quarta-feira, 30 de março de 2011

O Que é Vivenciado Durante uma Sessão de Regressão é Real ou Fantasia?


       Numa postagem anterior, “Terapia de Regressão Vivencial”, explanei sobre alguns aspectos desta técnica de psicoterapia, exemplificando com um caso real. Na presente postagem, vou avançar um pouco mais sobre este assunto.
       Uma questão que, por vezes, preocupa pessoas interessadas na Terapia de Regressão Vivencial, é se os acontecimentos vividos durante uma sessão de regressão são reais ou fantasias. Para responder a esta questão, são importantes alguns esclarecimentos prévios sobre como funciona nossa memória.
       Não recordamos os fatos vividos da mesma forma como um computador recupera dados registrados em seu disco rígido (HD). Porém, “a neurociência demonstra que o encéfalo1 não armazena propriamente registros factuais, mas sim traços de informações que serão usados para reconstruir as memórias, nem sempre representando um quadro fiel ao que foi vivenciado no passado. Para executar tal processo, diferentes partes do encéfalo (...) codificam, armazenam e recuperam as informações que serão usadas para criar memórias. Por conseguinte, sempre que um evento traumático ou emocional é recuperado, ele pode ser submetido a uma mudança cognitiva e emocional.” (Peres et al., 2005).2

       Isto significa que, quando memorizamos um fato, este não fica guardado todo num único local em nosso encéfalo, mas aspectos diferentes dele ficarão gravados em diferentes locais do encéfalo. Por exemplo, imaginemos que estamos vendo pela primeira vez uma arara. Ao olharmos para ela, sua imagem é recebida e fragmentada pelas milhões de células da nossa retina (chamadas de fotorreceptoras, ou seja, receptoras de estímulos luminosos). Um grupo destas células capta as cores - algumas captam o vermelho, outras captam o verde e outras o azul, num sistema similar ao usado pelos aparelhos de televisão, embora o nosso seja muito mais sofisticado e preciso. Um outro grupo de fotoreceptoras capta os tons de cinza, um terceiro grupo capta a distância da imagem e sua profundidade, e um quarto grupo capta a intensidade da luz que vem da imagem. Cada aspecto da imagem da arara assim fragmentada é processada e armazenada em diferentes partes do encéfalo. Então, uma outra parte do encéfalo junta todos estes aspectos da imagem, formando a síntese que representa para nós a imagem da arara.
       Se, entretanto, quando estamos vendo a arara experimentarmos uma forte emoção, por exemplo, soubermos que alguém de quem gostamos muito morreu, a imagem-síntese da ave que nosso encéfalo construirá poderá ser diferente daquela formada numa situação emocionalmente neutra para nós. Além disto, poderá ficar gravada em nossa memória com uma carga emocional de tristeza. Porém, vendo outras araras posteriormente, em situações mais agradáveis, esta imagem-síntese poderá se modificar, ficando mais de acordo com a arara real, assim como a tristeza associada poderá ir se dissipando, dando lugar a uma carga emocional neutra ou até positiva. Ou seja, esta imagem-síntese que formamos é dinâmica e, a cada vez que é evocada, pode ser modificada, por influência de novas experiências e emoções, como mostra o exemplo, e mesmo por algumas condições orgânicas da pessoa no momento.
       Por outro lado, observamos na prática psicoterápica que, quando o paciente revive um fato, principalmente quando ocorrido num passado remoto, algumas vezes o reconstrói misturando-o com elementos de sua experiência atual, como filmes ou livros que leu, estórias que ouviu, paisagens e edificações que conheceu. Daí pode surgir a dúvida: não será apenas uma recordação de algo que leu, ouviu ou viu em algum lugar? Uma falsa memória? É uma dúvida razoável.
       Uma resposta a esta dúvida é que, ao reconstruímos nossas memórias, elas são influenciadas por algumas das nossas condições orgânicas e emocionais no instante em que as evocamos, mas também pelo repertório de conhecimentos, habilidades e experiências que adquirimos até o momento. Assim, algo que vivemos aos seis anos de idade e que nos deixou muito felizes, aos sete anos recordaremos de uma maneira e aos vinte e sete de maneira diversa.
       Uma outra resposta pode ser dada por esta reflexão: por que aquele conteúdo emergiu exatamente naquele momento, ao revivê-lo em estado alterado de consciência (EAC)? Não é por acaso. Durante a sessão psicoterapêutica, o que emerge do inconsciente tem um significado específico relacionado ao tema que está sendo tratado, como a prática clínica tem mostrado inúmeras vezes.
       Tendo em vista as considerações acima, algo que é muito importante para o processo de reestruturação de memórias traumáticas por meio da Terapia de Regressão Vivencial é se essas memórias emerjam espontaneamente do inconsciente do paciente, sem que seu conteúdo tenha sido induzido pelo psicoterapeuta. O psicoterapeuta conduz o processo de regressão, não seu conteúdo. Por exemplo, ao tratar de um tema, como a “dificuldade de tomar decisões que envolvam laços afetivos”, o psicoterapeuta auxilia o paciente a focar o tema antes e durante a indução ao estado alterado de consciência necessário para a regressão. Contudo, não o induz a reviver qualquer fato específico. Orienta-o apenas a reviver um fato traumático que tenha dado origem ou reforçado a “programação negativa” que está lhe causando dificuldades na sua vida pessoal ou profissional.
       Se o fato traumático revivido pelo paciente durante a sessão de regressão é espontâneo, significativa e emocionalmente real para ele, a elaboração deste fato, auxiliada pelo psicoterapeuta, torna-se um importante fator no processo de superação do trauma e, conseqüentemente, na solução das dificuldades decorrentes. Isto é o que tem mostrado não só a minha prática psicoterapêutica, mas igualmente a prática de muitos outros psicólogos e psiquiatras que atuam nesta abordagem psicoterapêutica.
       Numa próxima postagem, vou clarear melhor o que expus acima, por meio de exemplos reais de reestruturação de memórias traumáticas.
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1 Encéfalo: parte do sistema nervoso central, contida no crânio, que compreende o cérebro, o cerebelo e a medula alongada.
2 Peres, J.F.P., Mercante, J.P.P., Nasello, A.G. Promovendo resiliência em vítimas de trauma psicológico. Rev Psiquiatr RS. 2005;27(2):131-138.

