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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Atualização de Cultura, por Deolindo Amorim

Este lúcido texto do jornalista, escritor e conferencista espírita brasileiro,  Deolindo Amorim (1906 - 1984), publicado no Anuário Espírita de 1965 (ano II, número 2, pag. 53), órgão de divulgação do Instituto de Difusão Espírita (Araras - SP) lembra-nos de que:

"O Espiritismo, já pela sua estrutura, já pelas suas consequências, não pode ser limitado por uma concepção qualquer, como se realmente temesse os desafios da Ciência e do raciocínio claro. O Espiritismo é uma doutrina de natureza transitiva, porque procura comunicação com o mundo exterior a fim de interpretar os fenômenos da vida e da cultura em todos os seus aspectos. Não é, nem poderia ser uma doutrina hermética, nem muito menos devocional."

Este é um importante desafio do Espiritismo contemporâneo, para que não se perca no irracionalismo dogmático devocional, comum na prática espírita atual. Esta reflexão de Deolindo Amaral sugere linhas de ação para a superação deste tipo de atitude, relembrando significativos fundamentos kardequianos. 

Agradeço ao amigo Wilton Oliveira por ter enviado este texto.





Não é de hoje que nos preocupamos com este assunto no movimento espírita. Ainda há pouco tempo, em palestra proferida na “Mocidade Espírita do Estado de São Paulo”, cujo ambiente nos causou a melhor impressão possível, fizemos ver (e não dissemos com isto nenhuma novidade, bem o sabemos) que o Espiritismo é uma doutrina bastante arejada para nos fazer compreender certos fenômenos da nossa época.

Todavia, e nunca é demais insistir neste ponto, é indispensável que os responsáveis pela divulgação e apresentação da Doutrina procurem se atualizar, principalmente em relação às mais frisantes exigências do momento. A cultura desatualizada, ainda que tenha grande lastro de erudição, corre o risco de ficar estagnada diante de fatos novos. Muita gente pensa que a condição de espírita nos afasta do mundo ou nos põe completamente à margem das aquisições científicas e das descobertas do pensamento. Pensar assim é colocar-se em contraposição ao próprio espírito progressivo da Doutrina.

Se o Espiritismo não teme as descobertas da Ciência, como disse Allan Kardec, certamente os seus adeptos mais esclarecidos, os seus propagadores mais convictos devem acompanhar as atividades culturais, notadamente nos campos que ofereçam mais elementos de confronto com o Espiritismo. Não se deve, pois, abandonar a curiosidade intelectual, que é uma necessidade do espírito, é um meio de se ficar em dia, tanto quanto possível, com a evolução geral dos conhecimentos e das ideias.

Já se vê, portanto, que o Espiritismo, já pela sua estrutura, já pelas suas consequências, não pode ser limitado por uma concepção qualquer, como se realmente temesse os desafios da Ciência e do raciocínio claro. O Espiritismo é uma doutrina de natureza transitiva, porque procura comunicação com o mundo exterior a fim de interpretar os fenômenos da vida e da cultura em todos os seus aspectos. Não é, nem poderia ser uma doutrina hermética, nem muito menos devocional.

Todas as revoluções científicas, na Biologia como na Psicologia, na Astronomia como na Física, e assim por diante, interessam ao Espiritismo, uma vez que a sua doutrina estuda “um dos elementos constitutivos do Universo” e, por isso mesmo, “toca forçosamente na maior parte das ciências”. Quem o afirma é ainda Allan Kardec (“A Gênese”, cap. I, item 18). Estamos vendo, assim, que o Codificador encara o Espiritismo através de uma perspectiva universalista, sempre com o sentido de conjunto, pois a Verdade não é exclusivista nem se configura por inteiro dentro de um compartimento ou de um sistema de ideias. A Verdade manifesta-se em várias direções do espírito, e de vários modos, através de uma rede infindável de experiências e contribuições.

