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terça-feira, 7 de agosto de 2012

HABILIDADES DE ATENÇÃO PLENA – Parte 1: INTRODUÇÃO


       Num artigo publicado no suplemento do New York Times da Folha de S. Paulo, no dia 24/01/2011, “Os Riscos de Ser Multitarefa na Guerra”, os autores, Thom Shanker e Matt Richtel, analisam os problemas enfrentados por oficiais da inteligência americana. Esses oficiais ficam conectados on line por horas, recebendo e analisando múltiplas informações simultâneas. O trabalho deles pode ser exemplificado por Josh, um tenente de 25 anos da Força Aérea dos EUA, o qual, “durante 12 horas por dia, (...) monitora uma avalanche de imagens em dez telas” (...), simultaneamente em que fica “com um fone em um ouvido, falando com um piloto no ‘headset’ no outro ouvido, digitando no ‘chat’ ao mesmo tempo e olhando as telas”.
       Dizem os autores do artigo que “os militares têm buscado abordagens inovadoras para ajudar os soldados a se concentrar. Num quartel do Exército em Oahu  (Havaí), os pesquisadores empregam o chamado ‘treinamento de aptidão mental baseada na atenção plena’, para tentar ‘reprogramar’ a capacidade de foco do indivíduo. O programa consiste em pedir aos soldados que se concentrem em uma parte do seu corpo, como sentir um pé no chão ou a sensação de estar sentado na cadeira, e que então mudem para outro foco, como escutar o zumbido do ar condicionado”.
       Habilidades de atenção plena, semelhantes às ensinadas a esses oficiais de elite, são centrais à Terapia Comportamental Dialética - TCD, desenvolvida pela Dra. Marsha Linehan, e uma importante técnica auxiliar para a Terapia de Regressão Vivencial criada pela Dra. Maria Júlia Peres.
       Essas habilidades são versões psicológicas e comportamentais das práticas do treinamento espiritual oriental. São baseadas, em grande parte, na prática do Zen. Porém são compatíveis com a maioria das práticas contemplativas ocidentais e de meditação oriental.
       Habilidades de atenção plena são os veículos para equilibrar a "mente emocional" e a "mente racional" e chegar à "mente sábia". Existem três habilidades do tipo "o que" (observar, descrever e participar) e três habilidades do tipo "como" (assumir uma atitude acrítica, concentrar-se em uma coisa de cada vez, ser eficaz).

A)  O foco das habilidades de atenção plena: aprender a controlar a sua própria mente, no lugar de deixar sua mente controlá-lo(a).

Até certo nível, estar no controle da própria mente significa aprender a controlar os processos da atenção - ou seja, aquilo a que se presta atenção e quanto tempo se presta atenção. Pense em exemplos de como sua incapacidade de controlar sua atenção cria problemas e escreva ao menos três.
  
B) Habilidades de atenção plena exigem prática, prática e prática.

Aprender a controlar a própria mente tem a ver com as tradições ocidentais e orientais de meditação desenvolvidas ao longo de milhares de anos. Todas se baseiam na prática, como a capacidade de um mestre de ioga de aguentar a dor, caminhar sobre brasas quentes, etc.

Observações: 
(1) A meditação costuma ser utilizada no tratamento da dor física crônica e em programas de controle do estresse, e é cada vez mais utilizada no tratamento de transtornos emocionais. Desse modo, a meditação pode ser pratica­da fora de qualquer contexto espiritual ou religioso. 
(2) A prática da meditação oriental é bastante semelhante à oração cristã contemplativa, à tradição mística judaica e a formas de oração ensinadas em outras religiões.