domingo, 20 de março de 2011

Causas e Soluções de Muitas das Nossas Aflições

Reflexões sobre os itens 4 e 5, Cap. V, do Evangelho Segundo o Espiritismo.

       Todos enfrentamos, durante nossa vida, aflições decorrentes de problemas, decepções, sofrimentos físicos e morais. Quais as causas dessas aflições? Essas causas podem se originar tanto na vida atual, como de vidas anteriores...
       Veremos que muitas das nossas aflições são conseqüências de coisas que fizemos ou deixamos de fazer nesta vida.  Vamos ver, também, como evitar muitas dessas aflições.
       Quantas coisas deixamos por terminar, desde tarefas domésticas, relacionamentos, cursos, projetos, por falta de perseverança!...

       Por desorganização, quantos documentos, prazos, compromissos perdemos na nossa vida, desperdiçando oportunidades valiosas... E depois reclamamos da nossa falta de sorte, da falta de oportunidades!
       Nas épocas em que temos mais condições, por imprevidência deixamos de guardar dinheiro para os períodos difíceis, e quando estes ocorrem, queixamo-nos da má sorte, e sonhamos soluções mágicas, como ganhar na loteria e coisas parecidas...
       Isto ocorre também por não controlarmos nossos desejos e ansiedades: às vezes nos excedemos na comida, na bebida, na direção de veículos, no sexo...
       E quando as conseqüências desses excessos surgem mais tarde sob a forma de acidentes, doenças do corpo e da mente, queixamo-nos da má sorte, reclamamos da nossa infelicidade, quando ela foi provocada por nós mesmos...
       Por vezes, por vaidade tola, para manter “as aparências”, gastamos dinheiro que não temos, para comprar coisas de que não precisamos, para impressionar pessoas com quem não nos afinamos, para parecermos quem não somos.
       Reclamamos que somos infelizes no casamento, mas é possível que tenhamos entrado nessa união por outros motivos que não por uma afinidade de alma com o cônjuge, visando à construção de uma família saudável. Contudo, podemos ainda, se realmente quizermos, desenvolver o amor conjugal e familiar verdadeiros...
       Queixamo-nos de nossos filhos, de sua falta de respeito e de sua ingratidão, mas nos esquecemos de quantas vezes deixamos de atuar com amor e firmeza, corrigindo seus erros e más tendências, mostrando-lhes o caminho do bem e fortalecendo suas boas tendências. E assim, com nossa complacência, permitimos que se desenvolvessem neles o orgulho, o egoísmo e a vaidade, que lhes ressecaram o coração.
       Por não controlarmos nossa cólera, entramos em disputas, conflitos e brigas improdutivas e desnecessárias, que nos envenenam e aos outros...
       E depois nos colocamos como vítimas, acusando o outro de algoz, culpando-o por nossa infelicidade, esquecendo-nos convenientemente do que dissemos e fizemos (ou deixamos de fazer por negligencia ou teimosia) que levou a tais conflitos...
       Percebemos, então, que muitas das nossas aflições se devem a nós mesmos... Somos os autores de grande parte nossos de infortúnios atuais!
       Mas, evitaremos muitos desses males na medida em que trabalharmos para o nosso adiantamento moral, reformando-nos intimamente, e para o nosso adiantamento intelectual, estudando e aprendendo sempre mais...