O Espiritismo tem, portanto, uma visão global do conhecimento. Dentro dessa concepção, que transcende a toda e qualquer posição unilateral, podemos muito bem considerar certos fenômenos à luz da Doutrina Espírita, ainda que esses fenômenos ocorram em searas estranhas. Não nos esqueçamos de que o Espiritismo tem relação com diversas ciências.

Se, por exemplo, surge um conceito novo de matéria, devido a uma pesquisa especial ou revolucionária, podemos e devemos testar esse conceito com o Espiritismo e verificar, depois disso, se há realmente alguma novidade ou se advém daí algum enriquecimento para a Doutrina. Há ocasiões em que certas novidades são apenas rótulos, mas também há ocasiões em que se colhe alguma coisa interessante para aumentar o cabedal que a doutrina já consagrou no tempo e no espaço; o que não está certo, o que não é atitude espírita é ignorar um fenômeno ou não tomar conhecimento de uma descoberta científica, seja lá onde for, venha por quem vier, desde que nesse fenômeno ou nessa descoberta haja um aspecto positivo, haja um ponto de interesse para o Espiritismo. Até mesmo no campo do materialismo — e nisto se vê a liberalidade e amplitude do Espiritismo — se aparecer uma verdade ou se alguém revelar um fato novo, essa verdade ou esse fato deve merecer a nossa atenção.

O Espiritismo não pode ignorar a desintegração atômica, como não pode ficar indiferente às viagens interplanetárias nem deve permanecer alheio às investigações da Parapsicologia ou de qualquer outra escola que estude o psiquismo humano, apesar das divergências de interpretação.

Cabe ao Espiritismo, nesta mesma ordem de ideias, mostrar os exageros e os equívocos da Psicanálise, mas não deve tomar atitude hostil ou repelir a investigação psicanalítica, a não ser quando essa investigação se desgarra do verdadeiro espírito científico, Enveredando pela desonestidade ou pelos recursos interesseiros. Fora disto, no terreno elevado ou imparcial da perquirição científica, o Espiritismo não pretende condenarcoisa alguma, porque lhe cumpre observar e analisar sempre. Este, na realidade, é o espírito da Doutrina. Cabe, agora, aos seus adeptos a parte de execução, que é nada mais nada menos, a afirmação desse espírito em seus comportamentos perante as solicitações da cultura e as circunstâncias da vida.


 Se aparece uma teoria nova, por mais discrepante que ela se nos afigure, o que devemos fazer é examiná-la, criticá-la se for necessário, mas nunca devemos chegar ao extremo das reprovações inquisitoriais, pois o Espiritismo também não receia a luz de nenhuma teoria ou ideia renovadora. Em nenhum caso, fosse qual fosse o pretexto, seria admissível o imprimatur no meio espírita.

O campo das ideias deve ser livre, tanto quanto é livre o campo da crítica e da discordância. Não importa que uma obra venha do Alto ou tenha origem terrena, pois todas as ideias, qualquer que seja a fonte ou o veículo, podem ser criticadas ou rejeitadas. Fora disto, não compreendemos o comportamento espírita.

Se assim procedemos, ou devemos proceder, em consonância com o caráter da Doutrina, é claro que temos condições para resistir a quaisquer teorias ou mensagens fantasiosas, evitando o perigo de se incorporar à Doutrina, como se com ela estivesse de completo acordo, o fruto de simples suposições particulares, tanto faz de espírito desencarnado como encarnado.

Justamente por isso é que nos preocupamos, há muito, com a atualização da cultura no meio espírita, a fim de evitar que certas terminologias impressionantes ou certas ideias fascinantes sejam aceitas em nosso meio como revelações incontestáveis ou como realizações científicas.


