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sexta-feira, 13 de maio de 2011

Pensando Por Si Mesmo!


Esta é mais uma contribuição da minha amiga Poliana Martins aos leitores deste blog. Trata-se de uma ótima síntese do brilhante “Pensar por Si Mesmo” de Arthur Schopenhauer*. Contudo, é mais do que uma simples síntese, pois há uma ênfase pessoal da Poliana (“sobretudo aceitar a própria intuição”), muito coerente, a meu ver, com o pensamento do filósofo.

Poliana Martins é bióloga, pós-doutoranda no Centro de Estudos do Genoma Humana do Instituto de Biociências da USP, com várias publicações em revistas científicas nacionais e internacionais, além de premiada nacional e internacionalmente.

Vejo este texto da Poliana contribuindo também para ampliar as reflexões da postagem anterior deste blog, “Espíritas: Instruí-vos”, de 21/04/2011:
Uma grande quantidade de conhecimento, se não elaborado por um pensamento próprio, tem bem menos valor do que uma quantidade bem mais limitada que, no entanto, foi devidamente assimilada. Portanto, o pensamento autônomo se processa através da busca da originalidade das idéias a partir de uma reflexão.
A construção deste pensamento não depende da compreensão de idéias alheias, mas do que se pensou com profundidade. O homem que pensa por si forma suas opiniões. Pensar por si é esforçar-se para construir um todo, mesmo que não seja completo. Desta forma, desconsiderar os pensamentos próprios é encobrir talentos e desistir de uma compreensão real e verdadeira do mundo em que vivemos e também de nós mesmos.
Idéias meramente aprendidas permanecem em nós como algo artificial. No entanto, nossas idéias quando construídas por meio de próprio pensamento nos pertencem. Este estágio de consciência estabelece uma autonomia de pensamento nos proporcionando uma maturidade critica para nossas leituras.
A busca por uma idéia original requer em nós uma coragem especial, para abandonar conceitos prontos e idéias coletivas. É necessário seguir o coração, considerar as nossas experiências e, sobretudo, aceitar a própria intuição.
Para quem não conhece Arthur Schopenhauer, a seguir sintetizo algumas informações sobre este filósofo, com base no texto de Robert Wicks** e no livro acima citado.
A filosofia de Arthur Schopenhauer, desde a sua morte em 1860, tem exercido uma especial atração nas pessoas que se perguntam sobre o sentido da vida, bem como em muitos do mundo da música, da literatura e das artes visuais.
Sua influência foi forte entre grandes poetas e escritores como Charles Baudelaire, Samuel Beckett, Jorge Luis Borges, André Gide, Thomas Mann, Guy de Maupassant, Edgar Allan Poe, Marcel Proust, Leon Tolstoy, W. B. Yeats, Emile Zola e vários outros.
Entre os filósofos influenciados por Schopenhauer, pode-se citar, entre outros, Henri Bergson, Friedrich Nietzsche, Horkheimer  e Sartre.
A teoria musical de Schopenhauer influenciou compositores como Johannes Brahms, Antonín Dvorák, Gustav Mahler, Hans Pfitzner, Sergei Prokofiev, Nikolay Rimsky-Korsakoff, Arnold Schönberg e Richard Wagner.
Suas idéias sobre a importância da força dos instintos no centro da vida diária ressurgiram, também, na psicanálise criada por Freud.
______________________________
* Schopenhauer, Arthur, 1788 – 1860. A Arte de Escrever; tradução, organização, prefácio e notas de Pedro Süssekind. – Porto Alegre: L&PM, 2010.
** Wicks, Robert, "Arthur Schopenhauer", The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Winter 2010 Edition), Edward N. Zalta (ed.), URL = <http://plato.stanford.edu/archives/win2010/entries/schopenhauer/>.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

NO REINO DAS BORBOLETAS

     Esta bela fábula é mais uma contribuição da minha amiga Poliana Martins aos leitores deste blog. Faz parte do livro “Contos e Apólogos” (cap. 29), escrito pelo Espírito Irmão X (Humberto de Campos), pela psicografia de Chico Xavier. Veja, também, mais duas ótimas contribuições da Poliana aos leitores deste blog: "Uma Parábola sobre o Céu e o Inferno" e "Pensando Por Si Mesmo!".

