segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A Grande Transformação - Parte 2

Falando dos gênios espirituais e filosóficos da Era Axial, Karen Armstrong aponta que "muitos trabalharam no anonimato, porém outros se tornaram luminares que ainda conseguem nos emocionar, porque nos mostram como uma criatura humana deve ser" (!!). Ela vê a Era Axial como "um dos períodos mais seminais de mudança intelectual, psicológica e religiosa que a história registra; não haveria nada comparável até a Grande Transformação Ocidental, que instituiu nossa modernidade científica e tecnológica".


Diante dessas afirmações, as perguntas que Armstrong faz a seguir ocorrem a muitos leitores: "Mas como os sábios da Era Axial, que viveram em circunstâncias tão diversas, podem falar a nossa atual condição? Por que haveríamos de buscar ajuda em Confúcio ou Buda? Certamente um estudo desse período distante só pode ser um exercício de arqueologia espiritual, quando o que precisamos é criar uma fé mais inovadora que reflita as realidades de nosso próprio mundo".


Respondendo a essas questões, a autora pondera que "nunca superamos de fato os achados da Era Axial. Em momentos de crise espiritual e social, homens e mulheres constantemente se voltaram para esse período à procura de orientação. Podem ter dado interpretações distintas às descobertas axiais, porém nunca as ultrapassaram. O judaísmo rabínico, o cristianismo e o islamismo, por exemplo, são rebentos tardios da Era Axial original". Para ela, "essas três tradições redescobriram a visão axial e a traduziram esplendidamente num idioma que falava direto às circunstâncias de seu tempo".


A autora nos mostra que, ao contrário do que a maioria de nós costuma achar, a visão dos profetas, místicos, filósofos e poetas da Era Axial é, em muitos aspectos, mais avançada do que a religiosidade pregada por muitos hoje: "Com frequência, presume-se, por exemplo, que ter fé é acreditar em certas proposições doutrinais. Na verdade, é comum chamar as pessoas religiosas de 'crentes', como se acatar os artigos de fé fosse sua principal atividade. No entanto, a maioria dos filósofos axiais não tinha o menor interesse em doutrina ou metafísica. As crenças teológicas de um indivíduo eram totalmente indiferentes para um Buda. Alguns sábios se recusavam com firmeza até a discutir teologia, argumentando que era nocivo e desviava a atenção. Outros diziam que era imaturo, irrealista e perverso procurar o tipo de certeza absoluta que muita gente espera encontrar na religião".


Prosseguindo, Armstrong indica que "todas as tradições que se desenvolveram na Era Axial empurraram as fronteiras da consciência humana e descobriram em seu bojo uma dimensão transcendente, mas não necessariamente sobrenatural e, em geral, se recusaram a discuti-la." Os sábios desta época não tentavam impor aos outros sua visão espiritual. Acreditavam que a fé era fundamentalmente um desenvolvimento íntimo de cada um. E que é "essencial questionar tudo e testar todo ensinamento religioso empiricamente,através da própria experiência pessoal".


Para esses sábios, "o importante não é em que um indivíduo acredita, mas como ele se comporta. Religião tem a ver com fazer coisas que produzem mudanças profundas no adepto". Para eles, "a única maneira de encontrar o que chamavam de 'Deus', 'Nirvana', 'Brahman' ou 'Caminho' era levar uma vida compassiva. Na verdade, religião era compaixão. Hoje em dia, muitas vezes achamos que, antes de adotar um estilo devida religioso, temos que provar, para nossa própria satisfação, que 'Deus', ou o 'Absoluto', existe. (...) Mas os sábios axiais diriam que isso equivaleria a pôr o carro na frente dos bois. Primeiro, é preciso comprometer-se com a vida ética; depois, uma benevolência disciplinada e habitual - não uma convicção metafísica - forneceria indícios da transcendência que se procura."