 Duas necessidades, portanto, se impõem cada vez mais em nosso movimento: estudo sério da obra de Allan Kardec e atualização dos conhecimentos gerais, para que se compreenda bem a solidez do Espiritismo em face das revoluções científicas de nossa época. O Espiritismo, com isto, se tornará ainda mais respeitado e nunca deixará de ser, ao mesmo tempo, uma fonte de consolações e esperanças.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Espíritas: Instruí-vos

       "Espíritas: amai-vos, eis o primeiro mandamento; instruí-vos, eis o segundo". Esta frase ditada pelo Espírito de Verdade, em Paris, 1960 (cap. VI, item 5 do Evangelho Segundo o Espiritismo*), há muitos anos tem sido amplamente divulgada no meio espírita. O primeiro mandamento é cristalino, reforçando a base cristã do Espiritismo. É a reprodução das palavras de Jesus, segundo o apóstolo e evangelista João (Jo 14:12): "Este é o meu mandamento: Amai-vos uns aos outros, como eu vos amo". 
       Gostaria de fazer algumas reflexões sobre o segundo, "instruí-vos". Para isto, vou inicialmente reproduzir um trecho do artigo "Por que ler Immanuel Kant", de Pedro Paulo Garrido Pimenta (doutor em filosofia pela USP e prof. de história da filosofia moderna do Departamento de Filosofia da USP), publicado na pag. 98 da revista "MenteCérebro & Filosofia: Kant" (vol. 2 - 2a. ed. rev. - São Paulo: Duetto Editorial, 2011). 
       A razão de começar estas reflexões com um artigo sobre Kant é o fato deste ser um dos maiores expoentes do Iluminismo (muitos o consideram o maior filósofo da Era Moderna), movimento filosófico que foi um verdadeiro "divisor de águas" na cultura ocidental. Pimenta cita, neste artigo, um famoso texto de Kant cujo título traduz por "Que é Ilustração?", mas muitas vezes traduzido por "Que é Esclarecimento?". Traduções deste texto podem ser encontradas na internet, como a deste link, publicada no site da Universidade Federal de Santa Maria.
       As idéias centrais iluministas estão claramente expressas na obra de Kardec (nascido no mesmo ano em que Kant desencarnou, 1804), o qual, além do grande inovador no campo espiritual da humanidade, pode ser visto também como um representante de muitos dos melhores valores do Iluminismo. 
       "Kant viveu e escreveu há mais de 200 anos, num mundo bastante diferente do nosso. Ora, se o intuito da filosofia é (ou deveria ser) explicar as coisas ou fazer-nos pensar sobre elas, fica a pergunta: que teria a nos dizer, ainda hoje, um filósofo tão distante no passado?
       Muita coisa. A partir do instante mesmo em que foi publicada, a Crítica da razão pura causou um impacto que ainda hoje se faz sentir. Não é que as teorias de Kant permaneçam atuais: é que elas não precisam, para se sustentar, de referência a esta ou aquela época.
       O objetivo de Kant foi a razão humana, um poder, ou uma "faculdade", como ele gostava de dizer, que permanece inalterado. É claro, as manifestações dessa racionalidade, que constituem o campo da cultura, mudam de lugar para lugar e se alteram ao longo do tempo. A antropologia estuda e tenta compreender essas variações. Mas, em se tratando do ser humano, somos os mesmos, onde quer que nos encontremos, seja em que período for: sentimos, agimos, falamos, cremos, raciocinamos, construímos objetos e alteramos a realidade à nossa volta, damos sentido a ela conforme os princípios do que Kant chamava de "razão".
       A vida atual é marcada pelo acelerado avanço da tecnologia, um processo que cada vez mais nos distancia daquela referência - a natureza - sem a qual não somos capazes de pensar a cultura. Esse avanço trouxe inegáveis melhorias à humanidade. Já no século 18, porém, Kant alertava, num texto intitulado "Que é Ilustração?", para que não se confundisse o progresso dos conhecimentos e da civilização com o esclarecimento dos homens.
       Este último é uma marca daqueles que, tendo ou não instrução, sabem pensar por si mesmos e ousam fazê-lo, a despeito de múltiplos obstáculos: a superstição religiosa, a coerção social, a censura política, a banalização da informação. É perfeitamente possível ser bem informado e completamente estúpido; no mais das vezes é, por sinal, o que acontece. A saturação de conhecimentos impede o uso livre da razão: satisfeitos com um cabedal de informações, descansamos tranquilos em nossa ignorância de nós mesmos. Mais difícil é pensar sem a direção alheia, descobrir, por conta própria, os poderes, limites e usos da razão. Assim, ler Kant hoje é redescobrir a filosofia,  não como uma relíquia do passado, mas como uma referência atual; é um jeito de evitar essa submissão, tola e desnecessária, ao que há de mais desumano nas coisas feitas pelo homem."
       Frases deste último parágrafo sintetizam idéias básicas desta minha reflexão:
       "É perfeitamente possível ser bem informado e completamente estúpido; no mais das vezes é, por sinal, o que acontece". Concordo, se entendermos  "estúpido" no sentido de obtuso, falho de entendimento, não em decorrência de um transtorno orgânico, mas causado por rigidez mental, dogmatismo, preconceitos e/ou "preguiça mental". Veja, nesse sentido, a fala de Aulus, instrutor de André Luiz, descrita no livro "Nos Domínios da Mediunidade", cap. 5, citada no final da postagem "Espiritismo e Desenvolvimento Científico", de 19/11/2010.
       "A saturação de conhecimentos impede o uso livre da razão: satisfeitos com um cabedal de informações, descansamos tranquilos em nossa ignorância de nós mesmos". Um risco que todos corremos se não estivermos alertas e abertos aos ensinamentos da Vida...
       "Mais difícil é pensar sem a direção alheia, descobrir, por conta própria, os poderes, limites e usos da razão". Esta é, a meu ver, a meta do "instruí-vos": não o mero acúmulo de informações, mas aprender a pensar por conta própria. E isto se aprende praticando, ousando usar seu próprio raciocínio, ir até onde este o levar e submeter suas conclusões aos crivos da razão, dos fatos empíricos e das opiniões contrárias.
       Não quero dizer, com isso, que o acúmulo de informações seja inútil. Claro que não! A informação é matéria-prima para o raciocínio. Mas a informação deve ser digerida, refletida e integrada com os demais conhecimentos da pessoa (gerando, assim, conhecimento útil ao seu detentor), não engolida sem mastigar, sem reflexão. A informação "engolida" sem reflexão pode ser inútil ou até "tóxica" àquele que a engole.