É fundamental a prática concreta para aprender novas habilidades. A prática comportamental inclui praticar o controle da própria mente, atenção, comportamento, do corpo e das emoções.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Regressão Vivencial na Superação de Fobia


Esta postagem dá continuidade à série sobre regressão vivencial, iniciada em 14/03/2011 com “Terapia de Regressão Vivencial”, seguida em 30/03/2011 por “O Que é Vivenciado numa Sessão de Regressão é Real ou Fantasia?”, e em 02/04/2011 por “Regressão Terapêutica a uma Suposta Vida Anterior”. Na presente postagem, conto um caso real de processo de superação de fobia de dirigir por meio de regressão vivencial.

Júlia (nome fictício) tinha cerca de 40 anos, casada, com um casal de filhos. Trabalhava antes de se casar, mas, na época desta narrativa, apenas ajudava um pouco na empresa do marido.

Freqüentemente, sentia-se insegura em muitas coisas que fazia. Queria fazer tudo perfeito, tinha muito medo de errar. Este medo de errar estava presente também ao dirigir seu carro, um dos motivos que a levaram a fazer psicoterapia. Embora já dirigisse há anos, algumas vezes esta insegurança aumentava e pensava: “se eu pegar o carro, vou bater”. Ao pensar isto, sentia muito medo, até pavor, pois imaginava que, se batesse num outro carro, o motorista deste ficaria enfurecido e a agrediria fisicamente.

Estava com acompanhamento psiquiátrico e já havia feito um curso de direção especializado em ajudar pessoas com fobia de dirigir, porém sem resultados.

É surpreendente como a mente humana funciona! Nunca me canso de admirar sua complexidade e sua lógica, que vai além da simples lógica linear a que estamos acostumados. Esta regressão que descrevo, mostra como um episódio que viveu, muito antes de aprender a dirigir, teve uma forte conexão com sua fobia posterior.

Para entender alguns aspectos desta regressão, alguns dados preliminares são importantes. Seu pai era alcoólico. Quando bebia, ficava violento, embora nunca tenha lhe batido, mas seu comportamento agressivo causava muito medo nela e em toda a família: “quando ele bebia, não era uma pessoa muito boa”.

Quando a regressão começa, Júlia vê-se com cerca de 12 anos, no início da manhã, aprontando-se para ir para a escola. Sai de casa e, como habitual, passa na casa de uma amiguinha para irem juntas. Quando chega lá, a irmã mais velha da menina a atende e lhe diz que a irmã caçula havia ido mais cedo para a escola naquele dia. E lhe dá uma notícia que a deixa profundamente consternada: o pai de Júlia estava deitado, bêbado, em frente ao portão da escola. Provavelmente havia saído de algum bar de madrugada e caíra de bêbado na calçada em frente à escola, ficando lá dormindo até então.

Júlia, neste momento, sente medo, vergonha, um nó na garganta, pressão na cabeça. Sente-se inferior a todo mundo, com inveja das amigas que, a seu ver, tinham pais normais. Pensa que as pessoas estão falando dela coisas como: “coitadinha, tem um pai que não tem responsabilidade para nada”. Quer se esconder: “tenho medo que alguém fale algo para mim”. E pensa: “talvez seja melhor não ir para a escola. É melhor ficar em casa para não ver ninguém”. Mas, decide ir para escola assim mesmo, pois sabe que a mãe, muito brava, não permitiria que voltasse para casa sem ter ido à escola.

Decide, então, entrar na escola pelo portão dos fundos, assim não teria que passar por seu pai dormindo na calçada. Caminha por um terreno baldio que vai dar nos fundos da escola e, andando, fica “segurando a vontade de chorar”, pois não quer “que meus colegas pensem que sou uma coitada”.

Ao entrar na sala de aula, sente-se inferior às colegas que, na sua fantasia, tinham “pais normais”. Por isto, não se sente merecedora de estar ali no meio delas: “sinto que estou invadindo o espaço dos outros. Eu não tenho o direito de estar aqui. Eu sou diferente dos outros”. Sente medo, dor no pescoço, pressão no rosto, vergonha. Acha que sua vergonha está escrita em seu rosto. Acha que estão “rindo de mim, fazendo gozação”. Sente, também, uma tristeza muito grande, angústia, e pensa que é uma “pessoa sem nenhum valor, sem nenhum respeito”. Tem medo de que a agridam, “me joguem pedra”.

