quarta-feira, 23 de maio de 2012

Meditação, Evolução Emocional e Espiritual - parte 3

Já havia lido sobre o trabalho da Monja Coen à frente da Comunidade Zen Budista Zendo Brasil, mas sabia pouco sobre ela. Descobri que além do nome de família, temos em comum o gosto pela corrida (foto dela ao lado, quando participou da sua primeira corrida oficial). É missionária da tradição Sôtô Zen para o Brasil, tendo publicado vários artigos em jornais e revistas, além de dois livros sobre Zen. Descobri, também, lendo uma entrevista que deu (clique aqui "A amante do rock que virou moja" para acessar a entrevista completa), ter sido a primeira mulher e pessoa de origem não japonesa a assumir a Presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil. 

A jornalista que a entrevistou, Robson Rodrigues, escreve que a monja, "antes de ser budista, casou-se aos 14 anos, teve uma filha, divorciou-se, foi jornalista, cursou direito, viveu intensamente a chamada 'geração do desbunde', chegou a ser presa". E isso é apenas uma parte de sua juventude intensa e radical mostrada na entrevista, contrastando com a personalidade serena de hoje. Seu desenvolvimento lembra-me o que escreveu o filósofo grego pré-socrático, Heráclito: "Aquilo que está em oposição se concilia; das coisas diferentes nasce a mais bela harmonia e tudo é criado pelos contrários".*

O zazen é fundamentalmente uma prática. Pode-se falar sobre ele, descrever como o fazer. Mas, só o entenderemos de fato experienciando-o.

Por outro lado, meditação não é isolamento do mundo, como muitos pensam:



Mas algo que nos permite estar mais presentes na vida:




Veja, também, Meditação, Evolução Emocional e Espiritual - parte 1 -  e parte 2.
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* Nicola, Ubaldo. Antologia ilustrada da filosofia: das origens à idade moderna. São Paulo: Globo, 2005.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Meditação, Evolução Emocional e Espiritual - parte 2

Meu contato com a meditação da atenção plena começou muitos anos atrás, quando li o clássico Introdução ao Zen Budismo, de D. T. Suzuki, com prefácio do C. G. Jung, e experimentei praticar o zazen, como é chamada a meditação zen budista. Foi uma experiência interessante, mas não estava ainda pronto para uma prática sistemática. 

Nos últimos anos, tenho lidado algumas vezes, na minha atuação em Psicologia Clínica, com pacientes fronteiriços (borderlines), pessoas emocionalmente muito intensas, com dificuldade de administrar emoções, principalmente a raiva. No tratamento desses pacientes, senti necessidade de técnicas mais adequadas e eficazes para lidar com este transtorno de personalidade. Buscando alternativas, deparei-me com os livros da Marsha Linehan (foto acima), uma das grandes autoridades mundiais no tratamento deste transtorno: "Terapia cognitivo-comportamental para transtorno da personalidade borderline: guia do terapeuta" e "Vencendo o transtorno de personalidade borderline com a terapia cognitivo-comportamental: manual do paciente" (ambos da Artmed, 2010).

A abordagem de Linehan para o tratamento do transtorno de personalidade borderline (TPB) é por meio da ação de uma equipe multidisciplinar, que reconheço ser o mais eficaz para este tipo de transtorno. Porém, uma das bases do tratamento que propõe é o treinamento dos pacientes em técnicas de atenção plena, cujo fundamento é a meditação budista clássica.

Percebi que as técnicas de atenção plena desenvolvidas por Linehan para o treinamento da regulação emocional e do estresse eram úteis não apenas como tratamento complementar para pacientes com TPB, mas para vários outros transtornos. Os resultados preliminares que obtive sugeriram-me que mesmo pessoas sem queixa de transtornos poderiam se beneficiar com tais técnicas, inclusive eu mesmo. E comecei a praticá-las. 

À medida que praticava e orientava meus pacientes neste sentido, senti a necessidade de conhecer diretamente a meditação budista de atenção plena. Foi quando comecei a frequentar as atividades de zazen para principiantes, da Comunidade Zen Budista, liderada pela Monja Coen Sensei. Sua simpatia e simplicidade cativou-me, bem como a acolhida simpática da equipe de monges. Descobri, também, que a Monja Coen e eu somos parentes, pois o sobrenome de solteira de sua mãe é Leonel, e todos com este sobrenome pertencem a uma mesma grande e antiga família brasileira.

Veja, também, Meditação, Evolução Emocional e Espiritual - parte 1 e parte 3.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Meditação, Evolução Emocional e Espiritual - parte 1


No final do capítulo 5 do livro "Nos Domínios da Mediunidade", psicografado por Franciso Cândido  Xavier, o aprendiz no mundo espiritual, Hilário, surpreso diante das explicações do Assistente Aulus a respeito da assimilação, pelos encarnados, das "correntes mentais" emitidas por desencarnados, diz:

" Não será, porém, tão fácil estabelecer a diferença entre a criação mental que nos pertence daquela que se nos incorpora à cabeça... — pon­derou meu colega intrigado.
— Sua afirmativa carece de base — exclamou o Assistente. — Qualquer pessoa que saiba mane­jar a própria atenção observará a mudança, de vez que o nosso pensamento vibra em certo grau de freqüência, a concretizar-se em nossa maneira es­pecial de expressão, no círculo dos hábitos e dos pontos de vista, dos modos e do estilo que nos são peculiares.
E, bem-humorado, comentou:
       — Em assuntos dessa ordem, é imprescindível muito cuidado no julgar, porque, enquanto afina­mos o critério pela craveira terrena, possuímos uma vida mental quase sempre parasitária, de vez que ocultamos a onda de pensamento que nos é própria, para refletir e agir com os preconceitos consagrados ou com a pragmática dos costumes preestabelecidos, que são cristalizações mentais no tempo, ou com as modas do dia e as opiniões dos afeiçoados que constituem fácil acomodação com o menor esforço. Basta, no entanto, nos afeiçoe­mos aos exercícios da meditação, ao estudo edifi­cante e ao hábito de discernir para compreender­mos onde se nos situa a faixa de pensamento, identificando com nitidez as correntes espirituais que passamos a assimilar."

Destaquei com negrito a palavra "meditação" nesta citação, porque esse é o tema da série de postagens que se inicia hoje. No trecho acima, Aulus enfatiza a necessidade de exercícios de meditação (além do estudo edificante e do hábito de discernir por si mesmo) para "compreender­mos onde se nos situa a faixa de pensamento, identificando com nitidez as correntes espirituais que passamos a assimilar." Ou seja, para retomarmos contato conosco mesmos, com nosso self ou espírito, distinguindo o que é nosso e o que não é, o que facilita nosso desenvolvimento emocional e espiritual. 

Nas próximas postagens, descreverei um pouco sobre benefícios da meditação budista de Atenção Plena (mindfulness em inglês)Como introdução a este tipo de meditação, mostro abaixo um breve   vídeo da BBC com uma reportagem sobre os resultados desta prática na mudança de padrões cerebrais facilitando o controle do estresse:



Veja, também: Meditação, Evolução Emocional e Espiritual - parte 2 e parte 3.