Numa postagem posterior a esta, de 13/05/2011, "Pensando por si mesmo!", com uma ótima contribuição de Poliana Martins, o tema de pensar por conta própria é retomado e detalhado um pouco mais, com base num texto de Shopenhauer. Veja, também, a postagem "Bendita Dúvida", no qual relaciono os  resultados das pesquisas do psicólogo Ibrahim Senay com o tema fé raciocinada x fé cega.
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*Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo: contendo a explicação das máximas do Cristo, sua concordância com o espiritismo e sua aplicação às diversas situações da vida. Tradução de J. Herculano Pires. - 14a. ed. - São Paulo: Edições FEESP, 1998.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

REFLEXÕES SOBRE O PERDÃO

Na parábola do credor incompassivo (Mt 18:23-35), Jesus exemplifica ao povo o trecho da oração do “Pão Nosso” (Mt 7:9-13) que ele ensinou aos discípulos - “perdoai as nossas ofensas, assim como perdoamos aos que nos ofenderam” - e lhes explicou em detalhes (Mt 7:14-15): “Porque, se perdoares aos homens as suas ofensas, vosso Pai celeste também vos perdoará. Mas, se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará”.

Mas, por que “se perdoares aos homens as suas ofensas, vosso Pai celeste também vos perdoará”? A fé raciocinada leva-me a não aceitar uma afirmação somente porque veio de (ou é atribuída a) uma alta autoridade moral e espiritual. O fato de prover de uma tal autoridade, leva-me a considerar tal afirmativa com um grande respeito, mas não a aceitá-la automaticamente caso não a entenda adequadamente, isto é, caso ainda não faça sentido diante da minha experiência de vida, meus conhecimentos e minha razão.