Quando o psicoterapeuta pergunta o que tem a ver o que ela está vivenciando com seu medo de dirigir, Júlia percebe que, também no trânsito, sente-se invadindo um espaço que não é dela, um espaço onde não tem direito de estar, pois é diferente, inferior às outras pessoas. E que, por isto, sente medo e imagina que, se fizer algo errado, não haverá tolerância com ela, vão agredi-la, talvez até matá-la, pensa.

O psicoterapeuta lhe diz que ela pode começar a mudar aquela crença negativa sobre si mesma, a crença de que é inferior às outras pessoas. E lhe pergunta: “você quer mudar isto? Sim ou não?“ (Esta pergunta é importante, pois a mudança de crenças profundamente arraigadas, para ser efetiva, deve ser algo que o paciente queira realmente, porque se sentir que é uma decisão de outra pessoa, não dele próprio, a mudança não perdurará). Júlia responde: “sim, eu quero ser igual a todo mundo, a todas as pessoas”.

O psicoterapeuta a ajuda, então, a elaborar o que, na Terapia de Regressão Vivencial, chama-se “redecisão”  ̶  uma frase que sintetiza, cognitiva e emocionalmente, a mudança que já está sendo desencadeada a partir daquela catarse* que Júlia está vivenciando. No processo de elaboração da frase de redecisão (processo que o psicopsicoterapeuta conduz apenas na forma, não no conteúdo, o qual deve ser genuinamente do paciente). Iniciando a superação do seu trauma e, conseqüentemente, da crença negativa que tem sobre si mesma, Júlia diz, já enfocando o ato de dirigir: “eu posso ser igual às outras pessoas”. A partir daí, percebe que pode fazer “tudo o que as outras pessoas normais fazem”, chegando, então, na sua frase de redecisão: “eu dirijo o carro com segurança”.

O psicoterapeuta testa, através de algumas perguntas, a ressonância emocional que tem, para a Júlia, a frase que ela elaborou na sua redecisão e se ela a consegue colocar em prática concreta. Júlia diz que se sente aliviada e realizada, e sente que consegue “ser igual às outras pessoas” e que dirigir para ela “é importante, eu me sinto grande, importante” (em contraste com a maneira com que, muitas vezes, se sente: pequena e sem importância).

No processo de uma sessão de regressão, após a redecisão há, como já comentado em postagens anteriores, um processo de desprogramação das emoções e sensações doloridas revivenciadas na sessão e o fortalecimento de emoções e sensações que ajudam a superá-las e que apóiam a redecisão. Além disto, o psicoterapeuta também ajuda o paciente a imaginar uma situação, num futuro próximo, na qual ele coloca em prática a redecisão, com naturalidade, bem como a programar os próximos passos neste sentido. No caso da Júlia, os próximos passos programados foram: vir à próxima sessão dirigindo e, durante a semana, praticar dirigindo em pequenos percursos.

Já na sessão seguinte (a sessão integrativa, na qual o psicoterapeuta auxilia o paciente a integrar melhor, a sua vida atual, o que vivenciou durante a regressão), Júlia descreveu um progresso significativo, sentindo-se mais segura ao dirigir. Contudo, chegara à sessão de táxi, pois ainda não estava se sentindo suficientemente segura. Entretanto, na sessão seguinte à sessão integrativa, chegou dirigindo pela primeira vez.

