segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A Grande Transformação - Parte 2

Falando dos gênios espirituais e filosóficos da Era Axial, Karen Armstrong aponta que "muitos trabalharam no anonimato, porém outros se tornaram luminares que ainda conseguem nos emocionar, porque nos mostram como uma criatura humana deve ser" (!!). Ela vê a Era Axial como "um dos períodos mais seminais de mudança intelectual, psicológica e religiosa que a história registra; não haveria nada comparável até a Grande Transformação Ocidental, que instituiu nossa modernidade científica e tecnológica".


Diante dessas afirmações, as perguntas que Armstrong faz a seguir ocorrem a muitos leitores: "Mas como os sábios da Era Axial, que viveram em circunstâncias tão diversas, podem falar a nossa atual condição? Por que haveríamos de buscar ajuda em Confúcio ou Buda? Certamente um estudo desse período distante só pode ser um exercício de arqueologia espiritual, quando o que precisamos é criar uma fé mais inovadora que reflita as realidades de nosso próprio mundo".


Respondendo a essas questões, a autora pondera que "nunca superamos de fato os achados da Era Axial. Em momentos de crise espiritual e social, homens e mulheres constantemente se voltaram para esse período à procura de orientação. Podem ter dado interpretações distintas às descobertas axiais, porém nunca as ultrapassaram. O judaísmo rabínico, o cristianismo e o islamismo, por exemplo, são rebentos tardios da Era Axial original". Para ela, "essas três tradições redescobriram a visão axial e a traduziram esplendidamente num idioma que falava direto às circunstâncias de seu tempo".


A autora nos mostra que, ao contrário do que a maioria de nós costuma achar, a visão dos profetas, místicos, filósofos e poetas da Era Axial é, em muitos aspectos, mais avançada do que a religiosidade pregada por muitos hoje: "Com frequência, presume-se, por exemplo, que ter fé é acreditar em certas proposições doutrinais. Na verdade, é comum chamar as pessoas religiosas de 'crentes', como se acatar os artigos de fé fosse sua principal atividade. No entanto, a maioria dos filósofos axiais não tinha o menor interesse em doutrina ou metafísica. As crenças teológicas de um indivíduo eram totalmente indiferentes para um Buda. Alguns sábios se recusavam com firmeza até a discutir teologia, argumentando que era nocivo e desviava a atenção. Outros diziam que era imaturo, irrealista e perverso procurar o tipo de certeza absoluta que muita gente espera encontrar na religião".


Prosseguindo, Armstrong indica que "todas as tradições que se desenvolveram na Era Axial empurraram as fronteiras da consciência humana e descobriram em seu bojo uma dimensão transcendente, mas não necessariamente sobrenatural e, em geral, se recusaram a discuti-la." Os sábios desta época não tentavam impor aos outros sua visão espiritual. Acreditavam que a fé era fundamentalmente um desenvolvimento íntimo de cada um. E que é "essencial questionar tudo e testar todo ensinamento religioso empiricamente,através da própria experiência pessoal".


Para esses sábios, "o importante não é em que um indivíduo acredita, mas como ele se comporta. Religião tem a ver com fazer coisas que produzem mudanças profundas no adepto". Para eles, "a única maneira de encontrar o que chamavam de 'Deus', 'Nirvana', 'Brahman' ou 'Caminho' era levar uma vida compassiva. Na verdade, religião era compaixão. Hoje em dia, muitas vezes achamos que, antes de adotar um estilo devida religioso, temos que provar, para nossa própria satisfação, que 'Deus', ou o 'Absoluto', existe. (...) Mas os sábios axiais diriam que isso equivaleria a pôr o carro na frente dos bois. Primeiro, é preciso comprometer-se com a vida ética; depois, uma benevolência disciplinada e habitual - não uma convicção metafísica - forneceria indícios da transcendência que se procura."


Veja a parte 1 desta postagem.

domingo, 15 de janeiro de 2012

A Grande Transformação - Parte 1

Acabei de ler o excelente livro de Karen Armstrong, "A Grande Transformação: o mundo na época de Buda, Sócrates, Confúcio e Jeremias" (São Paulo: Companhia das Letras, 2008). Antes de comentar sobre o livro, falarei um pouco sobre a autora. 


Karen Armstrong nasceu na Inglaterra, em 1945, e foi freira por sete anos. Formou-se em Literatura pela Universidade de Oxford e foi professora de literatura moderna na Universidade de Londres. Leciona Cristianismo no Leo Baeck College for the Study of Judaism and the Training of Rabbits and Teachers e é membro honorária da Association of Muslin Social Sciences, uma importante instituição muçulmana. Em 1999, recebeu um prêmio islâmico, o Muslim Public Affairs Council Media Award. Em 2000, o Islamic Center of Southern California rendeu-lhe homenagem por promover o entendimento entre as três religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo). Em 2005, foi convidada a integrar um projeto das Nações Unidas, "Aliança das Civilizações", que visa lançar pontes entre o Ocidente e o mundo islâmico. Tem cerca de vinte livros publicados, dos quais onze no Brasil.


Na "Apresentação" do livro, Armstrong escreve que muitas das dificuldades da nossa época e de nossa civilização, como o terrorismo, a ameaça do uso das armas de destruição em massa (nucleares, biológicas e químicas) e o risco de uma catástrofe ambiental, "mascaram uma crise espiritual mais profunda". E "se não houver uma revolução espiritual à altura de nosso gênio tecnológico, é improvável que salvemos nosso planeta"! Concordo com ela.


Para que, no futuro, evitemos tragédias como "Auschiwitz, Ruanda, Bósnia e a destruição do World Trade Center", "uma educação puramente racional não será suficiente". Necessitamos mais. Necessitamos recuperar "o sentido da sagrada inviolabilidade de cada ser humano". Este sentido tradicionalmente nos era dado pela religião. 