Uma primeira reflexão sobre esta afirmativa é sobre o Pai celeste. Penso que ao transmitir sua mensagem ao povo da época (e talvez mesmo para a maioria das pessoas ainda hoje), para que o compreendessem melhor, Jesus utilizou uma imagem antropomorfa de Deus, a imagem de um pai. É claro que Deus, como abrange tudo, pode também ser visto como um pai, falando esta imagem mais de perto ao sentimento popular (e também para mim). Porém, na resposta à 1a questão feita por Kardec (“O que é Deus?”) aos espíritos que consultou para escrever o Livro dos Espíritos, estes lhes disseram que “Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”. Esta resposta faz um sentido profundo para minha razão, experiência de vida e conhecimentos.

Portanto, tenho que considerar Deus não como uma figura humana que irá me castigar ou perdoar, mas como o Princípio de tudo que existe, existiu e existirá, o que inclui as leis do Universo em todos seus níveis e dimensões. Creio, também, e isto faz muito sentido para mim, que Deus é infinitamente bom, que ama a Sua criação infinitamente. Ligando isto à Sua onisciência (Deus conhece totalmente nossas fragilidades, qualidades, intenções e potenciais), concluo que não tem sentido (num nível mais profundo, não antropomórfico) falar do perdão de Deus. Isto porque só perdoa quem se sentiu ofendido e é inimaginável que qualquer coisa que façamos possa ofender a Deus, “a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”.

Então, se não é Deus que nos perdoa, quem ou o que nos perdoa? Penso que uma resposta é: nós mesmos nos perdoamos ou condenamos, ou seja, nossa consciência nos condena ou perdoa. Isto porque, faz todo sentido para mim (e por esta razão creio nele) o ensinamento bíblico de que somos feitos à imagem e semelhança de Deus e que, por esta razão, temos gravado em nosso espírito a Lei Divina que nos impulsiona a evoluirmos em direção ao Bem Supremo, ao Amor Universal. Comparando nossos pensamentos e atos a este Padrão Divino em nós, vem-nos a autocondenação e, após a compreensão e a reparação, o autoperdão. E como sabemos que nossa consciência realmente nos perdoou? Através da paz interior, da consciência tranqüila que nos indica estarmos em consonância com a Lei Divina em nós.

Mas, porque Jesus diz que temos que perdoar ao próximo para sermos perdoados? Penso que a rigidez em perdoar ao próximo volta-se contra nós mesmos, tirando-nos a paz interior, afastando-nos, assim, de Deus. A raiva, a mágoa, mantêm-nos presos àquele que acreditamos tenha nos ofendido. Realimentando a raiva, revivemos constantemente a situação na qual cremos termos sido ofendidos e isto reaviva ainda mais esta raiva, num círculo vicioso que nos intoxica mais e mais. Neste sentido, vale lembrar a frase atribuída à Shakespeare - “guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra”.

A raiva se mantém caso a realimentemos, porque sua tendência natural, como de outras emoções, é se dissipar com o tempo. Nós é que a mantemos viva, como nos lembra o caso de Felipe II (382 - 336 a.C.), rei da Macedônia, pai de Alexandre Magno. Felipe, por várias razões, ficou com muita raiva dos gregos e queria se vingar deles. Cônscio, talvez, de que sua raiva, deixada por si só, dissiparia-se com o tempo, chamou um dos seus servos de confiança e lhe ordenou: “lembre-me, todos os dias, o ódio que tenho dos gregos”).

Irritamo-nos ou nos magoamos quando cremos que fomos ofendidos. Portanto, se alguém nos diz ou nos faz algo, mas isto não nos toca, então não nos encolerizamos.


