sábado, 27 de novembro de 2010

USANDO O LIVRE-ARBÍTRIO A NOSSO FAVOR

Antes, o que é livre-arbítrio? A palavra “arbítrio” denota julgamento, decisão. Sua junção com “livre” indica a capacidade de livre julgamento, livre decisão sobre o que fazer ou não nas várias circunstâncias da vida. Mas, temos de fato “livre-arbítrio”? Alguns filósofos e teólogos respeitáveis, ao longo da História (desde a Antiguidade), discordaram disto. Dentre eles, Espinosa, no séc. XVII, cuja obra influenciou significativamente seus contemporâneos, e algumas de suas idéias influenciam ainda hoje discussões filosóficas e até científicas (vide, p. ex., o livro “Em Busca de Espinosa”, do neurocientista Antônio Damásio, chefe do Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Iowa, professor do Instituto Salk de Estudos Biológicos, em La Jolla, Califórnia, e autor do premiado livro “O Mistério da Consciência”, entre outros).

O argumento destes filósofos e teólogos baseia-se em dois dos atributos de Deus: onisciência e onipotência. Um resumo deste argumento poderia ser: “se Deus é onisciente, deve ter presciência de nossas escolhas, e, se é onipotente, nossas ações devem ter sido determinadas junto com o restante da criação” (Filosofia / David Papineau, pp 63-67. São Paulo: Publifolha, 2009). Em outras palavras, a onisciência e a onipotência de Deus implica que tudo o que acorreu, ocorre e ocorrerá no Universo (e, portanto, conosco) está pré-determinado. Negar isto seria, para esses pensadores, negar que Deus tudo sabe e tudo pode. Portanto, não teríamos qualquer livre-arbítrio real, apenas uma ilusão de livre-arbítrio.

Este argumento contra o livre-arbítrio parece forte e logicamente consistente. Ao longo de História, muitos tentaram derrubá-lo. Há, por outro lado, várias fortes evidências de que temos um real, embora relativo, livre-arbítrio (veja-se, como exemplos neste sentido, os resultados de experimentos descritos em "O Cérebro, a Mente e as Experiências Transcedentes", neste blog). Além disso, os argumentos que assumem a natureza dual de mente e corpo são muito fortes e consistentes - como, p. ex., dentre os antigos, os de Aurélio Agostinho de Hipona (Sto. Agostinho) e Tomás de Aquino; dentre os primeiros modernos, Descartes (de uma geração anterior à Espinosa, faleceu quando este tinha cerca de 18 anos) e, posteriormente, Kant, com sua profunda argumentação que faz, na Crítica da Razão Pura, sobre a causalidade segundo as leis da natureza versus a causalidade pela liberdade. Entre os grandes filósofos contemporâneos (séc. XX), destacaria Karl R. Popper (1902-1994), um digno sucessor do racionalismo crítico kantiano, cujas reflexões tem fornecido importantes subsídios à metodologia científica. Uma outra linha de argumentação é a conhecida como compatibilista, porque, sem negar o determinismo (aqui não mais o teológico, mas o materialista), busca compatibilizá-lo com o livre-arbítrio. Exemplos desta linha são o filósofo inglês A. J. Ayer (1910 – 1989) e o americano Daniel Dennet.

A partir de meus estudos e da minha experiência de vida, cheguei a uma solução que é para mim satisfatória deste problema. Valho-me de parte da idéia do “elã vital” do filósofo Henri Bérgson (1859-1941): uma força que é inerente à Vida e que a leva a perseguir todas as soluções possíveis. Inspiro-me, além disto, na teoria matemática do caos, um importante campo de estudos que tem se desenvolvido desde os estudos pioneiros dos matemáticos e físicos Henry Poincaré e Jacques Hadamart e que, atualmente, tem tido importantes impactos na Física, na Ecologia e em outras Ciências, bem como na Filosofia. Esta teoria analisa sistemas complexos e dinâmicos e mostra como, em tais sistemas, pequenas mudanças iniciais podem levar a alterações imprevisíveis. Ou seja, a natureza determinística de tais sistemas não os torna previsíveis. Isto é conhecido popularmente entre os estudiosos deste campo como “efeito borboleta”. E me remeto também às bem embasadas extrapolações de eminentes cosmólogos sobre múltiplos universos, a partir de recentes teorias no campo da Física Quântica e da Gravidade (vide, p.ex., o artigo “As Origens Cósmicas da Seta do Tempo” do premiado pesquisador sênior em física do Califórnia Institute of Tecnology (Caltech), publicado na Scientific American Brasil, ano 6, no 74, pp 28-35).
 
