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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Atualização de Cultura, por Deolindo Amorim

Este lúcido texto do jornalista, escritor e conferencista espírita brasileiro,  Deolindo Amorim (1906 - 1984), publicado no Anuário Espírita de 1965 (ano II, número 2, pag. 53), órgão de divulgação do Instituto de Difusão Espírita (Araras - SP) lembra-nos de que:

"O Espiritismo, já pela sua estrutura, já pelas suas consequências, não pode ser limitado por uma concepção qualquer, como se realmente temesse os desafios da Ciência e do raciocínio claro. O Espiritismo é uma doutrina de natureza transitiva, porque procura comunicação com o mundo exterior a fim de interpretar os fenômenos da vida e da cultura em todos os seus aspectos. Não é, nem poderia ser uma doutrina hermética, nem muito menos devocional."

Este é um importante desafio do Espiritismo contemporâneo, para que não se perca no irracionalismo dogmático devocional, comum na prática espírita atual. Esta reflexão de Deolindo Amaral sugere linhas de ação para a superação deste tipo de atitude, relembrando significativos fundamentos kardequianos. 

Agradeço ao amigo Wilton Oliveira por ter enviado este texto.





Não é de hoje que nos preocupamos com este assunto no movimento espírita. Ainda há pouco tempo, em palestra proferida na “Mocidade Espírita do Estado de São Paulo”, cujo ambiente nos causou a melhor impressão possível, fizemos ver (e não dissemos com isto nenhuma novidade, bem o sabemos) que o Espiritismo é uma doutrina bastante arejada para nos fazer compreender certos fenômenos da nossa época.

Todavia, e nunca é demais insistir neste ponto, é indispensável que os responsáveis pela divulgação e apresentação da Doutrina procurem se atualizar, principalmente em relação às mais frisantes exigências do momento. A cultura desatualizada, ainda que tenha grande lastro de erudição, corre o risco de ficar estagnada diante de fatos novos. Muita gente pensa que a condição de espírita nos afasta do mundo ou nos põe completamente à margem das aquisições científicas e das descobertas do pensamento. Pensar assim é colocar-se em contraposição ao próprio espírito progressivo da Doutrina.

Se o Espiritismo não teme as descobertas da Ciência, como disse Allan Kardec, certamente os seus adeptos mais esclarecidos, os seus propagadores mais convictos devem acompanhar as atividades culturais, notadamente nos campos que ofereçam mais elementos de confronto com o Espiritismo. Não se deve, pois, abandonar a curiosidade intelectual, que é uma necessidade do espírito, é um meio de se ficar em dia, tanto quanto possível, com a evolução geral dos conhecimentos e das ideias.

Já se vê, portanto, que o Espiritismo, já pela sua estrutura, já pelas suas consequências, não pode ser limitado por uma concepção qualquer, como se realmente temesse os desafios da Ciência e do raciocínio claro. O Espiritismo é uma doutrina de natureza transitiva, porque procura comunicação com o mundo exterior a fim de interpretar os fenômenos da vida e da cultura em todos os seus aspectos. Não é, nem poderia ser uma doutrina hermética, nem muito menos devocional.

Todas as revoluções científicas, na Biologia como na Psicologia, na Astronomia como na Física, e assim por diante, interessam ao Espiritismo, uma vez que a sua doutrina estuda “um dos elementos constitutivos do Universo” e, por isso mesmo, “toca forçosamente na maior parte das ciências”. Quem o afirma é ainda Allan Kardec (“A Gênese”, cap. I, item 18). Estamos vendo, assim, que o Codificador encara o Espiritismo através de uma perspectiva universalista, sempre com o sentido de conjunto, pois a Verdade não é exclusivista nem se configura por inteiro dentro de um compartimento ou de um sistema de ideias. A Verdade manifesta-se em várias direções do espírito, e de vários modos, através de uma rede infindável de experiências e contribuições.

O Espiritismo tem, portanto, uma visão global do conhecimento. Dentro dessa concepção, que transcende a toda e qualquer posição unilateral, podemos muito bem considerar certos fenômenos à luz da Doutrina Espírita, ainda que esses fenômenos ocorram em searas estranhas. Não nos esqueçamos de que o Espiritismo tem relação com diversas ciências.

Se, por exemplo, surge um conceito novo de matéria, devido a uma pesquisa especial ou revolucionária, podemos e devemos testar esse conceito com o Espiritismo e verificar, depois disso, se há realmente alguma novidade ou se advém daí algum enriquecimento para a Doutrina. Há ocasiões em que certas novidades são apenas rótulos, mas também há ocasiões em que se colhe alguma coisa interessante para aumentar o cabedal que a doutrina já consagrou no tempo e no espaço; o que não está certo, o que não é atitude espírita é ignorar um fenômeno ou não tomar conhecimento de uma descoberta científica, seja lá onde for, venha por quem vier, desde que nesse fenômeno ou nessa descoberta haja um aspecto positivo, haja um ponto de interesse para o Espiritismo. Até mesmo no campo do materialismo — e nisto se vê a liberalidade e amplitude do Espiritismo — se aparecer uma verdade ou se alguém revelar um fato novo, essa verdade ou esse fato deve merecer a nossa atenção.