No entanto, "praticamente todo dia nos deparamos com exemplos de terrorismo, ódio e intolerância de motivação religiosa". Por esta razão e por outras, "um número crescente de pessoas considera irrelevantes e inacreditáveis as doutrinas e práticas religiosas tradicionais e busca nas artes plásticas, na música, na literatura, na dança, no esporte ou nas drogas a experiência transcendente que parece ser necessária aos seres humanos". Porque "todos ansiamos por momentos de êxtase, quando vivemos nossa humanidade com uma plenitude maior que a habitual e nos sentimos profundamente tocados por dentro e elevados acima de nós mesmos. Somos criaturas à cata de sentido e, ao contrário de outros animais, facilmente nos desesperamos, se não conseguimos ver significado e valor em nossas vidas".


Armstrong vai buscar inspirações para a superação de nossa crise espiritual no período histórico "que o filósofo alemão Karl Jaspers chamou de Era Axial, porque foi decisivo para o desenvolvimento espiritual do gênero humano. Entre aproximadamente 900 e 200 a.C., surgiram, em quatro regiões distintas, as grandes tradições mundiais que continuam alimentando a humanidade: o confucionismo e o taoismo na China, hinduísmo e budismo na Índia, monoteísmo em Israel e racionalismo filosófico na Grécia. Esta foi a época de Buda, Sócrates, Confúcio e Jeremias, dos místicos das Upanishads, de Mêncio e Eurípedes."


No decorrer do livro, Armstrong nos mostrará que "neste período de intensa criatividade, gênios espirituais e filosóficos inauguraram um tipo inteiramente novo de experiência humana". E que esta experiência pode ser substancialmente útil a nós hoje, ajudando judeus, cristãos, muçulmanos, budistas e induístas a reavivarem e aprofundarem sua fé. Mas também estimulando ricas reflexões em ateus e agnósticos.

Leia a parte 2.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Talentos, Provas e Expiações

Jesus explicando a seus discípulos o que é o Reino dos Céus, conta-lhes a parábola dos talentos (Mt 25: 14-30), antiga e valiosa unidade monetária  romana  correspondente entre 27 a 36 kg de ouro ou prata! Após esta parábola, talento virou sinônimo de potencial ou capacidade inata: 
“Será também como um homem que, tendo de viajar, reuniu seus servos e lhes confiou seus bens. A um deu cinco talentos; a outro, dois; e a outro, um, segundo a capacidade de cada um. Depois partiu. Logo em seguida, o que recebeu cinco talentos negociou com eles; fê-los produzir, e ganhou outros cinco. Do mesmo modo, o que recebeu dois, ganhou outros dois. Mas, o que recebeu apenas um, foi cavar a terra e escondeu o dinheiro de seu senhor.    Muito tempo depois, o senhor daqueles servos voltou e pediu-lhes contas. O que recebeu cinco talentos, aproximou-se e apresentou outros cinco: - Senhor, disse-lhe, confiaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco que ganhei. Disse-lhe seu senhor: - Muito bem, servo bom e fiel; já que foste fiel no pouco, eu te confiarei muito. Vem regozijar-te com teu senhor. O que recebeu dois talentos, adiantou-se também e disse: - Senhor, confiaste-me dois talentos; eis aqui os dois outros que lucrei. Disse-lhe seu senhor: - Muito bem, servo bom e fiel; já que foste fiel no pouco, eu te confiarei muito. Vem regozijar-te com teu senhor. Veio, por fim, o que recebeu só um talento: - Senhor, disse-lhe, sabia que és um homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso, tive medo e fui esconder teu talento na terra. Eis aqui, toma o que te pertence. Respondeu-lhe seu senhor: - Servo mau e preguiçoso! Sabias que colho onde não semeei e que recolho onde não espalhei. Devias, pois, levar meu dinheiro ao banco e, à minha volta, eu receberia com os juros o que é meu. Tirai-lhe este talento e dai-o ao que tem dez. Dar-se-á ao que tem e terá em abundância. Mas ao que não tem, tirar-se-á mesmo aquilo que julga ter. E a esse servo inútil, jogai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.”   
Em primeiro lugar, de onde vêm nossos talentos? A leitura e reflexão sobre os livros de Kardec e as obras de André Luiz e Emmanuel, dentre outros eminentes autores espirituais, ensinam-nos que nossos talentos inatos resultam de nossos esforços em várias encarnações passadas. Superando dificuldades, resolvendo problemas - desde os do dia-a-dia, até aqueles de cuja solução dependeu nossa sobrevivência física e/ou de pessoas que amamos - desenvolvemos nossa inteligência, nossas habilidades matemáticas, de administração, comércio, liderança, artísticas, científicas, filosóficas, esportivas etc.
Na superação dos vários obstáculos da vida, tivemos também que superar aos poucos o que talvez seja o nosso maior desafio - nós mesmos. Na medida em que vamos superando nossos instintos (que não são maus em si, mas podem, se fora de controle, levar-nos a vícios e paixões desenfreadas, com trágicos resultados), desenvolvemos coisas fundamentais para nossa evolução espiritual: nossa consciência moral e nossa inteligência emocional (conforme o conceito consagrado por Daniel Goleman, PhD, no seu livro “Inteligência Emocional” - Ed. Objetiva: Rio de Janeiro, 2001).
Contudo, o desenvolvimento da inteligência e de habilidades, sem os correspondentes crescimentos moral e da inteligência emocional, pode nos levar à vaidade, até à soberba. E estas criam condições para quedas, algumas delas profundas. Tais quedas, para serem sanadas, demandam aprendizagem e reparação, as quais, conforme suas dimensões, podem atravessar mais de uma encarnação (não como punição, mas em decorrência da Bondade Divina, pois muitas dessas lições que temos a aprender e reparações a realizar não suportaríamos todas de uma vez, numa única encarnação).
Então, o que nos faz enterrar alguns de nossos talentos? Algumas das razões básicas são a necessidade de desenvolvermos a humildade e a valorização do próximo, condições para o aprendizado do amor ao próximo. Tal necessidade, com nossa concordância e/ou por imposição das leis divinas, cria limitações e até impedimentos à expressão de alguns talentos que desenvolvemos no passado, como nos ensina as palavras de Jesus (Mt 5:29-30), cujo sentido é tanto simbólico, como factual (em termos reencarnatórios), como é o caso de deficiências físicas: “Se teu olho direito é para ti causa de queda, arranca-o e lança-o longe de ti, porque é preferível perder-se um só dos teus membros, a que o teu corpo todo seja lançado na geena. E se tua mão direita é para ti causa de queda, corta-a e lança-a longe de ti (...)”.
Porém, além dessa necessidade de evolução, há também razões menos nobres decorrentes daquelas mesmas vaidades, vícios e paixões desenfreadas que nos levaram a quedas no passado e poderão nos levar no futuro, quedas estas que demandarão, então, expiações e provas para serem sanadas. São estas as razões contra as quais nos alertou Jesus (Mt 24:14-30 e Lc 19:11-27).
Tais vaidades, vícios e paixões levam-nos a perder tempo evolutivo, desviando-nos do “caminho da vida” (Mt 7:13-14), dificultando-nos ou até nos impedindo de desenvolver talentos inatos, com os quais poderíamos contribuir para a evolução de nossos próximos e de nós mesmos, acelerando nossa aprendizagem espiritual e criando maiores oportunidades para reparações de faltas passadas.