A raiva faz parte de um sistema de sobrevivência que herdamos de nosso passado mais primitivo e, alguns estímulos instintivamente podem nos levar à esta emoção. Mas, o impacto destes estímulos sobre nós pode ser minimizado ou intensificado por nossas crenças sobre nós mesmos, sobre as pessoas em geral e sobre o mundo. Por exemplo, se acreditamos que somos superiores (em termos de status intelectual, moral ou até espiritual) ao nosso “oponente” e que nossa “superioridade” implica que este deve nos tratar com deferência, e esta pessoa não nos trata desta forma, então nos encolerizamos. Em outras palavras, se o que o outro nos faz ou diz conflita com nossa vaidade, perdemos o equilíbrio.


Um outro exemplo: se julgamos (ou acreditamos) que a outra pessoa (ou pessoas) nos fala ou faz é muito injusto, que não deveríamos ser tratados desta forma (porque achamos que não provocamos tal comportamento, ou que o mesmo é cruel, irracional, que a pessoa só quer nos humilhar etc.) e, além disto, acreditamos também, p.ex., que não devemos “levar desaforo para casa”, então, provavelmente iremos nos encolerizar e manifestar esta cólera com palavras ou atos agressivos. Caso não possamos “dar vazão”, no momento, a esta cólera (porque achamos que o “oponente” é mais forte ou poderoso, ou forças maiores na situação nos impedem), ficamos magoados, alimentando, muitas vezes, pensamentos de vingança, atitude sobre a qual nos adverte a frase atribuída a Shakespeare.

Parece, então, que quando pensamos ter sido ofendidos, esta é a nossa percepção da situação. Se nossas crenças de como devemos ser tratados forem muito rígidas e nossa vaidade suficientemente grande, então iremos nos encolerizar e alimentar ressentimentos com freqüência, envenenando-nos e aos nossos relacionamentos.

Uma visão mais ampla, dada pelo Espiritismo, de nós mesmos como espíritos imortais em evolução através de inumeráveis existências, da Bondade Infinita de Deus, da Semente Divina em cada um de nós, leva-nos gradativamente, à medida que realmente absorvemos esta visão mais ampla, incorporando-a em nossa vida, a encarar de forma mais tranqüila e tolerante as supostas “ofensas” de nossos próximos (e, também, de ficarmos mais atentos para não os ofender).

Por vezes, nossos próximos mais próximos (na família, no trabalho) podem ser a fonte mais freqüente das pretensas “ofensas” que recebemos. Penso que eles funcionam para nós como os pequenos seixos que Demóstenes (384-322 a.C.) colocava na boca para dificultar mais os treinos que fazia, lendo em voz alta ou discursando, como forma radical para superar sua má dicção e sua gagueira. Tornando mais difícil para si mesmo o que já era difícil (falar de forma fluente, com clara dicção), quando conseguiu falar de forma razoavelmente fluente e clara com os seixos na boca, ao tira-los sua fluência e dicção ficaram ótimas e ele se tornou um dos maiores oradores da História da antiga Grécia. Assim, estes próximos que achamos que nos atormentam, são, de fato, nossos aliados, impulsionando a nossa evolução.


Veja, também, O Perdão que Liberta, de 10/12/2010.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Espiritismo e Desenvolvimento Científico

"O Espiritismo e a ciência se complementam um pelo outro; a ciência, sem o Espiritismo, se acha impossibilitada de explicar certos fenômenos, unicamente pelas leis da matéria; o Espiritismo sem a ciência, ficaria sem apoio e exame." (Kardec, Allan. A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo; Capítulo I - Caracteres da Revelação Espírita. São Paulo: LAKE, 1999).

Em "Obras Póstumas" (cap. Constituição do Espiritismo - Exposição de Motivos, item  II - Dos Cismas. São Paulo: LAKE, 1999), Kardec escreve referindo-se à Doutrina Espírita: "Apoiada, exclusivamente, em leis naturais, não pode ser mais variável que estas leis, mas se uma nova lei for descoberta, deve modificar-se para harmonizar-se com esta; não deve cerrar a porta a nenhum progresso sob pena de suicidar-se. Assimilando todas as idéias reconhecidamente justas, de qualquer ordem que sejam, físicas e metafísicas, nunca será posto à margem e é esta uma das principais garantias da sua perpetuidade."

