domingo, 18 de setembro de 2011

AMOR COMO DELEITE E AMOR COMO BENEVOLÊNCIA

Concluindo as postagens "Alguns Mitos e Verdades sobre Ateus, Agnósticos e Crentes" - Parte 1 e Parte 2, cito e comento mais alguns trechos do capítulo "A Vida Virtuosa" do livro "No Que Acredito", nos quais Bertrand Russell discorre sobre o amor.


"Amor é uma palavra que abrange uma variedade de sentimentos; empreguei-a propositalmente porque desejo incluí-los todos. O amor como emoção - sentimento a que me refiro, já que o amor 'por princípio' [Bertrand parece se referir aqui ao amor como "mandamento" externo à pessoa, como dever, em contraposição ao amor como livre opção - 'amo porque quero amar, não porque devo amar'] não me parece legítimo - desloca-se entre dois polos: de um lado, o puro deleite na contemplação; de outro, a benevolência pura. No que diz respeito aos objetos inanimados, tem lugar apenas o deleite; não podemos sentir benevolência para com uma paisagem ou uma sonata. Esse tipo de prazer é presumidamente a fonte da arte. Em regra, é mais forte nas crianças na tenra idade do que nos adultos, inclinados que estão a considerar os objetos de uma perspectiva utilitária. Ele desempenha uma função importante em nossos sentimentos para com os seres humanos, alguns dos quais providos de encanto e outros ao contrário, quando considerados simplesmente como objetos de contemplação estética."


Russell prossegue, refletindo sobre o outro polo:


"O polo oposto do amor é a benevolência pura. Houve homens que sacrificaram suas vidas em amparo aos leprosos; nesse caso, o amor que sentiam não poderia ter tido qualquer componente de prazer estético. O afeto dos pais, via de regra, é acompanhado pelo encanto pela aparência do filho, mas permanece forte mesmo na ausência total desse elemento. Pareceria estranho chamar de 'benevolência' o interesse da mãe pelo filho doente, visto que nos acostumamos empregar essa palavra para descrever uma emoção fugaz que nove em dez vezes só constitui logro. De toda forma, é difícil encontrar outro termo para descrever o desejo pelo bem-estar de outra pessoa. Por certo um desejo de tal natureza, no caso de sentimento dos pais em relação ao filho, pode atingir qualquer grau de intensidade. Em outros casos, ele é menos intenso; de fato, afigura-se plausível que toda emoção altruística seja uma espécie de transbordamento do amor paternal ['paternal' no sentido de amor dos pais - pai e mãe], ou por vezes a sua sublimação. Na falta de um termo melhor, devo chamar essa emoção de 'benevolência'. Mas esclareço que falo aqui de uma emoção, e não de um princípio, e que nela não incluo qualquer sentimento de superioridade, como algumas vezes é associado à palavra. O vocábulo 'simpatia' expressa parte do que quero dizer, mas omite o componente de atividade que desejo incluir." A benevolência de que fala Russell é ativa, leva quem a sente a agir em benefício da pessoa que é objeto dessa benevolência.


"O amor, em sua totalidade, é uma combinação indissolúvel de dois elementos, deleite e benquerer. O prazer dos pais ante um filho belo e bem-sucedido é uma combinação de ambos os elementos; tal como o amor sexual, no que tem de melhor. Mas no amor sexual só existirá benevolência quando houver uma posse segura, pois, do contrário, o ciúme a destruirá, ainda que talvez aumente o prazer na contemplação." Aqui concordo apenas em parte com Russell: observo que, para a maioria (talvez a grande maioria) das pessoas, o que ele afirma sobre a forte ligação da 'benevolência' com a 'posse', no amor sexual, é verdadeiro. Mas, não para todas. Prosseguindo a citação (o negrito é meu):


"O deleite desprovido de benquerer pode ser cruel; o benquerer desprovido de deleite tende facilmente a tornar-se um sentimento frio e um tanto arrogante. [Realço o 'tende', pois concordo com ele: sem autoconhecimento, honestidade consigo mesmo e vigilância, pode-se deslizar para uma certa arrogância e frieza de sentimentos].