Veja a parte 1 desta postagem.

domingo, 15 de janeiro de 2012

A Grande Transformação - Parte 1

Acabei de ler o excelente livro de Karen Armstrong, "A Grande Transformação: o mundo na época de Buda, Sócrates, Confúcio e Jeremias" (São Paulo: Companhia das Letras, 2008). Antes de comentar sobre o livro, falarei um pouco sobre a autora. 


Karen Armstrong nasceu na Inglaterra, em 1945, e foi freira por sete anos. Formou-se em Literatura pela Universidade de Oxford e foi professora de literatura moderna na Universidade de Londres. Leciona Cristianismo no Leo Baeck College for the Study of Judaism and the Training of Rabbits and Teachers e é membro honorária da Association of Muslin Social Sciences, uma importante instituição muçulmana. Em 1999, recebeu um prêmio islâmico, o Muslim Public Affairs Council Media Award. Em 2000, o Islamic Center of Southern California rendeu-lhe homenagem por promover o entendimento entre as três religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo). Em 2005, foi convidada a integrar um projeto das Nações Unidas, "Aliança das Civilizações", que visa lançar pontes entre o Ocidente e o mundo islâmico. Tem cerca de vinte livros publicados, dos quais onze no Brasil.


Na "Apresentação" do livro, Armstrong escreve que muitas das dificuldades da nossa época e de nossa civilização, como o terrorismo, a ameaça do uso das armas de destruição em massa (nucleares, biológicas e químicas) e o risco de uma catástrofe ambiental, "mascaram uma crise espiritual mais profunda". E "se não houver uma revolução espiritual à altura de nosso gênio tecnológico, é improvável que salvemos nosso planeta"! Concordo com ela.


Para que, no futuro, evitemos tragédias como "Auschiwitz, Ruanda, Bósnia e a destruição do World Trade Center", "uma educação puramente racional não será suficiente". Necessitamos mais. Necessitamos recuperar "o sentido da sagrada inviolabilidade de cada ser humano". Este sentido tradicionalmente nos era dado pela religião. 


No entanto, "praticamente todo dia nos deparamos com exemplos de terrorismo, ódio e intolerância de motivação religiosa". Por esta razão e por outras, "um número crescente de pessoas considera irrelevantes e inacreditáveis as doutrinas e práticas religiosas tradicionais e busca nas artes plásticas, na música, na literatura, na dança, no esporte ou nas drogas a experiência transcendente que parece ser necessária aos seres humanos". Porque "todos ansiamos por momentos de êxtase, quando vivemos nossa humanidade com uma plenitude maior que a habitual e nos sentimos profundamente tocados por dentro e elevados acima de nós mesmos. Somos criaturas à cata de sentido e, ao contrário de outros animais, facilmente nos desesperamos, se não conseguimos ver significado e valor em nossas vidas".


Armstrong vai buscar inspirações para a superação de nossa crise espiritual no período histórico "que o filósofo alemão Karl Jaspers chamou de Era Axial, porque foi decisivo para o desenvolvimento espiritual do gênero humano. Entre aproximadamente 900 e 200 a.C., surgiram, em quatro regiões distintas, as grandes tradições mundiais que continuam alimentando a humanidade: o confucionismo e o taoismo na China, hinduísmo e budismo na Índia, monoteísmo em Israel e racionalismo filosófico na Grécia. Esta foi a época de Buda, Sócrates, Confúcio e Jeremias, dos místicos das Upanishads, de Mêncio e Eurípedes."


No decorrer do livro, Armstrong nos mostrará que "neste período de intensa criatividade, gênios espirituais e filosóficos inauguraram um tipo inteiramente novo de experiência humana". E que esta experiência pode ser substancialmente útil a nós hoje, ajudando judeus, cristãos, muçulmanos, budistas e induístas a reavivarem e aprofundarem sua fé. Mas também estimulando ricas reflexões em ateus e agnósticos.

Leia a parte 2.