Uma vez, pediram minha opinião sobre a razão destas recomendações de Kardec serem tão pouco seguidas pelo movimento espírita. Argumentei que, desde a época de Kardec, muitos grandes espíritas têm contribuído com pesquisas e idéias que aprofundam as revelações originais da Codificação. E que, no plano espiritual, as obras do Espírito André Luiz, sob a psicografia de Chico Xavier, iluminaram e desenvolveram muitos aspectos da Doutrina Espírita. Mas que sentia também a falta de um esforço sistemático para, a partir da análise destas várias contribuições, compatibilizá-las, caso realmente compatíveis, e integrá-las à Doutrina. E que, na minha opinião, várias seriam as razões disto não ocorrer.

Acho que uma destas razões tem a ver com nossa forte herança católica, com o seu dogmatismo autoritário. Esta herança parece estar profundamente (mas não irremediavelmente) arraigada na mentalidade brasileira, dificultando o raciocínio crítico, necessário para a utilização eficaz do "crivo da razão" preconizado por Kardec. Veja-se, nesse sentido, "CRIVOS DA RAZÃO - Parte 5: A Falácia do Apelo à Autoridade", postada neste blog em 10/01/2011.

Por outro lado, esta mentalidade tem sido também alimentada pela sucessão histórica de governantes autoritários mais voltados para os interesses da elite sócio-econômica (como foi o caso de praticamente todos os presidentes da "república velha") do que para a educação do povo. Mais recentemente, na nossa história, dirigentes autoritários-paternalistas (os "pais do povo") continuaram esta tradição de maneira mais sutil. A figura paradigmática deste tipo de dirigente foi Getúlio Vargas, copiado atualmente em muitos aspectos.


Este autoritarismo paternalista tem um antecedente histórico relevante, D. João VI. O livro "1808", de Laurentino Gomes, retrata brilhantemente a personalidade deste rei e sua contribuição para a formação do Brasil -- acho sua leitura obrigatória para quem quer entender aspectos relevantes da nossa tradição cultural que perduram até hoje. 

O autoritarismo intelectual típico da nossa cultura está em consonância com o baixo nível educacional de muitas das nossas instituições públicas e privadas de ensino (felizmente com notáveis excessões) e, consequentemente (mas não no sentido de consequência logicamente obrigatória), da grande maioria de nosso povo. 

Sérgio Buarque de Holanda (um dos nossos historiadores mais respeitados) cunhou o termo "homem cordial", ao se referir a uma das características marcantes do homem (e mulher, é claro) brasileiro. Por cordial, este historiador não se refere apenas à hospitalidade e amabilidade (também relevantes, a meu ver, mesmo que pareçam estar desaparecendo nos grandes centros), mas ao "compadrio", a tendência de resolver as coisas pelos relacionamentos, "panelinhas", em detrimento da justiça, do mérito e da verdade. Isto se vê na política, nas universidades (principalmente nas públicas, mas não apenas nelas) e nas empresas. Nestas, esta "cordialidade" (no sentido do termo do Sérgio Buarque) é um pouco amenizada, em razão da racionalidade imposta pela concorrência. Entretanto, mesmo esta concorrência é também minimizada pelo "compadrio" entre empresas -- oligopólios e os tão comuns "acordos" de preços (de mercado e de participação em concorrências públicas, entre outras coisas).

Numa outra perspectiva desta questão, a mentalidade da grande maioria do nosso povo parece não ter atingido ainda a Era Moderna. Em Filosofia e História, a modernidade está ligada ao relativo predomínio da razão que teve seu marco no Iluminismo, do qual Descartes foi uma das figuras paradigmáticas e precursoras na Filosofia (que teve em Kant um dos grandes expoentes do racionalismo crítico, do qual Karl Popper parece-me um relevante e inovador representante) e na Ciência (juntamente com Galileu, entre outros), ao lado de Voltaire, Montesquieu, Thomas Jefferson e vários outros. O passar tudo pelo crivo da razão é intrínseco ao pensamento iluminista, parte relevante da bagagem educacional e dos valores de Kardec. Porém, a maioria de nós ainda mantem a mentalidade pré-iluminista, pré-moderna. 