Russell a seguir reflete sobre o amor que desejamos para nós mesmos:


"Alguém que deseje ser amado quer ser objeto de um amor que contenha ambos os elementos, exceto nos casos de extrema fragilidade, como na infância e nas situações de grave enfermidade. Nesses casos, a benevolência pode ser tudo do que se deseja. Por outro lado, nos casos de extremo vigor, mais que benevolência, deseja-se a admiração: é o estado de espírito de potentados e beldades famosas. Só desejamos o bem dos outros à medida que nos sentimos carentes de ajuda ou sob a ameaça de que nos faça mal. Pelo menos essa pareceria a lógica biológica da situação, mas não é muito aplicável ao que toca à vida. Desejamos afeto a fim de escaparmos do sentimento de solidão, a fim de sermos, como costumamos dizer, 'compreendidos'. É uma questão de simpatia, e não simplesmente de benevolência; a pessoa cujo afeto nos é satisfatório não nos deve unicamente querer bem, mas também saber em que consiste nossa felicidade. Isso, no entanto, pertence ao outro componente de uma vida virtuosa, a saber: o conhecimento."

terça-feira, 13 de setembro de 2011

ALGUNS MITOS E VERDADES SOBRE ATEUS, AGNÓSTICOS E CRENTES - Parte 2

Antes de expor as idéias de Russell sobre conhecimento e amor, é importante sabermos algo mais sobre ele. 


Bertrand Arthur William Russell, terceiro conde de Russell, nasceu no País de Gales (Grã Bretanha), em 1872, de uma família tradicional. Tornou-se famoso como filósofo, lógico e matemático, além de persistente humanista.


Escritor prolífero, ajudou a popularizar a filosofia por meio de palestras e comentários sobre grande variedade de assuntos, não apenas acadêmicos, mas também importantes questões políticas e sociais de sua época. Dono de um estilo de escrita límpida e de raciocínios claros, dedicou-se às causas que abraçou com grande  coragem e ousadia. Em 1950, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, "em reconhecimento de seus variados e importantes escritos nos quais advoga ideais humanitários e a liberdade de pensamento".


Lembro-me, na minha adolescência, por volta dos 16 - 18 anos, dos seus artigos e declarações que saíam na imprensa internacional: contra a guerra do Vietnã, discutindo temas relevantes da época, suas ações a favor do pacifismo, das reformas sociais e da liberdade de pensamento. Os dois livros que li dele nessa época, "ABC da Relatividade" (no qual, de uma maneira clara e acessível, introduz o leitor à Teoria da Relatividade) e "Introdução à Filosofia da Matemática", marcaram-me. Lembro-me, ainda, de um texto dele, no qual analisa falácias (veja "Crivos da Razão - Parte 3: Argumentação Lógica e Falácias"). Impressionou-me, particularmente, sua análise da falácia do argumento contra o homem ("Crivos da Razão - Parte 6: A Falácia do Argumento contra a Pessoa"), a forma usada, infelizmente por muitos, de atacar a pessoa, tentando desqualificá-la moral e/ou intelectualmente, ao invés de tentar refutar, com lógica, o que ela diz.


Reproduzo, a seguir, trechos do capítulo 2, "A Vida Virtuosa", do livro de Russell, "No que Acredito", que citei na parte 1 desta postagem, embasando minha afirmação de que este autor enaltece a importância do conhecimento e do amor, mas principalmente deste último. E que, neste sentido, aproxima-se muito de ideais espíritas.


Para Russell, "a vida virtuosa é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento". Ele prossegue, desenvolvendo seu pensamento:


"Tanto o conhecimento como o amor são indefinidamente extensíveis; logo, por melhor que possa ser uma vida, é sempre possível imaginar uma vida melhor. Nem o amor sem o conhecimento, nem o conhecimento sem o amor podem produzir uma vida virtuosa. Na Idade Média, quando a peste surgia numa região, os sacerdotes alertavam a população para que se reunisse nas igrejas e orasse por sua salvação; como conseqüência, a infecção propagava-se com extraordinária rapidez entre as multidões de suplicantes. Eis, portanto, um exemplo de amor sem conhecimento. A última guerra [ele está se referindo à 1a. Guerra Mundial, o livro é de 1925] nos propiciou um exemplo de conhecimento sem amor. Em ambos os casos, o resultado não foi senão a morte em grande escala."


E prossegue: "Ainda que o amor e o conhecimento sejam ambos necessários, em certo sentido o amor é mais fundamental, na medida em que levará indivíduos inteligentes [eu diria os que usam de fato sua inteligência, sem a preguiça mental de que fala Aulus, o orientador espiritual de André Luiz - veja no final da postagem "Espiritismo e Desenvolvimento Científico"] a buscar conhecimento a fim de descobrir de que modo beneficiar aqueles a quem amam. Mas, se os indivíduos não forem inteligentes, hão de contentar-se em acreditar naquilo que lhes disseram [veja "Espíritas: Instruí-vos", "Pensando Por Si Mesmo!" e "CRIVOS DA RAZÃO - Parte 5: A Falácia do Apelo à Autoridade"] e possivelmente praticarão o mal, apesar da mais genuína benevolência."