No decorrer do processo terapêutico, sua segurança e habilidade no trânsito foram crescendo, a tal ponto que Júlia não apenas chegava a todas as sessões dirigindo, como também ia sem medo para todo o lado. O próprio marido, embora muito cioso de sua própria habilidade como motorista, confessou-lhe que ela estava dirigindo melhor do que ele.
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*Catarse: efeito salutar provocado pela conscientização de uma lembrança fortemente emocional e/ou traumatizante, até então reprimida. (Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda, 1a edição. Ed. Nova Fronteira).

sábado, 2 de abril de 2011

Regressão Terapêutica a uma Suposta Vida Anterior

Conforme prometi na postagem anterior, “O que é Vivenciado numa Sessão de Regressão é Real ou Fantasia?”, narro aqui um caso real de regressão, no qual emerge a questão: realidade ou fantasia do inconsciente? Como nos demais casos que expus, o nome e demais dados que possam identificar o paciente foram alterados. Contudo, na essência o caso ocorreu conforme narrado. Sintetizei, aqui, duas sessões de regressão que enfocaram o mesmo tema e suposto evento traumático. Eventos podem ser sentidos como traumáticos pelas pessoas não só quando elas o sofreram como vítimas, mas também quando tiveram, na situação, um papel de algoz, isto é, de agressor ou responsável pelo sofrimento de outra pessoa. Nas situações de algoz, a dor que o paciente sente após o ato cometido (imediatamente, ou tempos depois) é moral, de remorso, auto-recriminação. No caso aqui narrado, a paciente vivenciou ambos os papeis – como algoz e como vítima – e ambas as dores.
Cláudia é uma advogada, por volta dos 50 anos de idade na época, casada e com filhos. Quando chegou à Clínica, estava deprimida. Parecia estar sem ânimo e perspectivas em relação à vida em geral, embora estivesse sob medicação psiquiátrica. Apesar de ter vindo à procura de terapia de regressão vivencial, era algo cética a respeito e não gostava de rever seu passado. Isto ficou claro por seus comentários nas sessões de anamnese1 e por sua resistência em recordar fatos do seu passado, mesmo aqueles que pareciam não ter carga emocional significativa.
No início da sessão seguinte a uma primeira tentativa, frustrada, de fazê-la regredir, emergiu em Cláudia um sentimento que já havia aparecido nas sessões de anamnese – um sentimento difuso de culpa. Mas, neste momento, além deste sentimento difuso habitual, havia um foco mais concreto: sentia-se culpada por não conseguir regredir. Utilizando este sentimento como ponto de partida, o psicoterapeuta tentou, então, uma abordagem alternativa – o processo de regressão por intensificação emocional, inspirado no método da palavra ou frase chave de Netherton2.
O resultado foi surpreendente para Cláudia. De repente, ela começou a dizer “acho que estou ficando louca, acho que estou ficando louca!”. O psicoterapeuta, entretanto, estava tranqüilo, pois sabia que Cláudia entrava finalmente num estado alterado de consciência (EAC) adequado à regressão, e estava vivenciando algo que contradizia a realidade a que estava habituada e ao seu ceticismo. Pergunta-lhe, então, sobre a razão dela pensar que estava “ficando louca”. E Cláudia começa, então, a narrar o que estava vivenciando.
Vê-se num ambiente muito diferente da sala em que está. Este ambiente que percebe é um grande salão, onde parece estar ocorrendo um julgamento, numa época muito antiga. Quando o psicoterapeuta pergunta-lhe que época é esta, responde que parece ser a Idade Média, final do século XIII. Quando é perguntada sobre o local, identifica-o como o sul da França atual, próximo à Espanha (durante a regressão, muitos pacientes descrevem a experiência como um “sonho acordado”, durante o qual parecem viver duas personalidades – aquela que estão vivenciando na regressão e a atual, que fica como um observador. As respostas às perguntas do psicoterapeuta podem vir de uma das duas personalidades).
Continuando, Cláudia vê-se como a pessoa que está presidindo ao julgamento: é um cardeal, inteligente, poderoso, aparentemente sem escrúpulos ou compaixão na busca do poder. Sua palavra é decisiva neste julgamento que envolve, além de outras pessoas, uma mulher que Cláudia reconhece como sua mãe da vida atual, já falecida.
Muitas dessas pessoas que estão sendo julgadas têm algum grau de parentesco com este cardeal, que pode, se quiser, absolvê-los, pois sabe que eles não têm outra culpa a não ser uma crença diferente daquela imposta oficialmente pela Igreja (aparentemente são cátaros). A mulher chora e suplica por misericórdia, em vão. O cardeal, com quem Claudia se identifica, não faz tentativa alguma para salvá-la, nem aos demais, embora a condenação equivalha à pena de morte. Sabe que, se não os condenar, ficará mal aos olhos de seus pares e, assim, perderá pontos importantes na sua luta pelo poder.