O Espiritismo não pode ignorar a desintegração atômica, como não pode ficar indiferente às viagens interplanetárias nem deve permanecer alheio às investigações da Parapsicologia ou de qualquer outra escola que estude o psiquismo humano, apesar das divergências de interpretação.

Cabe ao Espiritismo, nesta mesma ordem de ideias, mostrar os exageros e os equívocos da Psicanálise, mas não deve tomar atitude hostil ou repelir a investigação psicanalítica, a não ser quando essa investigação se desgarra do verdadeiro espírito científico, Enveredando pela desonestidade ou pelos recursos interesseiros. Fora disto, no terreno elevado ou imparcial da perquirição científica, o Espiritismo não pretende condenarcoisa alguma, porque lhe cumpre observar e analisar sempre. Este, na realidade, é o espírito da Doutrina. Cabe, agora, aos seus adeptos a parte de execução, que é nada mais nada menos, a afirmação desse espírito em seus comportamentos perante as solicitações da cultura e as circunstâncias da vida.


 Se aparece uma teoria nova, por mais discrepante que ela se nos afigure, o que devemos fazer é examiná-la, criticá-la se for necessário, mas nunca devemos chegar ao extremo das reprovações inquisitoriais, pois o Espiritismo também não receia a luz de nenhuma teoria ou ideia renovadora. Em nenhum caso, fosse qual fosse o pretexto, seria admissível o imprimatur no meio espírita.

O campo das ideias deve ser livre, tanto quanto é livre o campo da crítica e da discordância. Não importa que uma obra venha do Alto ou tenha origem terrena, pois todas as ideias, qualquer que seja a fonte ou o veículo, podem ser criticadas ou rejeitadas. Fora disto, não compreendemos o comportamento espírita.

Se assim procedemos, ou devemos proceder, em consonância com o caráter da Doutrina, é claro que temos condições para resistir a quaisquer teorias ou mensagens fantasiosas, evitando o perigo de se incorporar à Doutrina, como se com ela estivesse de completo acordo, o fruto de simples suposições particulares, tanto faz de espírito desencarnado como encarnado.

Justamente por isso é que nos preocupamos, há muito, com a atualização da cultura no meio espírita, a fim de evitar que certas terminologias impressionantes ou certas ideias fascinantes sejam aceitas em nosso meio como revelações incontestáveis ou como realizações científicas.


 Duas necessidades, portanto, se impõem cada vez mais em nosso movimento: estudo sério da obra de Allan Kardec e atualização dos conhecimentos gerais, para que se compreenda bem a solidez do Espiritismo em face das revoluções científicas de nossa época. O Espiritismo, com isto, se tornará ainda mais respeitado e nunca deixará de ser, ao mesmo tempo, uma fonte de consolações e esperanças.

sábado, 25 de agosto de 2012

CRIVOS DA RAZÃO – Parte 6: A Falácia do Argumento Contra a Pessoa – 4ª parte

Às vezes, o argumento ad hominem pode também ser provocado ou "chamado" pela própria pessoa. 


Por exemplo, suponhamos que João seja um político recém-eleito para um cargo executivo (prefeito, governador ou presidente). Um dos pontos mais enfatizado por João na sua campanha foi o combate à corrupção, ao desvio do dinheiro público, propondo combater isso com transparência. 

Entretanto, auxiliares do João tem sido flagrados em atos de corrupção,  com fartas evidências. E familiares diretos dele foram envolvidos em situações eticamente duvidosas. João, porém, contra todas as evidências, defende enfaticamente seus auxiliares e familiares, alegando que estão sendo vítimas da oposição ou da mídia mal intencionada. E pressiona sua base de apoio para que inviabilizem quaisquer tentativas de investigação de tais atos e situações.

Tempos depois, João propõe um projeto de lei que analistas questionam técnica e eticamente, indicando evidências de que poderá favorecer mais determinados grupos ligados ao partido do João, do que a população como um todo. Perguntado a respeito, ele dá justificativas, com base em documentos gerados por aqueles que seriam favorecidos, de que o projeto é bom para a população e para o Estado, e pede que confiem nele. 

Quando seus opositores atacarem o projeto de lei na sua concepção e intenções, fortalecendo suas críticas com os fatos relativos a comportamentos questionáveis de João nos episódios com seus familiares e auxiliares, estarão praticando o argumento ad hominem. Neste caso, estarão realmente cometendo uma falácia?