domingo, 23 de outubro de 2011

TAO – Caminho da Paz e da Leveza Interior


O sábio chinês Lao Tsé viveu há mais de cinco séculos antes de Cristo. Sua filosofia profundamente espiritual, o Taoísmo, chegou até nós pela sua obra “Tao Té Ching”. Sua influência foi profunda nas culturas chinesa e japonesa, e permanece viva, não só nestes países. O “Tao Té Ching” é uma daquelas obras perenes da humanidade da qual, se nos aproximarmos dela com abertura de espírito, colheremos ensinamentos preciosos que nos ajudarão a trilhar nossa vida com mais paz e harmonia.

É difícil se traduzir a palavra “Tao”. Algumas das suas traduções são: a Essência, a Suprema Realidade, a Lei Universal que está em tudo o que existe, a Divindade, o Insondável. “Té” pode ser traduzido por caminho, diretriz, revelação. E “Ching”, por livro, escrito, documento. Uma tradução que gosto é o “Livro do Caminho para a Essência”.

O Tao deve ser mais sentido, intuído, do que compreendido intelectualmente. Para ajudar você a senti-lo intuitivamente, sugiro que faça uma bela experiência, aqui e agora:

Sente-se confortavelmente e endireite com naturalidade o corpo e a cabeça.
Imagine um facho de luz azul muito bonito e suave vindo lá do alto, penetrando pelo topo de sua cabeça, descendo pelo interior do seu tronco e continuando até o chão.
Respire fundo e lentamente algumas vezes, e relaxe-se..., descontraia-se...
Imagine que essa luz azul suave lhe transmite uma sensação muito agradável, de equilíbrio e paz.
Perceba o ambiente ao seu redor. Sinta nele o Tao... Respire-o... Sinta-o em você, nas coisas ao seu redor, no ambiente todo.
Pare um pouco de ler e tome contato, por alguns instantes, com a paz, a beleza e a simplicidade nas pessoas e coisas ao seu redor..., pois, como disse Lao Tsé, o Tao “poderá, nas menores coisas, ser encontrado.”

Se você vivenciou efetivamente este exercício, seu nível de consciência ampliou-se e é capaz de começar a sentir o Tao. Uma maior leveza e paz interior é um indicativo disto.

Esse mesmo exercício você poderá repetir em outras situações. Ao ar livre, em contato direto com a natureza ele é vivificante. E mesmo em recintos fechados, como no trabalho. Às vezes, ficamos tão imersos em problemas do trabalho que perdemos a perspectiva dos reais objetivos da tarefa que estamos realizando. Com isso, perdemos nossa eficácia e produtividade. Em momentos como esses, parar por um ou dois minutos, endireitar o corpo e fazer o exercício vivencial aqui descrito pode aclarar nossa mente, ajudando-nos a desenvolver melhor o que estamos fazendo.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Regressão Vivencial na Superação de Fobia


Esta postagem dá continuidade à série sobre regressão vivencial, iniciada em 14/03/2011 com “Terapia de Regressão Vivencial”, seguida em 30/03/2011 por “O Que é Vivenciado numa Sessão de Regressão é Real ou Fantasia?”, e em 02/04/2011 por “Regressão Terapêutica a uma Suposta Vida Anterior”. Na presente postagem, conto um caso real de processo de superação de fobia de dirigir por meio de regressão vivencial.

Júlia (nome fictício) tinha cerca de 40 anos, casada, com um casal de filhos. Trabalhava antes de se casar, mas, na época desta narrativa, apenas ajudava um pouco na empresa do marido.

Freqüentemente, sentia-se insegura em muitas coisas que fazia. Queria fazer tudo perfeito, tinha muito medo de errar. Este medo de errar estava presente também ao dirigir seu carro, um dos motivos que a levaram a fazer psicoterapia. Embora já dirigisse há anos, algumas vezes esta insegurança aumentava e pensava: “se eu pegar o carro, vou bater”. Ao pensar isto, sentia muito medo, até pavor, pois imaginava que, se batesse num outro carro, o motorista deste ficaria enfurecido e a agrediria fisicamente.

Estava com acompanhamento psiquiátrico e já havia feito um curso de direção especializado em ajudar pessoas com fobia de dirigir, porém sem resultados.