       A justiça humana alcança algumas faltas e as pune. O condenado pode dizer, então, que sofreu a conseqüência do que fez. Mas a justiça não alcança, nem pode alcançar todas as faltas. Geralmente, ela castiga as que causam prejuízo à sociedade, e não as que prejudicam apenas a nós mesmos...

       A Justiça Divina, por sua vez, alcança a todas as faltas, nada lhe escapa... Não há falta, por menor que seja, que escape à lei da ação e reação. Desde faltas mais graves, crimes, até mesmo as pequenas, como se exceder num almoço, com o conseqüente mal-estar posterior, ou numa palavra mais áspera, com conseqüências prejudiciais para o relacionamento e a paz interior.
       Contudo, o objetivo da Justiça Divina não é punir, fazendo-nos sofrer, para que “paguemos” pelo mal que fizemos a nós e a outros, mas nos ensinar, de maneira que este aprendizado fique profundamente gravado em nosso espírito, para que não o esqueçamos tanto no presente como no futuro.
       Para isto, não basta apenas compreendermos racionalmente as conseqüências para nós e para os outros do que fizemos de errado. Isto é necessário, mas não é suficiente. Precisamos sentir de fato, de coração, que erramos, percebendo as conseqüências do que fizemos, para que o aprendizado penetre no fundo de nossa alma, modificando-nos. E este aprendizado é provado e reforçado pela reparação dos males que causamos.
       Compreender e sentir o que fizemos de errado, e repará-lo, se possível para quem causamos algum mal. Quando isto não for possível, ajudarmos outras pessoas a superar males semelhantes, pois, como escreveu o apóstolo Pedro em sua 1ª epístola (cap. 4, versículo 7), “o amor cobre a multidão dos pecados”.
       Este aprendizado pode surgir, entretanto, um pouco tarde, quando muito da nossa vida já foi desperdiçada e perturbada... Podemos pensar, então: “Se no começo da vida eu soubesse o que sei agora, quantas faltas teria evitado!... Se eu tivesse que recomeçar, eu teria me portado de maneira diferente. Mas não há mais tempo!”...
       Como o trabalhador negligente que diz “perdi o meu dia”, cada um de nós que despertamos tarde para a Lei Divina, dirá “perdi a minha vida”... Mas, assim como para o trabalhador o sol nasce no dia seguinte, e começa uma nova jornada na qual pode recuperar o tempo perdido, para nós também brilha o sol de novas oportunidades a cada dia, que podemos aproveitar... Lembremo-nos de que, “embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim” (Chico Xavier).
       É difícil fazermos isto sozinhos. Mas, ao elevarmos nossos pensamentos e sentimentos a Deus, numa oração sincera, no íntimo de nosso coração, pedindo forças e compreensão para colocarmos em prática nossos bons propósitos, esta força e esta compreensão nos virá... Nunca estamos sozinhos... O Plano Espiritual sempre nos acompanha e vela por nós!

segunda-feira, 14 de março de 2011

Terapia de Regressão Vivencial

       Numa postagem anterior, comentei sobre como as gestalts abertas inconscientes (situações não resolvidas que suprimimos da nossa consciência pela ”repressão”) drenam a nossa energia. E, enquanto não resolvidas, podem ficar gravadas em nosso inconsciente como “programações negativas”. Comentei, também, que estas “programações negativas” podem ser combatidas por meio de processos que permitam ao paciente reviver e reelaborar o episódio traumático. Um destes processos é a técnica Peres de Regressão Vivencial, a Terapia Reestruturativa Vivencial Peres (TRVP), criada pela psiquiatra dra. Maria Júlia Prieto Peres.
       Para explicar o que é e como funciona a Terapia de Regressão Vivencial, vou contar um caso real de sua utilização. Por questões éticas, o nome da paciente é fictício, informações que permitiriam identificá-la foram mudadas, e há seu consentimento para a publicação deste caso.

