perceber apenas suas qualidades. Ocorre o oposto em relação à nossa percepção das pessoas com quem antipatizamos. Somos, geralmente, unilaterais. O nosso progresso em direção a um melhor relacionamento com os outros e uma maior paz de espírito passa pelo nosso esforço em desenvolver uma visão mais equilibrada das pessoas e situações.
Uma estória, que me foi contada há muitos anos por uma mestra espiritual, conhecida carinhosamente por seus discípulos como Tia Zaíra, nos ensina algo neste sentido.
Há muito tempo atrás, os discípulos de um mestre estavam se acusando mutuamente: “Fulano não fala a verdade!”, “Sicrano é orgulhoso!”, “Beltrano come demais!” e assim por diante... O mestre nada disse. Apenas pegou uma grande tela branca, um pincel e, molhando-o em tinta preta, fez com ele um pontinho preto no meio da tela.
Em seguida, chamou um dos seus discípulos e perguntou-lhe:
̶            O que você vê nesta tela?
Sem hesitar, o discípulo respondeu:
̶            Um pontinho preto!
Chamou a outro discípulo e repetiu a pergunta:
̶            O que você vê nesta tela?
O segundo discípulo olhou com cuidado, examinou toda a tela e disse:
̶            Um pontinho preto.
O mestre foi chamando cada um dos demais discípulos. Alguns davam a resposta imediatamente, outros examinavam com cuidado a tela, e outros, ainda, chegavam até a apertar os olhos para ver se havia mais alguma coisa na tela. Contudo, ao final, todos davam a mesma resposta: “Um pontinho preto.”
O mestre, então, olhou para cada um dos discípulos e, mostrando a tela, disse:
̶            Com toda esta grande extensão branca da tela, vocês só enxergam este pontinho preto?
Os discípulos se entreolharam com surpresa. E o mestre prosseguiu:
̶            Da mesma forma, vocês só estão enxergando o pontinho preto uns dos outros, sem considerarem toda a extensa área clara de qualidades e boas realizações que têm!
Quantas vezes deixamos de ver o lado positivo das pessoas? O termo “falar dos outros” é usado como sinônimo de falar mal, tal a freqüência que, ao falar de alguém, tendemos a enfatizar seus defeitos reais ou imaginários e fatos negativos em que está envolvido, em detrimento de suas qualidades e sucessos. Esta visão negativa pode nos contaminar, também, viciando-nos a ver principalmente os aspectos negativos das pessoas e situações, o que pode nos tornar, por vezes, parte dos eventuais problemas com que nos defrontamos, ao invés de contribuirmos para a solução.
Por esta razão, quando começarmos a pensar ou a falar nos defeitos ou insucessos de alguém, busquemos passar pelas três peneiras que esta estória (que se teria passado com Sócrates) nos ensina:
... Certa feita, um homem esbaforido aproximou-se do filósofo e disse-lhe:
̶            Escute, Sócrates... Na condição de seu amigo, tenho alguma coisa muito grave para dizer-lhe a respeito de um conhecido nosso.
̶            Espere!... – disse o sábio, com prudência. – Já passou o que me vai dizer pelas três peneiras?
̶            Três peneiras? – perguntou o visitante, espantado.
̶            Sim, meu amigo, três peneiras. Observemos se sua confidência passou por elas. A primeira é a peneira da verdade. Você tem absoluta certeza, quanto àquilo que pretende comunicar?
̶            Bem, - ponderou o interlocutor, - assegurar mesmo, não posso... mas ouvi dizer e... então...
̶            Portanto não passou pela primeira peneira. Decerto então passou o assunto pela segunda peneira, a da bondade. Ainda que talvez não seja real o que julga saber, será pelo menos bom o que quer me comunicar?
Hesitando, o homem replicou:
̶            Isso não... Muito pelo contrário...
̶            Ah! – tornou o sábio – então recorramos à terceira peneira, a da utilidade, e notemos o proveito do que tanto o aflige.
̶            Útil?!... Disse o visitante muito agitado. – Útil, útil não é...
̶            Bem – rematou o filósofo num sorriso, –  se o que você tem a confiar não é verdadeiro, nem bom e nem útil, esqueçamos o problema e não se preocupe com ele, já que nada constrói de positivo para nós!...