É surpreendente como a mente humana funciona! Nunca me canso de admirar sua complexidade e sua lógica, que vai além da simples lógica linear a que estamos acostumados. Esta regressão que descrevo, mostra como um episódio que viveu, muito antes de aprender a dirigir, teve uma forte conexão com sua fobia posterior.

Para entender alguns aspectos desta regressão, alguns dados preliminares são importantes. Seu pai era alcoólico. Quando bebia, ficava violento, embora nunca tenha lhe batido, mas seu comportamento agressivo causava muito medo nela e em toda a família: “quando ele bebia, não era uma pessoa muito boa”.

Quando a regressão começa, Júlia vê-se com cerca de 12 anos, no início da manhã, aprontando-se para ir para a escola. Sai de casa e, como habitual, passa na casa de uma amiguinha para irem juntas. Quando chega lá, a irmã mais velha da menina a atende e lhe diz que a irmã caçula havia ido mais cedo para a escola naquele dia. E lhe dá uma notícia que a deixa profundamente consternada: o pai de Júlia estava deitado, bêbado, em frente ao portão da escola. Provavelmente havia saído de algum bar de madrugada e caíra de bêbado na calçada em frente à escola, ficando lá dormindo até então.

Júlia, neste momento, sente medo, vergonha, um nó na garganta, pressão na cabeça. Sente-se inferior a todo mundo, com inveja das amigas que, a seu ver, tinham pais normais. Pensa que as pessoas estão falando dela coisas como: “coitadinha, tem um pai que não tem responsabilidade para nada”. Quer se esconder: “tenho medo que alguém fale algo para mim”. E pensa: “talvez seja melhor não ir para a escola. É melhor ficar em casa para não ver ninguém”. Mas, decide ir para escola assim mesmo, pois sabe que a mãe, muito brava, não permitiria que voltasse para casa sem ter ido à escola.

Decide, então, entrar na escola pelo portão dos fundos, assim não teria que passar por seu pai dormindo na calçada. Caminha por um terreno baldio que vai dar nos fundos da escola e, andando, fica “segurando a vontade de chorar”, pois não quer “que meus colegas pensem que sou uma coitada”.

Ao entrar na sala de aula, sente-se inferior às colegas que, na sua fantasia, tinham “pais normais”. Por isto, não se sente merecedora de estar ali no meio delas: “sinto que estou invadindo o espaço dos outros. Eu não tenho o direito de estar aqui. Eu sou diferente dos outros”. Sente medo, dor no pescoço, pressão no rosto, vergonha. Acha que sua vergonha está escrita em seu rosto. Acha que estão “rindo de mim, fazendo gozação”. Sente, também, uma tristeza muito grande, angústia, e pensa que é uma “pessoa sem nenhum valor, sem nenhum respeito”. Tem medo de que a agridam, “me joguem pedra”.

Quando o psicoterapeuta pergunta o que tem a ver o que ela está vivenciando com seu medo de dirigir, Júlia percebe que, também no trânsito, sente-se invadindo um espaço que não é dela, um espaço onde não tem direito de estar, pois é diferente, inferior às outras pessoas. E que, por isto, sente medo e imagina que, se fizer algo errado, não haverá tolerância com ela, vão agredi-la, talvez até matá-la, pensa.

O psicoterapeuta lhe diz que ela pode começar a mudar aquela crença negativa sobre si mesma, a crença de que é inferior às outras pessoas. E lhe pergunta: “você quer mudar isto? Sim ou não?“ (Esta pergunta é importante, pois a mudança de crenças profundamente arraigadas, para ser efetiva, deve ser algo que o paciente queira realmente, porque se sentir que é uma decisão de outra pessoa, não dele próprio, a mudança não perdurará). Júlia responde: “sim, eu quero ser igual a todo mundo, a todas as pessoas”.

O psicoterapeuta a ajuda, então, a elaborar o que, na Terapia de Regressão Vivencial, chama-se “redecisão”  ̶  uma frase que sintetiza, cognitiva e emocionalmente, a mudança que já está sendo desencadeada a partir daquela catarse* que Júlia está vivenciando. No processo de elaboração da frase de redecisão (processo que o psicopsicoterapeuta conduz apenas na forma, não no conteúdo, o qual deve ser genuinamente do paciente). Iniciando a superação do seu trauma e, conseqüentemente, da crença negativa que tem sobre si mesma, Júlia diz, já enfocando o ato de dirigir: “eu posso ser igual às outras pessoas”. A partir daí, percebe que pode fazer “tudo o que as outras pessoas normais fazem”, chegando, então, na sua frase de redecisão: “eu dirijo o carro com segurança”.

O psicoterapeuta testa, através de algumas perguntas, a ressonância emocional que tem, para a Júlia, a frase que ela elaborou na sua redecisão e se ela a consegue colocar em prática concreta. Júlia diz que se sente aliviada e realizada, e sente que consegue “ser igual às outras pessoas” e que dirigir para ela “é importante, eu me sinto grande, importante” (em contraste com a maneira com que, muitas vezes, se sente: pequena e sem importância).

No processo de uma sessão de regressão, após a redecisão há, como já comentado em postagens anteriores, um processo de desprogramação das emoções e sensações doloridas revivenciadas na sessão e o fortalecimento de emoções e sensações que ajudam a superá-las e que apóiam a redecisão. Além disto, o psicoterapeuta também ajuda o paciente a imaginar uma situação, num futuro próximo, na qual ele coloca em prática a redecisão, com naturalidade, bem como a programar os próximos passos neste sentido. No caso da Júlia, os próximos passos programados foram: vir à próxima sessão dirigindo e, durante a semana, praticar dirigindo em pequenos percursos.

Já na sessão seguinte (a sessão integrativa, na qual o psicoterapeuta auxilia o paciente a integrar melhor, a sua vida atual, o que vivenciou durante a regressão), Júlia descreveu um progresso significativo, sentindo-se mais segura ao dirigir. Contudo, chegara à sessão de táxi, pois ainda não estava se sentindo suficientemente segura. Entretanto, na sessão seguinte à sessão integrativa, chegou dirigindo pela primeira vez.