       Vera, 43 anos, divorciada, dois filhos. Seu problema: sentia-se insegura em tomar decisões importantes para a sua vida, deixando que outros as tomassem. Tinha muita dificuldade em dizer não, abdicando-se de suas próprias necessidades para atender a dos outros, e se sentia constantemente insegura e ansiosa. Isto ocorria tanto em casa (morava com a mãe, que “mandava” nela e nos netos), como no trabalho (permitia que até colegas dessem-lhe ordens). A sessão de regressão vivencial, descrita a seguir, faz parte de um conjunto de sessões a que Vera se submeteu, durante um período de seis meses, enfocando o tema: a relação de excessiva dependência da mãe.
       Após o terapeuta aplicar uma técnica de relaxamento que leva Vera a um estado aprofundado de consciência, orienta-a para que reviva um evento relacionado ao tema, que esteja na origem do problema que está sendo trabalhado na sessão. Porém, que seja um evento que ela tenha, no momento, condições emocionais de vivenciar e elaborar.
       No início da regressão, Vera começa a chorar. Quando perguntada sobre o motivo do choro, fala que se vê deitada no chão, chorando. Tem três anos de idade. “Acho que ela não gosta de mim”, diz com voz meio infantil. O terapeuta pergunta quem é ela e Vera responde: “Minha mãe”.
       Continuando, diz: “Está escuro, não tem nenhuma luz”. Tem medo, treme, sente-se sufocar. Sente-se triste e rejeitada. A mãe está ao lado – “Ela está vendo eu chorar. Ela não me dá a mão. Ela só olha para mim.” Pede colo à mãe, mas esta não lhe responde, nem faz qualquer gesto em sua direção. “Eu tou sozinha. O que eu vou fazer sozinha? Não quero mais ficar sozinha”. Sente-se triste, com “um grande vazio”.
       Acha que sua mãe não está se importando – “Não fica com pena”. Vê, então, sua mãe esticando os braços em sua direção: “Engraçado, ela com o braço esticado e eu olhando pra ela. Eu estava pedindo colo pra ela, mas agora não”. Ambas, mãe e filha, ficam quietas, olhando uma para outra. Vera sente que sua mãe está pedindo ajuda: “É engraçado o que eu estou sentindo. É como se ela estivesse pedindo ajuda também. Eu pedindo ajuda e ela pedindo ajuda”.
      Vera toma consciência, então, que sua mãe não queria ter tido uma filha. Não queria ter ficado grávida. Neste momento, reage e lutando contra a tristeza, contra o sentimento de rejeição, o medo e a sensação de sufocamento consegue se sentar, e isto é uma grande vitória para ela que, assim, retoma contato com suas forças internas.
       Com Vera ainda em estado aprofundado de consciência, o terapeuta a orienta para que identifique, em relação a tudo o que vivenciou, o momento mais traumático, mais significativo. Identifica-o como o momento em que, no chão, encolhida, pede colo à mãe, mas esta só olha e não faz nada. O terapeuta conduze-a, então, a revivenciar este momento, explorando-o mais a fundo. Revivencia as emoções, sensações, pensamentos e intuições já descritos e percebe outras coisas: vê-se, em determinado momento, como se encolhesse  ̶Como se eu estivesse encolhendo, encolhendo, encolhendo, diminuindo. Estou encolhida como se fosse morrer”.
      O terapeuta ajuda-a a aprofundar a elaboração da vivência. Ela percebe, então, com mais clareza, as carências e fragilidades da mãe, tanto na época, como na atualidade, e sente compaixão por ela. Aprofunda, também, a consciência de suas forças internas e formula uma redecisão de vida baseada naquela vivência: “Eu supero as minhas dificuldades”.
      A elaboração da redecisão é um dos momentos-chave de uma terapia bem sucedida de regressão vivencial, e deve brotar do próprio paciente com a ajuda do terapeuta, que age como um “parteiro” facilitador do processo. A redecisão deve ser sentida pelo paciente como algo que elimina total ou parcialmente as percepções e “mandatos” ou “programações” negativas induzidas pela situação traumática ocorrida no passado.
       Ao dizer a frase da redecisão, Vera sente “uma força que vem de dentro”. O terapeuta pede, a seguir, que visualize uma cena em que esteja aplicando naturalmente a redecisão. Vera visualiza-se no meio de muitas pessoas agitadas, nervosas e, ao contrário do que faria habitualmente (também ficaria nervosa, até mais do que as pessoas ao redor), vê-se calma, raciocinando com clareza e encontrando solução adequada à situação.
      A sessão continua com um processo de desprogramação que permite que a recordação permaneça, mas sem a carga pesada das sensações e emoções negativas, agora já elaboradas, e termina com a programação positiva – um processo de fortalecimento da redecisão e das emoções e imagens positivas associadas.
      A sessão seguinte é uma sessão de integração, isto é, uma sessão para ajudá-la a integrar em sua vida diária tudo o que viveu. É muito comum, durante a semana, o paciente ter novos “insights”, isto é, compreender, com mais detalhes, a relação causal do que vivenciou na sessão com padrões de comportamentos que tem tido em sua vida e que a prejudicam. A sessão de integração serve, também, para avaliar como a redecisão está sendo aplicada na sua vida e o ajudar nesta aplicação.
       No caso da Vera, posteriormente coisas importantes ocorreram, já perceptíveis na sessão de integração e reforçadas com as sessões de regressão e integração seguintes: começou a perceber sua mãe de outra maneira, perdendo o medo e estabelecendo com ela uma relação mais madura, colocando limites aos seus comportamentos dominadores e assumindo mais seu papel de mãe junto aos dois filhos, orientando-os com maior segurança. Também no trabalho começou a atuar mais assertivamente, tomando decisões e se posicionando mais claramente em reuniões, ocupando seu espaço legítimo e ampliando suas chances de crescimento, passando a ser notada positivamente por superiores e colegas, não mais se sentindo “invisível” como se sentia antes.
       
