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domingo, 15 de janeiro de 2012

A Grande Transformação - Parte 1

Acabei de ler o excelente livro de Karen Armstrong, "A Grande Transformação: o mundo na época de Buda, Sócrates, Confúcio e Jeremias" (São Paulo: Companhia das Letras, 2008). Antes de comentar sobre o livro, falarei um pouco sobre a autora. 


Karen Armstrong nasceu na Inglaterra, em 1945, e foi freira por sete anos. Formou-se em Literatura pela Universidade de Oxford e foi professora de literatura moderna na Universidade de Londres. Leciona Cristianismo no Leo Baeck College for the Study of Judaism and the Training of Rabbits and Teachers e é membro honorária da Association of Muslin Social Sciences, uma importante instituição muçulmana. Em 1999, recebeu um prêmio islâmico, o Muslim Public Affairs Council Media Award. Em 2000, o Islamic Center of Southern California rendeu-lhe homenagem por promover o entendimento entre as três religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo). Em 2005, foi convidada a integrar um projeto das Nações Unidas, "Aliança das Civilizações", que visa lançar pontes entre o Ocidente e o mundo islâmico. Tem cerca de vinte livros publicados, dos quais onze no Brasil.


Na "Apresentação" do livro, Armstrong escreve que muitas das dificuldades da nossa época e de nossa civilização, como o terrorismo, a ameaça do uso das armas de destruição em massa (nucleares, biológicas e químicas) e o risco de uma catástrofe ambiental, "mascaram uma crise espiritual mais profunda". E "se não houver uma revolução espiritual à altura de nosso gênio tecnológico, é improvável que salvemos nosso planeta"! Concordo com ela.


Para que, no futuro, evitemos tragédias como "Auschiwitz, Ruanda, Bósnia e a destruição do World Trade Center", "uma educação puramente racional não será suficiente". Necessitamos mais. Necessitamos recuperar "o sentido da sagrada inviolabilidade de cada ser humano". Este sentido tradicionalmente nos era dado pela religião. 


No entanto, "praticamente todo dia nos deparamos com exemplos de terrorismo, ódio e intolerância de motivação religiosa". Por esta razão e por outras, "um número crescente de pessoas considera irrelevantes e inacreditáveis as doutrinas e práticas religiosas tradicionais e busca nas artes plásticas, na música, na literatura, na dança, no esporte ou nas drogas a experiência transcendente que parece ser necessária aos seres humanos". Porque "todos ansiamos por momentos de êxtase, quando vivemos nossa humanidade com uma plenitude maior que a habitual e nos sentimos profundamente tocados por dentro e elevados acima de nós mesmos. Somos criaturas à cata de sentido e, ao contrário de outros animais, facilmente nos desesperamos, se não conseguimos ver significado e valor em nossas vidas".


Armstrong vai buscar inspirações para a superação de nossa crise espiritual no período histórico "que o filósofo alemão Karl Jaspers chamou de Era Axial, porque foi decisivo para o desenvolvimento espiritual do gênero humano. Entre aproximadamente 900 e 200 a.C., surgiram, em quatro regiões distintas, as grandes tradições mundiais que continuam alimentando a humanidade: o confucionismo e o taoismo na China, hinduísmo e budismo na Índia, monoteísmo em Israel e racionalismo filosófico na Grécia. Esta foi a época de Buda, Sócrates, Confúcio e Jeremias, dos místicos das Upanishads, de Mêncio e Eurípedes."


No decorrer do livro, Armstrong nos mostrará que "neste período de intensa criatividade, gênios espirituais e filosóficos inauguraram um tipo inteiramente novo de experiência humana". E que esta experiência pode ser substancialmente útil a nós hoje, ajudando judeus, cristãos, muçulmanos, budistas e induístas a reavivarem e aprofundarem sua fé. Mas também estimulando ricas reflexões em ateus e agnósticos.

