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segunda-feira, 14 de março de 2011

Terapia de Regressão Vivencial

       Numa postagem anterior, comentei sobre como as gestalts abertas inconscientes (situações não resolvidas que suprimimos da nossa consciência pela ”repressão”) drenam a nossa energia. E, enquanto não resolvidas, podem ficar gravadas em nosso inconsciente como “programações negativas”. Comentei, também, que estas “programações negativas” podem ser combatidas por meio de processos que permitam ao paciente reviver e reelaborar o episódio traumático. Um destes processos é a técnica Peres de Regressão Vivencial, a Terapia Reestruturativa Vivencial Peres (TRVP), criada pela psiquiatra dra. Maria Júlia Prieto Peres.
       Para explicar o que é e como funciona a Terapia de Regressão Vivencial, vou contar um caso real de sua utilização. Por questões éticas, o nome da paciente é fictício, informações que permitiriam identificá-la foram mudadas, e há seu consentimento para a publicação deste caso.

       Vera, 43 anos, divorciada, dois filhos. Seu problema: sentia-se insegura em tomar decisões importantes para a sua vida, deixando que outros as tomassem. Tinha muita dificuldade em dizer não, abdicando-se de suas próprias necessidades para atender a dos outros, e se sentia constantemente insegura e ansiosa. Isto ocorria tanto em casa (morava com a mãe, que “mandava” nela e nos netos), como no trabalho (permitia que até colegas dessem-lhe ordens). A sessão de regressão vivencial, descrita a seguir, faz parte de um conjunto de sessões a que Vera se submeteu, durante um período de seis meses, enfocando o tema: a relação de excessiva dependência da mãe.
       Após o terapeuta aplicar uma técnica de relaxamento que leva Vera a um estado aprofundado de consciência, orienta-a para que reviva um evento relacionado ao tema, que esteja na origem do problema que está sendo trabalhado na sessão. Porém, que seja um evento que ela tenha, no momento, condições emocionais de vivenciar e elaborar.
       No início da regressão, Vera começa a chorar. Quando perguntada sobre o motivo do choro, fala que se vê deitada no chão, chorando. Tem três anos de idade. “Acho que ela não gosta de mim”, diz com voz meio infantil. O terapeuta pergunta quem é ela e Vera responde: “Minha mãe”.
       Continuando, diz: “Está escuro, não tem nenhuma luz”. Tem medo, treme, sente-se sufocar. Sente-se triste e rejeitada. A mãe está ao lado – “Ela está vendo eu chorar. Ela não me dá a mão. Ela só olha para mim.” Pede colo à mãe, mas esta não lhe responde, nem faz qualquer gesto em sua direção. “Eu tou sozinha. O que eu vou fazer sozinha? Não quero mais ficar sozinha”. Sente-se triste, com “um grande vazio”.
       Acha que sua mãe não está se importando – “Não fica com pena”. Vê, então, sua mãe esticando os braços em sua direção: “Engraçado, ela com o braço esticado e eu olhando pra ela. Eu estava pedindo colo pra ela, mas agora não”. Ambas, mãe e filha, ficam quietas, olhando uma para outra. Vera sente que sua mãe está pedindo ajuda: “É engraçado o que eu estou sentindo. É como se ela estivesse pedindo ajuda também. Eu pedindo ajuda e ela pedindo ajuda”.
      Vera toma consciência, então, que sua mãe não queria ter tido uma filha. Não queria ter ficado grávida. Neste momento, reage e lutando contra a tristeza, contra o sentimento de rejeição, o medo e a sensação de sufocamento consegue se sentar, e isto é uma grande vitória para ela que, assim, retoma contato com suas forças internas.
       Com Vera ainda em estado aprofundado de consciência, o terapeuta a orienta para que identifique, em relação a tudo o que vivenciou, o momento mais traumático, mais significativo. Identifica-o como o momento em que, no chão, encolhida, pede colo à mãe, mas esta só olha e não faz nada. O terapeuta conduze-a, então, a revivenciar este momento, explorando-o mais a fundo. Revivencia as emoções, sensações, pensamentos e intuições já descritos e percebe outras coisas: vê-se, em determinado momento, como se encolhesse  ̶ “Como se eu estivesse encolhendo, encolhendo, encolhendo, diminuindo. Estou encolhida como se fosse morrer”.
      O terapeuta ajuda-a a aprofundar a elaboração da vivência. Ela percebe, então, com mais clareza, as carências e fragilidades da mãe, tanto na época, como na atualidade, e sente compaixão por ela. Aprofunda, também, a consciência de suas forças internas e formula uma redecisão de vida baseada naquela vivência: “Eu supero as minhas dificuldades”.
      A elaboração da redecisão é um dos momentos-chave de uma terapia bem sucedida de regressão vivencial, e deve brotar do próprio paciente com a ajuda do terapeuta, que age como um “parteiro” facilitador do processo. A redecisão deve ser sentida pelo paciente como algo que elimina total ou parcialmente as percepções e “mandatos” ou “programações” negativas induzidas pela situação traumática ocorrida no passado.
       Ao dizer a frase da redecisão, Vera sente “uma força que vem de dentro”. O terapeuta pede, a seguir, que visualize uma cena em que esteja aplicando naturalmente a redecisão. Vera visualiza-se no meio de muitas pessoas agitadas, nervosas e, ao contrário do que faria habitualmente (também ficaria nervosa, até mais do que as pessoas ao redor), vê-se calma, raciocinando com clareza e encontrando solução adequada à situação.
      A sessão continua com um processo de desprogramação que permite que a recordação permaneça, mas sem a carga pesada das sensações e emoções negativas, agora já elaboradas, e termina com a programação positiva – um processo de fortalecimento da redecisão e das emoções e imagens positivas associadas.
      A sessão seguinte é uma sessão de integração, isto é, uma sessão para ajudá-la a integrar em sua vida diária tudo o que viveu. É muito comum, durante a semana, o paciente ter novos “insights”, isto é, compreender, com mais detalhes, a relação causal do que vivenciou na sessão com padrões de comportamentos que tem tido em sua vida e que a prejudicam. A sessão de integração serve, também, para avaliar como a redecisão está sendo aplicada na sua vida e o ajudar nesta aplicação.
       No caso da Vera, posteriormente coisas importantes ocorreram, já perceptíveis na sessão de integração e reforçadas com as sessões de regressão e integração seguintes: começou a perceber sua mãe de outra maneira, perdendo o medo e estabelecendo com ela uma relação mais madura, colocando limites aos seus comportamentos dominadores e assumindo mais seu papel de mãe junto aos dois filhos, orientando-os com maior segurança. Também no trabalho começou a atuar mais assertivamente, tomando decisões e se posicionando mais claramente em reuniões, ocupando seu espaço legítimo e ampliando suas chances de crescimento, passando a ser notada positivamente por superiores e colegas, não mais se sentindo “invisível” como se sentia antes.
       