Tendo tudo isto em vista e a partir dos meus estudos e vivência como espírita, acredito profundamente que temos livre-arbítrio. Não absoluto, mas relativo ao nosso grau de evolução. À medida que evoluímos, nosso grau de liberdade aumenta: evolui nosso conhecimento de nós mesmos, dos outros, do Universo físico e espiritual, nossa capacidade de tomar decisões e de agir em consonância com essas decisões.

Com base nas considerações acima, concluo e acredito (e busco fazer minha vida coerente com estas conclusões):
  • Que nosso futuro não está predeterminado, mas que há inúmeros futuros possíveis para cada um de nós, num Universo de inumeráveis possibilidades, e que isto não nega a onisciência e a onipotência de Deus, mas as reafirma num nível mais alto. 
  • Que cada decisão que tomamos, pequena ou grande, contribui, em graus variados, para criar um futuro melhor ou pior para nós (do ponto de vista do Universo como um todo, o que muitas vezes não equivale ao nosso ponto de vista limitado como seres humanos em evolução).
  • Que as conseqüências do que pensamos e fazemos revelam-se para nós apenas em parte de imediato, pois são como as ondas num lago que provocamos ao atirar uma pedra e que, ao encontrar determinados “obstáculos” próximos ou distantes, voltam como ecos ao ponto de partida, aumentadas, minimizadas, e/ou qualitativamente modificadas.
  • Que essas conseqüências sempre têm uma lógica profunda, embora possamos não ter ainda condições de a entender completamente.
  • Que essas conseqüências vêm sempre para nosso bem, porque a essência do Universo é de Amor, pois imaginar que Deus não ama infinitamente Sua Criação leva a uma contradição, um absurdo lógico.
  • Que a idéia de termos apenas uma única existência na Terra é contraditório com o Amor Infinito de Deus por nós, com as possibilidades infinitas de evolução.
  • Que a consciência disto tudo nos ajuda a suportar melhor as dificuldades, problemas e fracassos grandes e pequenos e aprender com eles, ao mesmo tempo em que nos dá uma perspectiva mais equilibrada perante os sucessos e conquistas.
  • E que precisamos nos lembrar sempre destas coisas para não nos alienarmos da herança divina que, acredito, é intrínseca a nós e é muito mais do que o elã vital do Bérgson, mas significa a Luz Divina em nós, a qual vai se desvelando à medida que evoluímos.
  • Que a prática do amor é a base desta evolução.
  • Que tal prática significa aprender a amar o próximo como a nós mesmos, ou seja, aprender a nos amar de verdade, de maneira equilibrada e saudável (veja, neste sentido, 10 Atitudes para Criar Filhos Mais Felizes - 1a. atitude: Amor e Carinho, neste blog) e aprender a amar o próximo da mesma forma, num círculo virtuoso no qual nosso amor próprio equilibrado aumenta nossa capacidade de amar o próximo e este amor ao próximo, quando concretizado em pensamento e ação, repercute positivamente no nosso auto-amor (auto-estima) e assim por diante.
  • Que este círculo virtuoso não é automático, mas demanda um esforço da vontade consciente para o iniciar, manter e desenvolver.
  • E, finalmente, que isto é o uso do livre-arbítrio a nosso favor.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Espiritismo e Desenvolvimento Científico

"O Espiritismo e a ciência se complementam um pelo outro; a ciência, sem o Espiritismo, se acha impossibilitada de explicar certos fenômenos, unicamente pelas leis da matéria; o Espiritismo sem a ciência, ficaria sem apoio e exame." (Kardec, Allan. A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo; Capítulo I - Caracteres da Revelação Espírita. São Paulo: LAKE, 1999).

Em "Obras Póstumas" (cap. Constituição do Espiritismo - Exposição de Motivos, item  II - Dos Cismas. São Paulo: LAKE, 1999), Kardec escreve referindo-se à Doutrina Espírita: "Apoiada, exclusivamente, em leis naturais, não pode ser mais variável que estas leis, mas se uma nova lei for descoberta, deve modificar-se para harmonizar-se com esta; não deve cerrar a porta a nenhum progresso sob pena de suicidar-se. Assimilando todas as idéias reconhecidamente justas, de qualquer ordem que sejam, físicas e metafísicas, nunca será posto à margem e é esta uma das principais garantias da sua perpetuidade."