As considerações acima fazem parte, a meu ver, do "pano de fundo" que ajuda a explicar porque a recomendação kardequiana do crivo da razão ser tão alardeado, mas tão pouco praticado entre nós. Daí o relativo fechamento intelectual de vários dos espíritas atuais. Neste sentido, um dos personagens do livro "Nos Domínios da Mediunidade" (Cap. 5 – Assimilação de Correntes Mentais), Aulus, fala da preguiça mental que muitos temos em raciocinar por conta própria (os negritos são meus):

"Áulus, o orientador espiritual de André Luiz e de seu companheiro Hilário, explica a ambos como ocorre a assimilação das correntes mentais pelos encarnados. Hilário, intrigado com a explanação, pondera: 'Não será, porém, tão fácil estabelecer a diferença entre a criação mental que nos pertence daquela que se nos incorpora à cabeça'. Áulus, responde, instruindo:
– Sua afirmativa carece de base – exclamou o Assistente. – Qualquer pessoa que saiba manejar a própria atenção observará a mudança, de vez que o nosso pensamento vibra em certo grau de freqüência, a concretizar-se em nossa maneira especial de expressão, no círculo dos hábitos e dos pontos de vista, dos modos e do estilo que nos são peculiares.
E, bem-humorado, comentou:
– Em assuntos dessa ordem, é imprescindível muito cuidado no julgar, porque, enquanto afinamos o critério pela craveira terrena, possuímos uma vida mental quase sempre parasitária, de vez que ocultamos a onda de pensamento que nos é própria, para refletir e agir com os preconceitos consagrados ou com a pragmática dos costumes preestabelecidos, que são cristalizações mentais no tempo, ou com as modas do dia e as opiniões dos afeiçoados que constituem fácil acomodação com o menor esforço. Basta, no entanto, nos afeiçoemos aos exercícios da meditação, ao estudo edificante e ao hábito de discernir para compreendermos onde se nos situa a faixa de pensamento, identificando com nitidez as correntes espirituais que passamos a assimilar'."

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A Trajetória de uma Doutrina: Espiritismo

Acabei de ler uma edição especial da revista "Aventuras na História" da ed. Abril sobre Espiritismo, "A Trajetória de uma doutrina: Espiritismo" (82 pgs). Surpreendeu-me positivamente a abrangência, cuidado e profundidade (para uma revista) da pesquisa realizada para sua edição. Diferentemente da abordagem dada por uma edição passada da "Superinteressante" sobre o mesmo tema, o tom geral é de um bom e respeitoso jornalismo.


Pensei já ter um conhecimento razoável sobre a história do Espiritismo, mas aprendi algo mais com os artigos sobre o Chico, André Luiz, a origem do Espiritismo, Swedenborg, as irmãs Fox, o próprio Kardec, investigações feitas por cientistas, Conan Doyle (o criador de Sherlock Holmes, considerado um soldado do Espiritismo) e o ilusionista Houdini (um dos grandes adversários do Espiritismo).


Em relação ao Brasil, há artigos sobre as origens e o desenvolvimento do Espiritismo aqui, Bezerra de Menezes, ramificações do Espiritismo no Brasil, estatísticas sobre o Espiritismo aqui e no mundo.


Finalmente, uma relação dos livros fundamentais e dos livros clássicos da doutrina, e dos filmes nacionais e estrangeiros abrangendo temas espíritas que fizeram sucesso. Gostei particularmente da extensa linha do tempo descrevendo a evolução do Espiritismo no mundo e no Brasil.

Atualização de Cultura, por Deolindo Amorim

Este lúcido texto do jornalista, escritor e conferencista espírita brasileiro,   Deolindo Amorim (1906 - 1984), publicado no Anuário Espír...