       Um alerta! É importante ressaltar que a terapia de regressão vivencial é uma técnica complexa, que atua profundamente no inconsciente e, por isto, se não for bem conduzida, por profissional habilitado, poderá fazer mais mal do que bem. Além disto, há casos para os quais é adequada e outros para os quais não é. Por estas razões, só deve ser aplicada por psicólogos ou psiquiatras com uma formação específica neste campo, o que inclui terem se submetido, como pacientes, a um processo de terapia didática em regressão vivencial.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Nossas Gestalts Abertas Inconscientes


       A sabedoria tradicional chinesa chama de “ch’i” a nossa energia vital. O ch’i circula por todo nosso ser – corpo e mente. Os meridianos da acupuntura mostram os caminhos dessa energia sutil e poderosa. Quando flui livremente, produz a saúde, que a OMS - Organização Mundial de Saúde define como “(...) o estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença”. Quando bloqueada no seu fluxo natural, pode provocar sensações de cansaço, estresse, dificuldade em tomar decisões, e transtornos físicos e mentais mais graves.

       Comentei, numa postagem anterior, sobre as gestalts abertas, aquilo que nos dispersa, diminuindo nossa energia e produtividade. E que, para as resolvermos, o primeiro passo é tomar consciência delas (como fechar as gestalts abertas). Quando se trata de fatos, tarefas e conflitos do nosso dia-a-dia, essa consciência é mais fácil.

       Contudo, há outro nível de gestalts abertas das quais, normalmente, não temos consciência e sobre as quais não comentei na postagem anterior. Estas gestalts abertas inconscientes, situações não resolvidas que aparentemente esquecemos, decorrem, muitas vezes, de traumas sofridos num passado recente ou distante e que, por serem muito doloridos, suprimimos da nossa consciência pelo mecanismo de defesa do ego chamado ”repressão”. Estas memórias traumáticas, como gestalts abertas, drenam a nossa energia vital – o chi. O esforço para as manter reprimidas, também consome energia. Elas funcionam, portanto, como um bloqueio ao livre fluxo do ch’i.