Leia a parte 2.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O Pontinho Preto e os 3 Crivos

Muitos dos nossos problemas decorrem de percebermos apenas um dos lados das situações e das pessoas. Quando sentimos simpatia por alguém, nossa tendência é perceber apenas suas qualidades. Ocorre o oposto em relação à nossa percepção das pessoas com quem antipatizamos. Somos, geralmente, unilaterais. O nosso progresso em direção a um melhor relacionamento com os outros e uma maior paz de espírito passa pelo nosso esforço em desenvolver uma visão mais equilibrada das pessoas e situações.
Uma estória, que me foi contada há muitos anos por uma mestra espiritual, conhecida carinhosamente por seus discípulos como Tia Zaíra, nos ensina algo neste sentido.
Há muito tempo atrás, os discípulos de um mestre estavam se acusando mutuamente: “Fulano não fala a verdade!”, “Sicrano é orgulhoso!”, “Beltrano come demais!” e assim por diante... O mestre nada disse. Apenas pegou uma grande tela branca, um pincel e, molhando-o em tinta preta, fez com ele um pontinho preto no meio da tela.
Em seguida, chamou um dos seus discípulos e perguntou-lhe:
̶            O que você vê nesta tela?
Sem hesitar, o discípulo respondeu:
̶            Um pontinho preto!
Chamou a outro discípulo e repetiu a pergunta:
̶            O que você vê nesta tela?
O segundo discípulo olhou com cuidado, examinou toda a tela e disse:
̶            Um pontinho preto.
O mestre foi chamando cada um dos demais discípulos. Alguns davam a resposta imediatamente, outros examinavam com cuidado a tela, e outros, ainda, chegavam até a apertar os olhos para ver se havia mais alguma coisa na tela. Contudo, ao final, todos davam a mesma resposta: “Um pontinho preto.”
O mestre, então, olhou para cada um dos discípulos e, mostrando a tela, disse:
̶            Com toda esta grande extensão branca da tela, vocês só enxergam este pontinho preto?
Os discípulos se entreolharam com surpresa. E o mestre prosseguiu:
̶            Da mesma forma, vocês só estão enxergando o pontinho preto uns dos outros, sem considerarem toda a extensa área clara de qualidades e boas realizações que têm!
Quantas vezes deixamos de ver o lado positivo das pessoas? O termo “falar dos outros” é usado como sinônimo de falar mal, tal a freqüência que, ao falar de alguém, tendemos a enfatizar seus defeitos reais ou imaginários e fatos negativos em que está envolvido, em detrimento de suas qualidades e sucessos. Esta visão negativa pode nos contaminar, também, viciando-nos a ver principalmente os aspectos negativos das pessoas e situações, o que pode nos tornar, por vezes, parte dos eventuais problemas com que nos defrontamos, ao invés de contribuirmos para a solução.
Por esta razão, quando começarmos a pensar ou a falar nos defeitos ou insucessos de alguém, busquemos passar pelas três peneiras que esta estória (que se teria passado com Sócrates) nos ensina:
... Certa feita, um homem esbaforido aproximou-se do filósofo e disse-lhe:
̶            Escute, Sócrates... Na condição de seu amigo, tenho alguma coisa muito grave para dizer-lhe a respeito de um conhecido nosso.
̶            Espere!... – disse o sábio, com prudência. – Já passou o que me vai dizer pelas três peneiras?
̶            Três peneiras? – perguntou o visitante, espantado.
̶            Sim, meu amigo, três peneiras. Observemos se sua confidência passou por elas. A primeira é a peneira da verdade. Você tem absoluta certeza, quanto àquilo que pretende comunicar?
̶            Bem, - ponderou o interlocutor, - assegurar mesmo, não posso... mas ouvi dizer e... então...
̶            Portanto não passou pela primeira peneira. Decerto então passou o assunto pela segunda peneira, a da bondade. Ainda que talvez não seja real o que julga saber, será pelo menos bom o que quer me comunicar?
Hesitando, o homem replicou:
̶            Isso não... Muito pelo contrário...
̶            Ah! – tornou o sábio – então recorramos à terceira peneira, a da utilidade, e notemos o proveito do que tanto o aflige.
̶            Útil?!... Disse o visitante muito agitado. – Útil, útil não é...
̶            Bem – rematou o filósofo num sorriso, –  se o que você tem a confiar não é verdadeiro, nem bom e nem útil, esqueçamos o problema e não se preocupe com ele, já que nada constrói de positivo para nós!...

Atualização de Cultura, por Deolindo Amorim

Este lúcido texto do jornalista, escritor e conferencista espírita brasileiro,   Deolindo Amorim (1906 - 1984), publicado no Anuário Espír...