Uma vez, pediram minha opinião sobre a razão destas recomendações de Kardec serem tão pouco seguidas pelo movimento espírita. Argumentei que, desde a época de Kardec, muitos grandes espíritas têm contribuído com pesquisas e idéias que aprofundam as revelações originais da Codificação. E que, no plano espiritual, as obras do Espírito André Luiz, sob a psicografia de Chico Xavier, iluminaram e desenvolveram muitos aspectos da Doutrina Espírita. Mas que sentia também a falta de um esforço sistemático para, a partir da análise destas várias contribuições, compatibilizá-las, caso realmente compatíveis, e integrá-las à Doutrina. E que, na minha opinião, várias seriam as razões disto não ocorrer.

Acho que uma destas razões tem a ver com nossa forte herança católica, com o seu dogmatismo autoritário. Esta herança parece estar profundamente (mas não irremediavelmente) arraigada na mentalidade brasileira, dificultando o raciocínio crítico, necessário para a utilização eficaz do "crivo da razão" preconizado por Kardec. Veja-se, nesse sentido, "CRIVOS DA RAZÃO - Parte 5: A Falácia do Apelo à Autoridade", postada neste blog em 10/01/2011.

Por outro lado, esta mentalidade tem sido também alimentada pela sucessão histórica de governantes autoritários mais voltados para os interesses da elite sócio-econômica (como foi o caso de praticamente todos os presidentes da "república velha") do que para a educação do povo. Mais recentemente, na nossa história, dirigentes autoritários-paternalistas (os "pais do povo") continuaram esta tradição de maneira mais sutil. A figura paradigmática deste tipo de dirigente foi Getúlio Vargas, copiado atualmente em muitos aspectos.


Este autoritarismo paternalista tem um antecedente histórico relevante, D. João VI. O livro "1808", de Laurentino Gomes, retrata brilhantemente a personalidade deste rei e sua contribuição para a formação do Brasil -- acho sua leitura obrigatória para quem quer entender aspectos relevantes da nossa tradição cultural que perduram até hoje. 

O autoritarismo intelectual típico da nossa cultura está em consonância com o baixo nível educacional de muitas das nossas instituições públicas e privadas de ensino (felizmente com notáveis excessões) e, consequentemente (mas não no sentido de consequência logicamente obrigatória), da grande maioria de nosso povo. 

Sérgio Buarque de Holanda (um dos nossos historiadores mais respeitados) cunhou o termo "homem cordial", ao se referir a uma das características marcantes do homem (e mulher, é claro) brasileiro. Por cordial, este historiador não se refere apenas à hospitalidade e amabilidade (também relevantes, a meu ver, mesmo que pareçam estar desaparecendo nos grandes centros), mas ao "compadrio", a tendência de resolver as coisas pelos relacionamentos, "panelinhas", em detrimento da justiça, do mérito e da verdade. Isto se vê na política, nas universidades (principalmente nas públicas, mas não apenas nelas) e nas empresas. Nestas, esta "cordialidade" (no sentido do termo do Sérgio Buarque) é um pouco amenizada, em razão da racionalidade imposta pela concorrência. Entretanto, mesmo esta concorrência é também minimizada pelo "compadrio" entre empresas -- oligopólios e os tão comuns "acordos" de preços (de mercado e de participação em concorrências públicas, entre outras coisas).

Numa outra perspectiva desta questão, a mentalidade da grande maioria do nosso povo parece não ter atingido ainda a Era Moderna. Em Filosofia e História, a modernidade está ligada ao relativo predomínio da razão que teve seu marco no Iluminismo, do qual Descartes foi uma das figuras paradigmáticas e precursoras na Filosofia (que teve em Kant um dos grandes expoentes do racionalismo crítico, do qual Karl Popper parece-me um relevante e inovador representante) e na Ciência (juntamente com Galileu, entre outros), ao lado de Voltaire, Montesquieu, Thomas Jefferson e vários outros. O passar tudo pelo crivo da razão é intrínseco ao pensamento iluminista, parte relevante da bagagem educacional e dos valores de Kardec. Porém, a maioria de nós ainda mantem a mentalidade pré-iluminista, pré-moderna. 