       Um alerta! É importante ressaltar que a terapia de regressão vivencial é uma técnica complexa, que atua profundamente no inconsciente e, por isto, se não for bem conduzida, por profissional habilitado, poderá fazer mais mal do que bem. Além disto, há casos para os quais é adequada e outros para os quais não é. Por estas razões, só deve ser aplicada por psicólogos ou psiquiatras com uma formação específica neste campo, o que inclui terem se submetido, como pacientes, a um processo de terapia didática em regressão vivencial.

terça-feira, 8 de março de 2011

Brilhe Vossa Luz!


       “Brilhe vossa luz diante dos homens” (Mt 5, 16).

       Quando, em termos mundanos, fala-se de brilhar, normalmente isto significa sobrepujar outras pessoas em competições, derrotar adversários de maneira “brilhante”, muitas vezes os humilhando. Não é deste “brilho” que fala Jesus. Entendo que a luz a que Jesus se refere não é a luz que humilha, mas a que orienta, não é uma luz que “gela” com esnobação o adversário, mas a que aquece com amor. 

       Esta luz é resultante de um árduo trabalho interno, semelhante à criação de um diamante, inicialmente um pedaço de carvão que, submetido a fortíssimas pressões e temperaturas, transforma-se em diamante bruto (nosso potencial interno). Mas, este diamante, para brilhar, ainda precisa da lapidação, do contato com outros diamantes (pois só um diamante lapida outro), para se tornar um brilhante. Ou seja, nosso potencial interno de contribuição aumentará gradativamente o brilho da luz de que fala Jesus, à medida em que praticarmos a convivência harmoniosa e produtiva com os nossos próximos (sermos parte da solução, não do problema), submetermo-nos à lapidação do “bom combate”, do qual falava Paulo de Tarso.