Mais tarde, ainda nessa suposta vida passada, vê-se com mais de setenta anos: sente-se desconfortável, entorpecido e angustiado, com um forte sentimento de culpa, remorso por muitas coisas que fez em sua vida, mas principalmente pela lembrança daquele julgamento. Está de frente para uma janela e, de repente, alguém (que entrou silenciosamente no aposento), o esfaqueia pelas costas. Porém, a dor que sente é no peito, no coração, onde a faca parece tê-lo atingido. A dor da facada parece se misturar com uma dor de angústia. Mas, sente também que é “um alívio” e pensa: “é bom eu ir embora, eu não valho nada, eu não presto para nada”. Dói-lhe a garganta, sente a boca seca.
Em seguida, vê-se fora do corpo e, olhando-o estirado no chão, pensa: “eu não sou nada, eu fiz tudo errado”. Sente desgosto de si mesmo e pensa ainda: “eu não me suporto por ser assim, por tudo que eu fiz”. Identifica seu assassino: é parente da mulher que foi condenada à morte. Mas não sente qualquer sentimento negativo por ele, apenas um alívio por ter terminado essa vida.
Estes pensamentos são o que, na Terapia de Regressão Vivencial, chamamos de decisões emocionais que a pessoa toma no momento mais traumático. Neste momento muito dolorido, tais decisões emocionais gravam-se profundamente no inconsciente e passam a funcionar como programações negativas, afetando pensamentos, emoções, percepções e comportamentos da pessoa, como um vírus digital que afeta o desempenho de um computador. Mas podem ser anuladas, ao serem recuperadas por meio do processo de regressão que possibilita ao paciente reviver a situação traumática e as emoções, sensações e pensamentos vividos e que são, então, reconstruídos no contexto da sua personalidade atual.
A catarse3 alivia Cláudia e a coloca num estado mais calmo, adequado à elaboração da redecisão, isto é, da frase que sintetiza a mudança de pensamentos e emoções que já está começando a acontecer nela. Esta frase funcionará, numa analogia com um vírus de computador, como uma “vacina”, anulando total ou parcialmente o “vírus”, a programação negativa gravada em seu inconsciente. No caso, a frase escolhida por Cláudia, ainda em estado alterado de consciência, é uma forma de se redimir: “eu dedico a minha inteligência para fazer o bem”. Ao falar a frase, Cláudia sente alívio e tranqüilidade, o que indica que teve ressonância emocional profunda para ela.
Esta redecisão foi apenas o início da caminhada de Cláudia em direção a uma melhor qualidade de vida. Outras regressões (algumas em outras supostas vidas passadas e outras na vida atual) se sucederam, seguidas de sessões que a ajudaram a integrar melhor essas vivencias à sua vida cotidiana, e praticar concretamente suas redecisões.
O que Cláudia vivenciou, nesta regressão, foi real ou imaginário? A solução para esta dúvida não é simples e talvez seja muito difícil chegar-se a uma resposta conclusiva sobre algo que supostamente teria acontecido séculos atrás, embora todos os dados descritos (muitos detalhes não estão aqui narrados por questão de espaço) durante a regressão sejam coerentes com dados históricos da época, inclusive nomes e locais. No entanto, esta regressão foi terapêutica para Cláudia e a redecisão tomada a ajudou, e tem ajudado, a tomar decisões que a têm levado a progredir em direção a uma vida mais produtiva e feliz.
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1 Anannese: reminiscência, recordação. Nas sessões de anamnese, que antecedem as primeiras regressões, faço um levantamento com o paciente de sua história de vida, antecedentes familiares, sua concepção, gestação, infância, adolescência, idade adulta até o momento atual. A anamnese  é, de fato, um processo de regressão em vigília, durante o qual, além da verificação da existência ou não de fatores que desaconselham a regressão (como doenças cardíacas descompensadas, tendências psicóticas e outros), há o fortalecimento da relação de confiança psicoterapeuta-paciente, uma definição mais acurada do tema ou temas que serão abordados nas sessões de regressão. Isto tudo tem, muitas vezes, um efeito psicoterapêutico, propiciando alguma melhoria nos sintomas que levaram o paciente à psicoterapia.
2 Netherton, M., and Shiffrin, N. Past Life Therapy. Morrow: New York, 1978.
3 Catarse: o efeito salutar provocado pela conscientização de uma lembrança fortemente emocional e/ou traumatizante, até então reprimida.