       Por exemplo, se nos deparamos com o que julgamos uma traição de alguém a quem estamos muito ligados emocionalmente – um familiar, um cônjuge, um amigo –, este fato pode ser muito traumático para nós. No momento mais dolorido do episódio, sofremos um estresse emocional. Neste momento, tendemos a tomar decisões como, por exemplo, “nunca mais vou confiar em alguém”. Quanto mais traumático para nós foi este momento, maior a energia que colocaremos nesta “decisão”. E isto poderá levá-la a ficar gravada em nosso inconsciente. E, é claro, maior será o nível de energia que sua repressão demandará.

       Estas “decisões” gravadas “a ferro e fogo” no nosso inconsciente, no calor dos acontecimentos e da dor causada pela situação traumática, podem depois ser “esquecidas”, ou seja, reprimidas. Contudo, permanecem ativas no nosso inconsciente, influenciando nossas percepções, emoções, pensamentos e ações. Isto é denominado “transtorno de estresse pós-traumático”, podendo se dissipar através de novas experiências de vida. Entretanto, em casos mais graves, quando o abalo emocional foi mais profundo, pode provocar uma alteração mais duradoura de personalidade e facilitar o surgimento de doenças físicas.

       No caso do exemplo da traição, podemos passar a ter dificuldades para confiar em pessoas que, inconscientemente, associamos àquela que nos traiu. Ou, dependendo da carga emocional que colocamos na nossa “decisão”, essa desconfiança pode até se estender às pessoas em geral.

       Semelhante a um “vírus” de computador, estas programações ocultas podem “travar” nosso sistema vital, nossas decisões e ações, ou torná-lo mais lento, dificultando pensamentos, decisões e ações que, de alguma forma, inconscientemente associamos ao fato traumático. Ou, ainda, podem nos levar a “perder dados”, isto é, a esquecermos de compromissos, pessoas e fatos. E estes “esquecimentos” freqüentemente causam problemas pessoais e profissionais.

      Como combater essas programações negativas? Há várias formas. Nos casos mais amenos, novas experiências, mais positivas, podem facilitar a modificação de tais programações. O fato de nos abrirmos a estas novas experiências pode apressar este processo de cura. É o caso, por exemplo, de alguém que, pela primeira vez, dá uma batida séria com o carro. Isto pode ser uma experiência traumática e provocar medo de guiar novamente. Uma maneira de superar isto é enfrentar a situação que o amedronta, como por exemplo, guiar em pequenos percursos e, à medida em que for recuperando sua segurança, aumentar gradativamente o percurso, até atingir o patamar anterior ao acidente. Porém, a resistência para voltar a dirigir, bem como a falta de prática, podem levá-lo a uma insegurança ainda maior, consolidando o medo e dificultando, cada vez mais, essa retomada.

       Em casos mais graves, porém, pode ser necessário o combate aos efeitos e às causas destas programações negativas. Os efeitos podem ser combatidos por medicação específica e as causas, por psicoterapia.

       Uma abordagem que tem mostrado bons resultados na reestruturação de memórias traumáticas é a que cria condições para que o paciente reviva, de forma catártica, os fatos traumáticos, trazendo-os à consciência, para então os elaborar.

       No exemplo da pessoa traída, o psicoterapeuta, por meio de técnicas apropriadas (relaxamento, hipnose, e/ou outras técnicas), leva a pessoa a reviver a situação em que presenciou ou tomou conhecimento da traição. Revivendo intensamente as emoções que o episódio lhe causou, bem como as sensações e pensamentos que teve, a pessoa revive a “decisão” que tomou na época (“nunca mais vou confiar em alguém”, no exemplo) e a carga emocional associada (exemplo: decepção, raiva, tristeza, solidão). A partir daí, com o auxílio do psicoterapeuta, ela tem condições de revê-la e tomar uma nova decisão mais saudável. Se esse processo for bem conduzido, a pessoa sentirá, ao fazer a “redecisão”, sensações de alívio, bem-estar, libertação. E a colocará em prática, em parte consciente e em parte inconscientemente, estabelecendo novos hábitos e padrões mais saudáveis de pensamento e ação.

Atualização de Cultura, por Deolindo Amorim

Este lúcido texto do jornalista, escritor e conferencista espírita brasileiro,   Deolindo Amorim (1906 - 1984), publicado no Anuário Espír...