Nosso Aprendizado no Mundo


       Qual a finalidade do nosso aprendizado no mundo? Pensando profundamente na questão, concluo que é melhorar, tornarmo-nos uma pessoa do Bem. Talvez uma das melhores definições do que significa uma pessoa do Bem possa ser dada parafraseando-se um trecho no qual Paulo de Tarso escreve sobre a caridade, na sua 1a carta aos Coríntios (I Coríntios 13, 4-7), substituindo-se “caridade” por “pessoa do Bem”, com alguns comentários adicionais entre parênteses:
       “A pessoa do Bem é paciente, é bondosa. Não tem inveja (o invejoso não acredita em si mesmo, nem na justiça divina). A pessoa do Bem não é orgulhosa. Não é arrogante (a arrogância esconde o medo de ser sobrepujado, de fato uma desconfiança de seu próprio poder pessoal e, ao contrário do que parece à 1a vista, mascara uma fraqueza, não a força que aparenta). Nem escandalosa. Não busca (em 1o lugar) os seus próprios interesses, não se irrita (e, se isto ocorrer, pois é humano, volta rapidamente ao seu equilíbrio), não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça (mesmo que a favoreça), mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa (ou seja, perdoa, não fica guardando ressentimentos), tudo crê (pois tem uma fé firme e esclarecida, uma crença profunda na natureza divina, porque essencialmente bondosa), tudo espera (tem a esperança, o otimismo de quem sabe que tudo o que nos acontece é para o nosso bem, para a nossa evolução, pois Deus é Bondade Infinita), tudo suporta (por sua fé, por sua esperança e por seu amor a Deus, a si mesmo e ao seu próximo).
       Parece  uma meta muito alta para nós, pessoas comuns. E é! Imposssível, talvez, para nós, seres comuns, a atingirmos numa única encarnação. Mas faz sentido como meta maior a ser alcançada ao longo de encarnações... Muita luz!

segunda-feira, 7 de março de 2011

Nossas Gestalts Abertas Inconscientes


       A sabedoria tradicional chinesa chama de “ch’i” a nossa energia vital. O ch’i circula por todo nosso ser – corpo e mente. Os meridianos da acupuntura mostram os caminhos dessa energia sutil e poderosa. Quando flui livremente, produz a saúde, que a OMS - Organização Mundial de Saúde define como “(...) o estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença”. Quando bloqueada no seu fluxo natural, pode provocar sensações de cansaço, estresse, dificuldade em tomar decisões, e transtornos físicos e mentais mais graves.

       Comentei, numa postagem anterior, sobre as gestalts abertas, aquilo que nos dispersa, diminuindo nossa energia e produtividade. E que, para as resolvermos, o primeiro passo é tomar consciência delas (como fechar as gestalts abertas). Quando se trata de fatos, tarefas e conflitos do nosso dia-a-dia, essa consciência é mais fácil.

       Contudo, há outro nível de gestalts abertas das quais, normalmente, não temos consciência e sobre as quais não comentei na postagem anterior. Estas gestalts abertas inconscientes, situações não resolvidas que aparentemente esquecemos, decorrem, muitas vezes, de traumas sofridos num passado recente ou distante e que, por serem muito doloridos, suprimimos da nossa consciência pelo mecanismo de defesa do ego chamado ”repressão”. Estas memórias traumáticas, como gestalts abertas, drenam a nossa energia vital – o chi. O esforço para as manter reprimidas, também consome energia. Elas funcionam, portanto, como um bloqueio ao livre fluxo do ch’i.

       Por exemplo, se nos deparamos com o que julgamos uma traição de alguém a quem estamos muito ligados emocionalmente – um familiar, um cônjuge, um amigo –, este fato pode ser muito traumático para nós. No momento mais dolorido do episódio, sofremos um estresse emocional. Neste momento, tendemos a tomar decisões como, por exemplo, “nunca mais vou confiar em alguém”. Quanto mais traumático para nós foi este momento, maior a energia que colocaremos nesta “decisão”. E isto poderá levá-la a ficar gravada em nosso inconsciente. E, é claro, maior será o nível de energia que sua repressão demandará.

       Estas “decisões” gravadas “a ferro e fogo” no nosso inconsciente, no calor dos acontecimentos e da dor causada pela situação traumática, podem depois ser “esquecidas”, ou seja, reprimidas. Contudo, permanecem ativas no nosso inconsciente, influenciando nossas percepções, emoções, pensamentos e ações. Isto é denominado “transtorno de estresse pós-traumático”, podendo se dissipar através de novas experiências de vida. Entretanto, em casos mais graves, quando o abalo emocional foi mais profundo, pode provocar uma alteração mais duradoura de personalidade e facilitar o surgimento de doenças físicas.

       No caso do exemplo da traição, podemos passar a ter dificuldades para confiar em pessoas que, inconscientemente, associamos àquela que nos traiu. Ou, dependendo da carga emocional que colocamos na nossa “decisão”, essa desconfiança pode até se estender às pessoas em geral.