quarta-feira, 30 de março de 2011

O Que é Vivenciado Durante uma Sessão de Regressão é Real ou Fantasia?


       Numa postagem anterior, “Terapia de Regressão Vivencial”, explanei sobre alguns aspectos desta técnica de psicoterapia, exemplificando com um caso real. Na presente postagem, vou avançar um pouco mais sobre este assunto.
       Uma questão que, por vezes, preocupa pessoas interessadas na Terapia de Regressão Vivencial, é se os acontecimentos vividos durante uma sessão de regressão são reais ou fantasias. Para responder a esta questão, são importantes alguns esclarecimentos prévios sobre como funciona nossa memória.
       Não recordamos os fatos vividos da mesma forma como um computador recupera dados registrados em seu disco rígido (HD). Porém, “a neurociência demonstra que o encéfalo1 não armazena propriamente registros factuais, mas sim traços de informações que serão usados para reconstruir as memórias, nem sempre representando um quadro fiel ao que foi vivenciado no passado. Para executar tal processo, diferentes partes do encéfalo (...) codificam, armazenam e recuperam as informações que serão usadas para criar memórias. Por conseguinte, sempre que um evento traumático ou emocional é recuperado, ele pode ser submetido a uma mudança cognitiva e emocional.” (Peres et al., 2005).2