As considerações acima fazem parte, a meu ver, do "pano de fundo" que ajuda a explicar porque a recomendação kardequiana do crivo da razão ser tão alardeado, mas tão pouco praticado entre nós. Daí o relativo fechamento intelectual de vários dos espíritas atuais. Neste sentido, um dos personagens do livro "Nos Domínios da Mediunidade" (Cap. 5 – Assimilação de Correntes Mentais), Aulus, fala da preguiça mental que muitos temos em raciocinar por conta própria (os negritos são meus):

"Áulus, o orientador espiritual de André Luiz e de seu companheiro Hilário, explica a ambos como ocorre a assimilação das correntes mentais pelos encarnados. Hilário, intrigado com a explanação, pondera: 'Não será, porém, tão fácil estabelecer a diferença entre a criação mental que nos pertence daquela que se nos incorpora à cabeça'. Áulus, responde, instruindo:
– Sua afirmativa carece de base – exclamou o Assistente. – Qualquer pessoa que saiba manejar a própria atenção observará a mudança, de vez que o nosso pensamento vibra em certo grau de freqüência, a concretizar-se em nossa maneira especial de expressão, no círculo dos hábitos e dos pontos de vista, dos modos e do estilo que nos são peculiares.
E, bem-humorado, comentou:
– Em assuntos dessa ordem, é imprescindível muito cuidado no julgar, porque, enquanto afinamos o critério pela craveira terrena, possuímos uma vida mental quase sempre parasitária, de vez que ocultamos a onda de pensamento que nos é própria, para refletir e agir com os preconceitos consagrados ou com a pragmática dos costumes preestabelecidos, que são cristalizações mentais no tempo, ou com as modas do dia e as opiniões dos afeiçoados que constituem fácil acomodação com o menor esforço. Basta, no entanto, nos afeiçoemos aos exercícios da meditação, ao estudo edificante e ao hábito de discernir para compreendermos onde se nos situa a faixa de pensamento, identificando com nitidez as correntes espirituais que passamos a assimilar'."

terça-feira, 2 de novembro de 2010

CRIVOS DA RAZÃO - Parte 4: A Falácia Relativista

"Para mim, é verdade" é um comentário comumente feito pelos que se vêem perdendo uma discussão. Ele lhes fornece um curinga conveniente para continuar jogando. As crenças, é claro, variam de uma pessoa para outra. Mas a verdade pode variar da mesma maneira?

VOCÊ ACREDITA EM FADAS?
O que significa exatamente "Para mim, é verdade"? Suponha que você esteja tentando convencer sua amiga louca por fadas que é improvável que as belas borboletas azuis gigantes sejam fadas disfarçadas. Então, ela diz: "Bem, para mim é verdade que elas são mesmo fadas". Estaria ela sugerindo que esta verdade em relação às borboletas azuis é relativa? Que não há verdade independente, objetiva, acerca delas - as coisas são como cada  um de nós acredita que sejam? Por que ela poderia pensar isso?


"ISSO PODE SER FALSO PARA VOCÊ, MAS, PARA MIM, É VERDADE."


Uma confusão comum é deslizar do que é verdade sobre a crença de alguém (ou seja, que é verdade que a pessoa acredita naquilo) para a verdade daquilo em que a pessoa crê (ou seja, que sua crença representa a verdade). Pode ser verdade que creio que Belém, a capital do Estado do Pará, seja o local de nascimento de Jesus. Disso não se segue que minha crença seja verdadeira. Se fosse assim, eu poderia tornar qualquer afirmação verdadeira crendo nela: "Posso voar", por exemplo. Obviamente, a maioria das verdades não é relativa deste modo.


João: A crença em fadas é claramente falsa. Não há nenhum indício de que elas existam, e muitos que não existam. Portanto, é absurdo que você acredite nelas e mais ainda que as borboletas azuis sejam fadas.
Joana: Bem, a existência de fadas pode não ser verdade para você. mas, para mim, é verdade! E é também verdade para mim que as borboletas azuis são fadas disfarçadas!


Algumas verdades parecem relativas. Que larvas de besouro podem ser uma refeição deliciosa, por exemplo, é verdade para alguns aborígines australianos e índios brasileiros, mas falso para pessoas de muitas outras culturas.


VERDADES RELATIVAS
Comete-se essa falácia quando não se demonstra que a "verdade" em questão é, de fato, relativa. Quando uma pessoa tentar usar essa tática com você, um bom primeiro passo é perguntar se ela está sugerindo que a verdade é sempre qualquer coisa que ela acredita que seja. Se a resposta for "sim", você pode explicar, com exemplos, por que ela está errada. Se for "não", então é possível que ela está apenas indicando que discorda de você, o que é obviamente verdade e não enfraquece o que você está dizendo, a sua argumentação.


FonteLaw, Stephen. Guia Ilustrado Zahar: Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2008