No decorrer do processo terapêutico, sua segurança e habilidade no trânsito foram crescendo, a tal ponto que Júlia não apenas chegava a todas as sessões dirigindo, como também ia sem medo para todo o lado. O próprio marido, embora muito cioso de sua própria habilidade como motorista, confessou-lhe que ela estava dirigindo melhor do que ele.
___________________________
*Catarse: efeito salutar provocado pela conscientização de uma lembrança fortemente emocional e/ou traumatizante, até então reprimida. (Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda, 1a edição. Ed. Nova Fronteira).

O Pontinho Preto e os 3 Crivos

Muitos dos nossos problemas decorrem de percebermos apenas um dos lados das situações e das pessoas. Quando sentimos simpatia por alguém, nossa tendência é perceber apenas suas qualidades. Ocorre o oposto em relação à nossa percepção das pessoas com quem antipatizamos. Somos, geralmente, unilaterais. O nosso progresso em direção a um melhor relacionamento com os outros e uma maior paz de espírito passa pelo nosso esforço em desenvolver uma visão mais equilibrada das pessoas e situações.
Uma estória, que me foi contada há muitos anos por uma mestra espiritual, conhecida carinhosamente por seus discípulos como Tia Zaíra, nos ensina algo neste sentido.
Há muito tempo atrás, os discípulos de um mestre estavam se acusando mutuamente: “Fulano não fala a verdade!”, “Sicrano é orgulhoso!”, “Beltrano come demais!” e assim por diante... O mestre nada disse. Apenas pegou uma grande tela branca, um pincel e, molhando-o em tinta preta, fez com ele um pontinho preto no meio da tela.
Em seguida, chamou um dos seus discípulos e perguntou-lhe:
̶            O que você vê nesta tela?
Sem hesitar, o discípulo respondeu:
̶            Um pontinho preto!
Chamou a outro discípulo e repetiu a pergunta:
̶            O que você vê nesta tela?
O segundo discípulo olhou com cuidado, examinou toda a tela e disse:
̶            Um pontinho preto.
O mestre foi chamando cada um dos demais discípulos. Alguns davam a resposta imediatamente, outros examinavam com cuidado a tela, e outros, ainda, chegavam até a apertar os olhos para ver se havia mais alguma coisa na tela. Contudo, ao final, todos davam a mesma resposta: “Um pontinho preto.”
O mestre, então, olhou para cada um dos discípulos e, mostrando a tela, disse:
̶            Com toda esta grande extensão branca da tela, vocês só enxergam este pontinho preto?
Os discípulos se entreolharam com surpresa. E o mestre prosseguiu:
̶            Da mesma forma, vocês só estão enxergando o pontinho preto uns dos outros, sem considerarem toda a extensa área clara de qualidades e boas realizações que têm!
Quantas vezes deixamos de ver o lado positivo das pessoas? O termo “falar dos outros” é usado como sinônimo de falar mal, tal a freqüência que, ao falar de alguém, tendemos a enfatizar seus defeitos reais ou imaginários e fatos negativos em que está envolvido, em detrimento de suas qualidades e sucessos. Esta visão negativa pode nos contaminar, também, viciando-nos a ver principalmente os aspectos negativos das pessoas e situações, o que pode nos tornar, por vezes, parte dos eventuais problemas com que nos defrontamos, ao invés de contribuirmos para a solução.
Por esta razão, quando começarmos a pensar ou a falar nos defeitos ou insucessos de alguém, busquemos passar pelas três peneiras que esta estória (que se teria passado com Sócrates) nos ensina:
... Certa feita, um homem esbaforido aproximou-se do filósofo e disse-lhe:
̶            Escute, Sócrates... Na condição de seu amigo, tenho alguma coisa muito grave para dizer-lhe a respeito de um conhecido nosso.
̶            Espere!... – disse o sábio, com prudência. – Já passou o que me vai dizer pelas três peneiras?
̶            Três peneiras? – perguntou o visitante, espantado.
̶            Sim, meu amigo, três peneiras. Observemos se sua confidência passou por elas. A primeira é a peneira da verdade. Você tem absoluta certeza, quanto àquilo que pretende comunicar?
̶            Bem, - ponderou o interlocutor, - assegurar mesmo, não posso... mas ouvi dizer e... então...
̶            Portanto não passou pela primeira peneira. Decerto então passou o assunto pela segunda peneira, a da bondade. Ainda que talvez não seja real o que julga saber, será pelo menos bom o que quer me comunicar?
Hesitando, o homem replicou:
̶            Isso não... Muito pelo contrário...
̶            Ah! – tornou o sábio – então recorramos à terceira peneira, a da utilidade, e notemos o proveito do que tanto o aflige.
̶            Útil?!... Disse o visitante muito agitado. – Útil, útil não é...
̶            Bem – rematou o filósofo num sorriso, –  se o que você tem a confiar não é verdadeiro, nem bom e nem útil, esqueçamos o problema e não se preocupe com ele, já que nada constrói de positivo para nós!...

domingo, 18 de setembro de 2011

AMOR COMO DELEITE E AMOR COMO BENEVOLÊNCIA

Concluindo as postagens "Alguns Mitos e Verdades sobre Ateus, Agnósticos e Crentes" - Parte 1 e Parte 2, cito e comento mais alguns trechos do capítulo "A Vida Virtuosa" do livro "No Que Acredito", nos quais Bertrand Russell discorre sobre o amor.