       Isto significa que, quando memorizamos um fato, este não fica guardado todo num único local em nosso encéfalo, mas aspectos diferentes dele ficarão gravados em diferentes locais do encéfalo. Por exemplo, imaginemos que estamos vendo pela primeira vez uma arara. Ao olharmos para ela, sua imagem é recebida e fragmentada pelas milhões de células da nossa retina (chamadas de fotorreceptoras, ou seja, receptoras de estímulos luminosos). Um grupo destas células capta as cores - algumas captam o vermelho, outras captam o verde e outras o azul, num sistema similar ao usado pelos aparelhos de televisão, embora o nosso seja muito mais sofisticado e preciso. Um outro grupo de fotoreceptoras capta os tons de cinza, um terceiro grupo capta a distância da imagem e sua profundidade, e um quarto grupo capta a intensidade da luz que vem da imagem. Cada aspecto da imagem da arara assim fragmentada é processada e armazenada em diferentes partes do encéfalo. Então, uma outra parte do encéfalo junta todos estes aspectos da imagem, formando a síntese que representa para nós a imagem da arara.
       Se, entretanto, quando estamos vendo a arara experimentarmos uma forte emoção, por exemplo, soubermos que alguém de quem gostamos muito morreu, a imagem-síntese da ave que nosso encéfalo construirá poderá ser diferente daquela formada numa situação emocionalmente neutra para nós. Além disto, poderá ficar gravada em nossa memória com uma carga emocional de tristeza. Porém, vendo outras araras posteriormente, em situações mais agradáveis, esta imagem-síntese poderá se modificar, ficando mais de acordo com a arara real, assim como a tristeza associada poderá ir se dissipando, dando lugar a uma carga emocional neutra ou até positiva. Ou seja, esta imagem-síntese que formamos é dinâmica e, a cada vez que é evocada, pode ser modificada, por influência de novas experiências e emoções, como mostra o exemplo, e mesmo por algumas condições orgânicas da pessoa no momento.
       Por outro lado, observamos na prática psicoterápica que, quando o paciente revive um fato, principalmente quando ocorrido num passado remoto, algumas vezes o reconstrói misturando-o com elementos de sua experiência atual, como filmes ou livros que leu, estórias que ouviu, paisagens e edificações que conheceu. Daí pode surgir a dúvida: não será apenas uma recordação de algo que leu, ouviu ou viu em algum lugar? Uma falsa memória? É uma dúvida razoável.
       Uma resposta a esta dúvida é que, ao reconstruímos nossas memórias, elas são influenciadas por algumas das nossas condições orgânicas e emocionais no instante em que as evocamos, mas também pelo repertório de conhecimentos, habilidades e experiências que adquirimos até o momento. Assim, algo que vivemos aos seis anos de idade e que nos deixou muito felizes, aos sete anos recordaremos de uma maneira e aos vinte e sete de maneira diversa.
       Uma outra resposta pode ser dada por esta reflexão: por que aquele conteúdo emergiu exatamente naquele momento, ao revivê-lo em estado alterado de consciência (EAC)? Não é por acaso. Durante a sessão psicoterapêutica, o que emerge do inconsciente tem um significado específico relacionado ao tema que está sendo tratado, como a prática clínica tem mostrado inúmeras vezes.
       Tendo em vista as considerações acima, algo que é muito importante para o processo de reestruturação de memórias traumáticas por meio da Terapia de Regressão Vivencial é se essas memórias emerjam espontaneamente do inconsciente do paciente, sem que seu conteúdo tenha sido induzido pelo psicoterapeuta. O psicoterapeuta conduz o processo de regressão, não seu conteúdo. Por exemplo, ao tratar de um tema, como a “dificuldade de tomar decisões que envolvam laços afetivos”, o psicoterapeuta auxilia o paciente a focar o tema antes e durante a indução ao estado alterado de consciência necessário para a regressão. Contudo, não o induz a reviver qualquer fato específico. Orienta-o apenas a reviver um fato traumático que tenha dado origem ou reforçado a “programação negativa” que está lhe causando dificuldades na sua vida pessoal ou profissional.
       Se o fato traumático revivido pelo paciente durante a sessão de regressão é espontâneo, significativa e emocionalmente real para ele, a elaboração deste fato, auxiliada pelo psicoterapeuta, torna-se um importante fator no processo de superação do trauma e, conseqüentemente, na solução das dificuldades decorrentes. Isto é o que tem mostrado não só a minha prática psicoterapêutica, mas igualmente a prática de muitos outros psicólogos e psiquiatras que atuam nesta abordagem psicoterapêutica.
       Numa próxima postagem, vou clarear melhor o que expus acima, por meio de exemplos reais de reestruturação de memórias traumáticas.
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1 Encéfalo: parte do sistema nervoso central, contida no crânio, que compreende o cérebro, o cerebelo e a medula alongada.
2 Peres, J.F.P., Mercante, J.P.P., Nasello, A.G. Promovendo resiliência em vítimas de trauma psicológico. Rev Psiquiatr RS. 2005;27(2):131-138.

Atualização de Cultura, por Deolindo Amorim

Este lúcido texto do jornalista, escritor e conferencista espírita brasileiro,   Deolindo Amorim (1906 - 1984), publicado no Anuário Espír...