Pessoas, como o João, que praticam o "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço" e outras posições questionáveis (vide, neste sentido CRIVOS DA RAZÃO - Parte 5: A Falácia do Apelo à Autoridade), estão legitimamente sujeitas a que se duvidem de suas intenções, quando propõe uma ideia ou argumentam a favor ou contra algo, ou seja, estão sujeitas ao  argumento ad hominem. Contudo, ainda assim, também é legítimo que suas ideias e posições sejam analisadas objetivamente, pois até um suposto corrupto pode propor boas ideias e argumentos consistentes e válidos.

O mesmo raciocínio vale para comunicações via mediúnica, nas quais o espírito comunicante prega equilíbrio, tolerância e compreensão no relacionamento com nossos próximos, mas mostra radicalismo e intolerância preconceituosa ao se referir a cientistas, por exemplo. Esse também tem sido o comportamento de alguns dirigentes, expositores e escritores espíritas. 

A Ciência é usada por eles quando parece confirmar suas ideias, embora frequentemente estejam errados nisso, porque não compreenderam direito o fato ou a descoberta científica que acham que as "provam" (sobre "provas" científicas, veja O Que É Ciência - parte 1, penúltimo parágrafo e O Que É Ciência - parte 2, último parágrafo). Quando, porém, os fatos e descobertas científicas parecem conflitar com suas ideias, as renegam sumariamente, dizendo que o método científico não é adequado para analisar coisas espirituais. Ora, com este comportamento estão dizendo que o método científico é bom para analisar fatos espirituais quando os confirma, mas ruim no caso contrário. 

Desta forma, para adequarem o conhecimento científico às suas ideias, estão agindo como o mítico bandido Procusto com aqueles a que assaltava. Deitava-os num leito e, naqueles que fossem maiores que este, cortava-lhes um pedaço das pernas. Aos menores, esticava-os até que chegassem ao comprimento do leito.