Na próxima postagem, "Amor como Deleite e Amor como Benevolência" cito mais alguns trechos deste livro de Russell, nos quais ele faz inspiradoras reflexões sobre o amor como deleite e o amor como benevolência.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

ALGUNS MITOS E VERDADES SOBRE ATEUS, AGNÓSTICOS E CRENTES - Parte 1

Por vezes, tendemos ver as coisas de modo dicotômico, isto é,  separando as coisas em opostos inconciliáveis: bons versus maus, os que acreditam em Deus versus os ateus, sendo que algumas vezes identificamos os que acreditam com os bons e os ateus com os maus. Tal maneira de encarar as coisas denota pouca maturidade emocional e espiritual. A realidade nunca é tão simples. Ninguém é absolutamente mal, nem absolutamente bom, no nosso nível evolutivo. Alguns ateus podem ser melhores do que algumas pessoas que dizem acreditar em Deus.

Algumas pessoas que dizem acreditar em Deus, quando as coisas parecem ficar muito ruins, "esquecem" sua crença e se desesperam (falo também por experiência própria, pela fragilidade de fé que mostrei no passado e que acredito ter superado, fundamentando minha fé muito mais fundo em meu espírito), revoltam-se, assim renegando, na prática, a sua crença. Por outro lado, alguns são ateus porque a sua concepção de Deus que aprenderam/desenvolveram é de um deus vingativo e injusto. Num deus deste tipo eu também não acredito. Conhecendo melhor alguns desses "ateus", percebe-se, entretanto, que são profundamente espiritualizados, valorizando a vida e o conhecimento do Universo, como forma de crescimento e evolução. 


Embora se declarem ateus ou agnósticos, a vida e prática deles apontam para uma profunda crença num Deus imanente de uma Perfeição nada simples e que parece, à primeira vista, Sua própria negação, como eles parecem acreditar e muitos de seus seguidores e críticos. 


Um desses "ateus" parece-me ser Richard Dawkins,  um dos mais aguerridos críticos das religiões e da crença em Deus. Seu livro "O Maior Espetáculo da Terra: as evidências da evolução" (tradução de Laura Teixeira Motta. - São Paulo: Companhia das Letras, 2009) é, para mim, um hino de celebração da Vida e de Deus. Esta minha afirmação possivelmente será enfática e até agressivamente criticada por muitos dos partidários das suas idéias, e talvez pelo próprio Dawkins (se a lesse), mas também por muitos de seus maiores críticos. Talvez uma das críticas mais suaves que me façam seja a de ingênuo. Tudo bem...


Um agnóstico brasileiro, Marcelo Gleiser (alguns talvez o vejam como ateu, mas o percebo agnóstico, ou seja, aquele que tem dúvida sobre a existência de Deus, não O negando, nem O afirmando em termos absolutos), também considero praticar em seus livros e artigos uma crença num Universo que é, para mim, indistinguível de um Deus imanente de profunda Harmonia. No seu livro, "Criação Imperfeita: Cosmo, Vida e o Código Oculto da Natureza" (título algo  pretencioso... rs...), expressa  a visão de um Deus de suprema Harmonia. Não uma Harmonia simples, de uma simetria óbvia, ou de fácil acesso intelectual, mas uma Harmonia que demanda, para ser percebida, uma abertura de espírito que vai além da razão habitual e implica numa síntese desta com a sensibilidade. Não sei até que ponto ele mesmo percebe isto conscientemente, ou apenas a "imperfeição" da Natureza. Pode ser que, também neste caso, esta minha visão seja criticada por "gregos" e "troianos". Tudo bem...


Um outro célebre e autodeclarado agnóstico, Bertrand Russell, vai mais longe. Celebra a busca do conhecimento, mas principalmente de um amor espiritual (embasarei esta afirmação na 2a. parte desta postagem).

Lendo seu texto, "No que acredito",  escrito em 1925 (tradução de André de Godoy Vieira. - Porto Alegre, RS: L&PM, 2011), discordo de algumas de suas afirmações e percebo outras como datadas, isto é, válidas para os conhecimentos da época, mas atualmente obsoletas. Vejo, porém, que várias das suas crenças básicas expressam alguns dos melhores ensinamentos das grandes religiões e são completamente compatíveis com importantes ensinamentos espíritas.