"Amor é uma palavra que abrange uma variedade de sentimentos; empreguei-a propositalmente porque desejo incluí-los todos. O amor como emoção - sentimento a que me refiro, já que o amor 'por princípio' [Bertrand parece se referir aqui ao amor como "mandamento" externo à pessoa, como dever, em contraposição ao amor como livre opção - 'amo porque quero amar, não porque devo amar'] não me parece legítimo - desloca-se entre dois polos: de um lado, o puro deleite na contemplação; de outro, a benevolência pura. No que diz respeito aos objetos inanimados, tem lugar apenas o deleite; não podemos sentir benevolência para com uma paisagem ou uma sonata. Esse tipo de prazer é presumidamente a fonte da arte. Em regra, é mais forte nas crianças na tenra idade do que nos adultos, inclinados que estão a considerar os objetos de uma perspectiva utilitária. Ele desempenha uma função importante em nossos sentimentos para com os seres humanos, alguns dos quais providos de encanto e outros ao contrário, quando considerados simplesmente como objetos de contemplação estética."


Russell prossegue, refletindo sobre o outro polo:


"O polo oposto do amor é a benevolência pura. Houve homens que sacrificaram suas vidas em amparo aos leprosos; nesse caso, o amor que sentiam não poderia ter tido qualquer componente de prazer estético. O afeto dos pais, via de regra, é acompanhado pelo encanto pela aparência do filho, mas permanece forte mesmo na ausência total desse elemento. Pareceria estranho chamar de 'benevolência' o interesse da mãe pelo filho doente, visto que nos acostumamos empregar essa palavra para descrever uma emoção fugaz que nove em dez vezes só constitui logro. De toda forma, é difícil encontrar outro termo para descrever o desejo pelo bem-estar de outra pessoa. Por certo um desejo de tal natureza, no caso de sentimento dos pais em relação ao filho, pode atingir qualquer grau de intensidade. Em outros casos, ele é menos intenso; de fato, afigura-se plausível que toda emoção altruística seja uma espécie de transbordamento do amor paternal ['paternal' no sentido de amor dos pais - pai e mãe], ou por vezes a sua sublimação. Na falta de um termo melhor, devo chamar essa emoção de 'benevolência'. Mas esclareço que falo aqui de uma emoção, e não de um princípio, e que nela não incluo qualquer sentimento de superioridade, como algumas vezes é associado à palavra. O vocábulo 'simpatia' expressa parte do que quero dizer, mas omite o componente de atividade que desejo incluir." A benevolência de que fala Russell é ativa, leva quem a sente a agir em benefício da pessoa que é objeto dessa benevolência.


"O amor, em sua totalidade, é uma combinação indissolúvel de dois elementos, deleite e benquerer. O prazer dos pais ante um filho belo e bem-sucedido é uma combinação de ambos os elementos; tal como o amor sexual, no que tem de melhor. Mas no amor sexual só existirá benevolência quando houver uma posse segura, pois, do contrário, o ciúme a destruirá, ainda que talvez aumente o prazer na contemplação." Aqui concordo apenas em parte com Russell: observo que, para a maioria (talvez a grande maioria) das pessoas, o que ele afirma sobre a forte ligação da 'benevolência' com a 'posse', no amor sexual, é verdadeiro. Mas, não para todas. Prosseguindo a citação (o negrito é meu):


"O deleite desprovido de benquerer pode ser cruel; o benquerer desprovido de deleite tende facilmente a tornar-se um sentimento frio e um tanto arrogante. [Realço o 'tende', pois concordo com ele: sem autoconhecimento, honestidade consigo mesmo e vigilância, pode-se deslizar para uma certa arrogância e frieza de sentimentos].


Russell a seguir reflete sobre o amor que desejamos para nós mesmos:


"Alguém que deseje ser amado quer ser objeto de um amor que contenha ambos os elementos, exceto nos casos de extrema fragilidade, como na infância e nas situações de grave enfermidade. Nesses casos, a benevolência pode ser tudo do que se deseja. Por outro lado, nos casos de extremo vigor, mais que benevolência, deseja-se a admiração: é o estado de espírito de potentados e beldades famosas. Só desejamos o bem dos outros à medida que nos sentimos carentes de ajuda ou sob a ameaça de que nos faça mal. Pelo menos essa pareceria a lógica biológica da situação, mas não é muito aplicável ao que toca à vida. Desejamos afeto a fim de escaparmos do sentimento de solidão, a fim de sermos, como costumamos dizer, 'compreendidos'. É uma questão de simpatia, e não simplesmente de benevolência; a pessoa cujo afeto nos é satisfatório não nos deve unicamente querer bem, mas também saber em que consiste nossa felicidade. Isso, no entanto, pertence ao outro componente de uma vida virtuosa, a saber: o conhecimento."

terça-feira, 13 de setembro de 2011

ALGUNS MITOS E VERDADES SOBRE ATEUS, AGNÓSTICOS E CRENTES - Parte 2

Antes de expor as idéias de Russell sobre conhecimento e amor, é importante sabermos algo mais sobre ele. 


Bertrand Arthur William Russell, terceiro conde de Russell, nasceu no País de Gales (Grã Bretanha), em 1872, de uma família tradicional. Tornou-se famoso como filósofo, lógico e matemático, além de persistente humanista.


Escritor prolífero, ajudou a popularizar a filosofia por meio de palestras e comentários sobre grande variedade de assuntos, não apenas acadêmicos, mas também importantes questões políticas e sociais de sua época. Dono de um estilo de escrita límpida e de raciocínios claros, dedicou-se às causas que abraçou com grande  coragem e ousadia. Em 1950, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, "em reconhecimento de seus variados e importantes escritos nos quais advoga ideais humanitários e a liberdade de pensamento".