       Semelhante a um “vírus” de computador, estas programações ocultas podem “travar” nosso sistema vital, nossas decisões e ações, ou torná-lo mais lento, dificultando pensamentos, decisões e ações que, de alguma forma, inconscientemente associamos ao fato traumático. Ou, ainda, podem nos levar a “perder dados”, isto é, a esquecermos de compromissos, pessoas e fatos. E estes “esquecimentos” freqüentemente causam problemas pessoais e profissionais.

      Como combater essas programações negativas? Há várias formas. Nos casos mais amenos, novas experiências, mais positivas, podem facilitar a modificação de tais programações. O fato de nos abrirmos a estas novas experiências pode apressar este processo de cura. É o caso, por exemplo, de alguém que, pela primeira vez, dá uma batida séria com o carro. Isto pode ser uma experiência traumática e provocar medo de guiar novamente. Uma maneira de superar isto é enfrentar a situação que o amedronta, como por exemplo, guiar em pequenos percursos e, à medida em que for recuperando sua segurança, aumentar gradativamente o percurso, até atingir o patamar anterior ao acidente. Porém, a resistência para voltar a dirigir, bem como a falta de prática, podem levá-lo a uma insegurança ainda maior, consolidando o medo e dificultando, cada vez mais, essa retomada.

       Em casos mais graves, porém, pode ser necessário o combate aos efeitos e às causas destas programações negativas. Os efeitos podem ser combatidos por medicação específica e as causas, por psicoterapia.

       Uma abordagem que tem mostrado bons resultados na reestruturação de memórias traumáticas é a que cria condições para que o paciente reviva, de forma catártica, os fatos traumáticos, trazendo-os à consciência, para então os elaborar.

       No exemplo da pessoa traída, o psicoterapeuta, por meio de técnicas apropriadas (relaxamento, hipnose, e/ou outras técnicas), leva a pessoa a reviver a situação em que presenciou ou tomou conhecimento da traição. Revivendo intensamente as emoções que o episódio lhe causou, bem como as sensações e pensamentos que teve, a pessoa revive a “decisão” que tomou na época (“nunca mais vou confiar em alguém”, no exemplo) e a carga emocional associada (exemplo: decepção, raiva, tristeza, solidão). A partir daí, com o auxílio do psicoterapeuta, ela tem condições de revê-la e tomar uma nova decisão mais saudável. Se esse processo for bem conduzido, a pessoa sentirá, ao fazer a “redecisão”, sensações de alívio, bem-estar, libertação. E a colocará em prática, em parte consciente e em parte inconscientemente, estabelecendo novos hábitos e padrões mais saudáveis de pensamento e ação.

domingo, 6 de março de 2011

A Porta Larga e a Porta Estreita



     "Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição e numerosos são os que por aí entram. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida e raros são os que o encontram" (Mt 7:13-14)

     Decisões sobre a “porta larga” e a “porta estreita” ocorrem muitas vezes em nossa vida. Às vezes, são decisões cruciais que afetam não só a nós, mas àqueles à nossa volta, relativas a trabalho, moradia, estudo, amizade, lealdade, ajuda ao próximo, compromissos, casamentos, filhos: qual o caminho do bem? Qual a decisão mais de acordo com o “amar ao próximo como a nós mesmos”? Tais escolhas tendem a mudar substancialmente nossa vida. Às vezes, só anos após entendemos completamente o quanto fomos egoístas, acomodados e/ou alienados, escolhendo, na época, a porta larga, mais fácil, aparentemente mais prazerosa no curto prazo, mas que, a médio ou longo prazo nos levou a desilusões e sofrimento.

Contudo, há também pequenas decisões do dia-a-dia, deveres ou responsabilidades que se configuram em decisões relativas ás duas portas: fazer agora/hoje (a porta estreita), ou posterga-los para um amanhã indefinido (a porta larga)? Assumirmos determinadas tarefas que a nossa consciência aponta como nossas, ou nos esquivarmos delas? A soma destas pequenas decisões vão criando base para as grandes decisões. Estaremos criando um hábito positivo, ou um vício, conforme a porta que sistematicamente escolhermos. Uma sábia senhora disse-me uma vez que um futuro positivo depende da soma dos nossos presentes bem vividos...