terça-feira, 14 de junho de 2011

O Que É Ciência - parte 1

Frequentemente, ouço ou leio pessoas de várias religiões (inclusive espíritas) referindo-se à Ciência e ao conhecimento científico, ou usando supostas descobertas cientificas para embasar seus argumentos. Na grande maioria das vezes, de maneira equivocada.
Esta postagem é uma modesta tentativa para esclarecer melhor a leitores deste blog o que é Ciência. Para isto, fiz um breve resumo da visão  daquele que talvez seja o principal filósofo da Ciência do século XX, Karl Popper, tendo por fontes a Stanford Encyclopedia of Philosophy – http://plato.stanford.edu/entries/popper/#Life – e a Encyclopedia Britannica – http://www.britannica.com/bps/search?query=Karl+Popper –, além da ajuda da Wikipédia em relação ao sonho do cientista August Kekulé.
Karl Popper (1902 – 1994) é geralmente visto como um dos maiores filósofos da ciência do século 20. Ele se declarava um “racionalista crítico”, um empenhado oponente de todas as formas de ceticismo, convencionalismo e relativismo em ciência e nos assuntos humanos em geral, um defensor comprometido e firme da “Sociedade Aberta” e um implacável crítico do totalitarismo em todas as suas formas. Uma das características mais marcantes do pensamento de Popper é o escopo de sua influencia intelectual. No mundo dos cientistas da alta tecnologia e ultra-especialização, a filosofia é praticamente ignorada. Por isto, é sem precedentes o interesse deles por teses filosóficas, como é o caso de Popper, testemunhando, assim, o impacto do enorme benefício prático que sua obra filosófica tem tido no trabalho científico.
Para Popper, o problema central na filosofia da ciência é o da demarcação, isto é, distinguir entre ciência e o que ele chama de “não-ciência”.
De acordo com ele, o crescimento do conhecimento humano ocorre a partir de nossos problemas e de nossas tentativas de os resolver. Estas tentativas, quando envolvem a formulação de teorias que visam explicar fenômenos que as teorias atuais não explicam, podem levar a uma ampliação do conhecimento existente. Para formular estas teorias, o cientista tem que levar sua imaginação a dar um salto de criatividade. Por esta razão, Popper coloca uma ênfase especial no papel desempenhado pela imaginação criativa independente na formulação de uma teoria. Enfatiza que não há um único caminho, um único método – como, p. ex., a indução (clique e veja sobre o método da indução na postagem deste blog de 27/10/2010, "Crivos da Razão - parte 2: Raciocínio Indutivo"), que funcione como rota para a formulação de uma teoria científica. Einstein endossa esta opinião quando afirma que “Não há um caminho lógico que leva às leis universais mais elevadas da ciência”.
Na visão de Popper, problemas são centrais e prioritários na ciência, e é isto que o leva a caracterizar o cientista como um “solucionador de problemas”. Como diz que o cientista começa com problemas, ao invés de observações dos fatos ou “dados brutos”, Popper argumenta que a única técnica lógica que é parte intrínseca do método científico é o teste dedutivo (clique e veja sobre dedução na postagem deste blog de 22/09/2010, "Crivos da Razão - parte 1: Raciocínio Dedutivo") de teorias, as quais não são, necessariamente, resultado de raciocínio lógico. Ou seja, uma teoria científica pode ser formulada com base em inspirações resultantes de associações de idéias a partir das mais diversas situações (por exemplo, quem assiste ao seriado House, que conta com consultores científicos para garantir o rigor científico da série, está familiarizado com tais inspirações e o teste dedutivo das teorias). Mas uma pessoa não precisa ser um House para ter essas inspirações súbitas. Muitos as experimentam várias vezes em suas vidas.
Sonhos também podem ser fontes de inspirações, como é o clássico caso da descoberta da estrutura da molécula do benzeno, contada abaixo.
           Já na metade do século XIX, vários cientistas haviam proposto diferentes fórmulas estruturais para essa molécula. Porém nenhuma dessas proposições conseguia explicar as reações apresentadas pelo benzeno. Foi então que Friedrich August Kekulé von Stradonitz, mais conhecido por apenas Kekulé (1829 - 1896), em 1865, depois de um sonho, propôs a idéia do anel hexagonal, completada no ano seguinte com a hipótese da existência de um par de estruturas em equilíbrio, com a alternância de ligações duplas.
O sonho de Kekulé:
“Eu estava sentado à mesa a escrever o meu compêndio, mas o trabalho não rendia; os meus pensamentos estavam noutro sítio. Virei a cadeira para a lareira e comecei a dormitar. Outra vez começaram os átomos às cambalhotas em frente dos meus olhos. Desta vez os grupos mais pequenos mantinham-se modestamente à distância. A minha visão mental, aguçada por repetidas visões desta espécie, podia distinguir agora estruturas maiores com variadas conformações; longas filas, por vezes alinhadas e muito juntas; todas torcendo-se e voltando-se em movimentos serpenteantes. Mas olha! O que é aquilo? Um das serpentes tinha filado a própria cauda e a forma que fazia rodopiava troscistamente diante dos meus olhos. Como se se tivesse produzido um relâmpago, acordei;… passei o resto da noite a verificar as consequências da hipótese. Aprendamos a sonhar, senhores, pois então talvez nos apercebamos da verdade." – August Kekulé, 1865.
No processo dedutivo, conclusões são deduzidas de uma hipótese tentativa (num exemplo do dia-a-dia, se a direção do meu carro está trepidando, minha "hipótese tentativa" é de que as rodas dianteiras estão desalinhadas e isto está provocando a trepidação; isto é empiricamente testável). Estas conclusões são, então, comparadas entre si (para verificar se são ou não contraditórias) e com outras assertivas científicas relevantes já bem testadas empiricamente, para se determinar se elas refutam (Popper diz falsificam) a hipótese ou a corroboram. Só então elas são testadas empiricamente. O teste empírico vai, então falsificá-las (refutá-las) ou fortalece-las. Mas não prová-las. Para Popper, uma teoria científica não é "comprovada" em definitivo, pois o conhecimento científico é dinâmico, sempre em evolução. Assim, nenhuma teoria científica é a "palavra final" sobre qualquer coisa, por mais que tenha sido corroborada pelos fatos empíricos. Ela pode ser apenas a "melhor palavra" sobre o assunto, enquanto não surgir uma teoria com poder preditivo ainda melhor. 


No exemplo da trepidação da direção, significa fazer o alinhamento num mecânico especializado - se o problema desaparecer, então minha hipótese inicial foi corroborada pelo teste empírico. Caso o problema continue, posso formular, por exemplo, duas explicações para isto: (1) minha hipótese tentativa está correta, mas o mecânico errou, não fez um bom serviço - para testar isso, irei a um mecânico mais confiável e farei novamente o realinhamento - se o problema continuar, então é mais provável que minha hipótese esteja errada; (2) ou minha hipótese está errada, pois o teste empírico a falsificou (refutou). No dia-a-dia, por vezes optamos de cara pela 2a. explicação. Contudo, em termos científicos, a 1a. explicação e sua linha de ação é mais recomendável, pois qualquer teste empírico está sujeito a erros. Por isso que devem ser reproduzidos, de preferência por experimentadores diferentes e independentes um do outro.



Atualização de Cultura, por Deolindo Amorim

Este lúcido texto do jornalista, escritor e conferencista espírita brasileiro,   Deolindo Amorim (1906 - 1984), publicado no Anuário Espír...