Lembro-me, na minha adolescência, por volta dos 16 - 18 anos, dos seus artigos e declarações que saíam na imprensa internacional: contra a guerra do Vietnã, discutindo temas relevantes da época, suas ações a favor do pacifismo, das reformas sociais e da liberdade de pensamento. Os dois livros que li dele nessa época, "ABC da Relatividade" (no qual, de uma maneira clara e acessível, introduz o leitor à Teoria da Relatividade) e "Introdução à Filosofia da Matemática", marcaram-me. Lembro-me, ainda, de um texto dele, no qual analisa falácias (veja "Crivos da Razão - Parte 3: Argumentação Lógica e Falácias"). Impressionou-me, particularmente, sua análise da falácia do argumento contra o homem ("Crivos da Razão - Parte 6: A Falácia do Argumento contra a Pessoa"), a forma usada, infelizmente por muitos, de atacar a pessoa, tentando desqualificá-la moral e/ou intelectualmente, ao invés de tentar refutar, com lógica, o que ela diz.


Reproduzo, a seguir, trechos do capítulo 2, "A Vida Virtuosa", do livro de Russell, "No que Acredito", que citei na parte 1 desta postagem, embasando minha afirmação de que este autor enaltece a importância do conhecimento e do amor, mas principalmente deste último. E que, neste sentido, aproxima-se muito de ideais espíritas.


Para Russell, "a vida virtuosa é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento". Ele prossegue, desenvolvendo seu pensamento:


"Tanto o conhecimento como o amor são indefinidamente extensíveis; logo, por melhor que possa ser uma vida, é sempre possível imaginar uma vida melhor. Nem o amor sem o conhecimento, nem o conhecimento sem o amor podem produzir uma vida virtuosa. Na Idade Média, quando a peste surgia numa região, os sacerdotes alertavam a população para que se reunisse nas igrejas e orasse por sua salvação; como conseqüência, a infecção propagava-se com extraordinária rapidez entre as multidões de suplicantes. Eis, portanto, um exemplo de amor sem conhecimento. A última guerra [ele está se referindo à 1a. Guerra Mundial, o livro é de 1925] nos propiciou um exemplo de conhecimento sem amor. Em ambos os casos, o resultado não foi senão a morte em grande escala."


E prossegue: "Ainda que o amor e o conhecimento sejam ambos necessários, em certo sentido o amor é mais fundamental, na medida em que levará indivíduos inteligentes [eu diria os que usam de fato sua inteligência, sem a preguiça mental de que fala Aulus, o orientador espiritual de André Luiz - veja no final da postagem "Espiritismo e Desenvolvimento Científico"] a buscar conhecimento a fim de descobrir de que modo beneficiar aqueles a quem amam. Mas, se os indivíduos não forem inteligentes, hão de contentar-se em acreditar naquilo que lhes disseram [veja "Espíritas: Instruí-vos", "Pensando Por Si Mesmo!" e "CRIVOS DA RAZÃO - Parte 5: A Falácia do Apelo à Autoridade"] e possivelmente praticarão o mal, apesar da mais genuína benevolência."


Na próxima postagem, "Amor como Deleite e Amor como Benevolência" cito mais alguns trechos deste livro de Russell, nos quais ele faz inspiradoras reflexões sobre o amor como deleite e o amor como benevolência.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

ALGUNS MITOS E VERDADES SOBRE ATEUS, AGNÓSTICOS E CRENTES - Parte 1

Por vezes, tendemos ver as coisas de modo dicotômico, isto é,  separando as coisas em opostos inconciliáveis: bons versus maus, os que acreditam em Deus versus os ateus, sendo que algumas vezes identificamos os que acreditam com os bons e os ateus com os maus. Tal maneira de encarar as coisas denota pouca maturidade emocional e espiritual. A realidade nunca é tão simples. Ninguém é absolutamente mal, nem absolutamente bom, no nosso nível evolutivo. Alguns ateus podem ser melhores do que algumas pessoas que dizem acreditar em Deus.

Algumas pessoas que dizem acreditar em Deus, quando as coisas parecem ficar muito ruins, "esquecem" sua crença e se desesperam (falo também por experiência própria, pela fragilidade de fé que mostrei no passado e que acredito ter superado, fundamentando minha fé muito mais fundo em meu espírito), revoltam-se, assim renegando, na prática, a sua crença. Por outro lado, alguns são ateus porque a sua concepção de Deus que aprenderam/desenvolveram é de um deus vingativo e injusto. Num deus deste tipo eu também não acredito. Conhecendo melhor alguns desses "ateus", percebe-se, entretanto, que são profundamente espiritualizados, valorizando a vida e o conhecimento do Universo, como forma de crescimento e evolução. 


Embora se declarem ateus ou agnósticos, a vida e prática deles apontam para uma profunda crença num Deus imanente de uma Perfeição nada simples e que parece, à primeira vista, Sua própria negação, como eles parecem acreditar e muitos de seus seguidores e críticos. 


Um desses "ateus" parece-me ser Richard Dawkins,  um dos mais aguerridos críticos das religiões e da crença em Deus. Seu livro "O Maior Espetáculo da Terra: as evidências da evolução" (tradução de Laura Teixeira Motta. - São Paulo: Companhia das Letras, 2009) é, para mim, um hino de celebração da Vida e de Deus. Esta minha afirmação possivelmente será enfática e até agressivamente criticada por muitos dos partidários das suas idéias, e talvez pelo próprio Dawkins (se a lesse), mas também por muitos de seus maiores críticos. Talvez uma das críticas mais suaves que me façam seja a de ingênuo. Tudo bem...


Um agnóstico brasileiro, Marcelo Gleiser (alguns talvez o vejam como ateu, mas o percebo agnóstico, ou seja, aquele que tem dúvida sobre a existência de Deus, não O negando, nem O afirmando em termos absolutos), também considero praticar em seus livros e artigos uma crença num Universo que é, para mim, indistinguível de um Deus imanente de profunda Harmonia. No seu livro, "Criação Imperfeita: Cosmo, Vida e o Código Oculto da Natureza" (título algo  pretencioso... rs...), expressa  a visão de um Deus de suprema Harmonia. Não uma Harmonia simples, de uma simetria óbvia, ou de fácil acesso intelectual, mas uma Harmonia que demanda, para ser percebida, uma abertura de espírito que vai além da razão habitual e implica numa síntese desta com a sensibilidade. Não sei até que ponto ele mesmo percebe isto conscientemente, ou apenas a "imperfeição" da Natureza. Pode ser que, também neste caso, esta minha visão seja criticada por "gregos" e "troianos". Tudo bem...


Um outro célebre e autodeclarado agnóstico, Bertrand Russell, vai mais longe. Celebra a busca do conhecimento, mas principalmente de um amor espiritual (embasarei esta afirmação na 2a. parte desta postagem).

Lendo seu texto, "No que acredito",  escrito em 1925 (tradução de André de Godoy Vieira. - Porto Alegre, RS: L&PM, 2011), discordo de algumas de suas afirmações e percebo outras como datadas, isto é, válidas para os conhecimentos da época, mas atualmente obsoletas. Vejo, porém, que várias das suas crenças básicas expressam alguns dos melhores ensinamentos das grandes religiões e são completamente compatíveis com importantes ensinamentos espíritas.

domingo, 24 de julho de 2011

O Que É Ciência - parte 2

O processo dedutivo é passo fundamental para a formulação adequada e corroboração/refutação de uma teoria científica. Popper especifica quatro passos para este processo:


O primeiro é formal, um teste da consistência interna do sistema teórico para verificar se este contem quaisquer contradições.


O segundo passo é semi-formal, determinar os axiomas básicos da teoria, distinguindo seus elementos empíricos (baseados em observações) dos elementos puramente lógicos. Ao dar este passo, o cientista explicita a estrutura lógica da teoria. Falhar em fazer isto pode levar a erros básicos – o cientista acaba formulando as questões erradas e pesquisando dados empíricos que não são utilizáveis. Muitas teorias científicas contêm elementos analíticos (isto é, elementos lógicos, premissas a priori) e elementos sintéticos (afirmativas fundamentadas na observação de fatos empíricos), e é necessário estruturá-las de forma axiomática para distinguir claramente os elementos lógicos dos empíricos.


O terceiro passo é a comparação da nova teoria com as existentes para determinar se ela constitui ou não um avanço sobre estas. Se não constitui um avanço, não será adotada. Se, por outro lado, sua capacidade de explicar fenômenos conhecidos é comparável, com vantagem, às teorias existentes e, além disto, explica fenômenos até então não explicados, ou resolve alguns problemas até então insolúveis, considera-se que esta nova teoria constitui um avanço sobre as existentes, e será adotada. Portanto, a ciência envolve progresso teórico.


Entretanto, Popper enfatiza que determinamos se uma teoria é melhor do que outra testando-as dedutivamente (isto é, deduzindo conclusões de ambas que possam ser testadas na prática), ao invés de indutivamente. Por esta razão, ele argumenta que uma teoria é julgada melhor do que outra (desde que não seja refutada pela experimentação e pela aplicação prática) se tiver um maior conteúdo empírico e, portanto, maior poder preditivo (poder de prever fenômenos) do que sua rival. A ilustração clássica disto em física foi a substituição da teoria da gravitação universal de Newton pela teoria da relatividade de Einstein. Isto elucida a natureza da ciência como Popper a vê: em praticamente todas as ocasiões haverá várias teorias ou conjecturas conflitantes, algumas das quais com melhor capacidade explicativa do que outras. A que melhor explicar será, conseqüentemente, adotada provisoriamente. Em resumo, para Popper, qualquer teoria X é melhor do que uma “rival” Y, se X tiver maior conteúdo empírico e, portanto, maior poder preditivo do que Y.

O quarto e último passo é o teste da teoria pela aplicação empírica das conclusões deduzidas dela. Se estas conclusões se mostrarem verdadeiras, a teoria é corroborada (mas não comprovada). Se estas conclusões se mostrarem falsas, então isto é um sinal de que a teoria não pode estar completamente correta (em termos lógicos a teoria é refutada), e o cientista começa sua busca por uma teoria melhor. Entretanto, ele não abandona a presente teoria até que tenha uma melhor para substituí-la. Mais precisamente, o método de teste de teoria é o seguinte: certas conclusões são deduzidas da nova teoria – estas conclusões são predições e de especial interesse são aquelas predições “arriscadas” (no sentido de serem intuitivamente implausíveis ou surpreendentemente novas) e testáveis experimentalmente.

Dentre estas últimas conclusões o cientista seleciona em seguida aquelas que não são dedutíveis da teoria atualmente mais aceita. De especial interesse são as conclusões que contradizem a atual teoria. Ele então busca decidir comparando estas e as outras conclusões com os resultados das aplicações práticas e das experimentações. Se as novas predições não forem refutadas na prática, então a nova teoria é corroborada (e a velha refutada), e é adotada como uma hipótese de trabalho. Se as predições forem refutadas pelas observações, então elas refutam (falsificam) a teoria a partir da qual foram derivadas. Portanto, Popper mantém um elemento do empirismo: para ele, o método científico realmente envolve um apelo à experiência. 

Diferentemente dos empíricos tradicionais, porém, Popper mantém que a experiência não determina a teoria (isto é, não argumentamos ou inferimos da observação empírica para a teoria), a experiência apenas a delimita; ela mostra que teorias são falsas, não que teorias são verdadeiras. Além disto, Popper rejeita a doutrina empírica que as observações empíricas são, ou devem ser, infalíveis, em vista do fato de que elas mesmas são baseadas em teoria. Não existiriam, assim, observações "puras" ou "neutras". Todas são seletivas, contaminadas por teorias formais ou informais, conscientes ou não, de como os fenômenos observados "devem ser". Experimentos e observações das neurociências parecem concordar com essas assertivas de Popper.

Atualização de Cultura, por Deolindo Amorim

Este lúcido texto do jornalista, escritor e conferencista espírita brasileiro,   Deolindo Amorim (1906 - 1984), publicado no Anuário Espír...