     À beira de um charco, formosa borboleta, fulgurando ao crepúsculo, pousou sobre um ninho de larvas e falou para as pequeninas lagartas, atônitas:
     - Não temais! Sou eu... Uma vossa irmã de raça!... Venho para comunicar-vos esperança. Nem sempre permanecereis coladas à erva do pântano! Tende calma, fortaleza, paciência!... Esforçai-vos por sucumbir aos golpes da ventania que, de quando em quando, varre a paisagem. Esperai! Depois do sono que vos aguarda, acordareis com asas de puro arminho, refletindo o esplender solar... Então, não mais vos arrastareis, presas ao solo úmido e triste. Adquirireis preciosa visão da vida! Subireis muito alto e vosso alimento será o néctar das flores... Viajareis deslumbradas, contemplando o mundo, sob novo prisma!... Observareis o sapo que nos persegue, castigado pela serpente que o destrói, e vereis a serpente que fascina o sapo, fustigada pelas armas do homem!...
     Enquanto a mensageira se entregava à ligeira pausa de repouso, ouviam-se exclamações admirativas:
     - Ah! Não posso crer no que vejo!
     - Que misteriosa e bela criatura!...
     - Será uma fada milagrosa?
     - Nada possui de comum conosco...
     Irradiando o suave aroma do jardim em que se demorava, a linda visitante sorriu e continuou:
     - Não vos confieis à incredulidade! Não sou uma fada celeste! Minhas asas são parte integrante da nova forma que a Natureza nos reserva. Ontem vivia convosco; amanhã, vivereis comigo! Equilibrar-vos-eis no imenso espaço, desferindo vôos sublimes à plena luz! Libertadas do chavascal, elevar-vos-eis, felizes! Conhecereis a beleza das copas floridas e o saboroso licor das pétalas perfumadas, a delícia da altura e a largueza do firmamento!...
     Logo após, lançando carinhoso olhar à família alvoroçada, distendeu o corpo colorido e, voltando, graciosa, desapareceu.
     Nisso chega ao ninho a lagarta mais velha do grupo, que andava ausente, e, ouvindo as entusiásticas referências das companheiras mais jovens, ordenou, irritada:
     - Calem-se e escutem! Tudo isso é insensatez... Mentiras, divagações... Fujamos aos sonhos e aos desvarios. Nunca teremos asas. Ninguém deve filosofar... Somos lagartas, nada mais que lagartas. Sejamos práticas, no imediatismo da própria vida. Esqueçam-se de pretensos seres alados que não existem. Desçam do delírio da imaginação para as realidades do ventre! Abandonaremos este lugar, amanhã. Encontrei a horta que procurávamos... Será nossa propriedade. Nossa fortuna está no pé de couve que passaremos a habitar. Devorar-lhe-emos todas as folhas... Precisamos simplesmente comer, porque, depois, será o sono, a morte e o nada... Nada mais...
     Calaram-se as larvas, desencantadas.
     Caiu a noite e, em meio à sombra, a lagarta-chefe adormeceu, sem despertar no outro dia. Estava ela completamente imóvel.
     As irmãs, preocupadas, observavam curiosas o fenômeno e puseram-se na expectativa. Findo algum tempo, com infinito assombro, repararam que a orgulhosa e descrente orientadora se metamorfoseara numa veludosa falena, voejante e leve...
     Anotando a lição breve e simples, creio que há muitos pontos de contacto entre o reino dos homens e o reino das borboletas.


     O que impede uma larva de se transformar em borboleta? A morte ou a doença. E as pessoas, o que as impede atingir um nível superior de consciência e espiritualidade? 
     As doenças da alma não exatamente as impede, mas as atrasa, às vezes por milênios, através das várias encarnações. Tais doenças podem ser resumidas nos chamados 7 vícios capitais pela tradição cristã. São hábitos negativos de se recair freqüentemente na: vaidade/orgulho (soberba), inveja, ira (raiva, ódio), preguiça, avareza, gula, luxúria.
     O que os faz capitais? Para Tomás de Aquino (questionável sob alguns aspectos, mas com importantes contribuições e insights), os mais importantes desses 7 vícios são dois: (1) a hybris, ou soberba, um orgulho desmesurado (embora, tenho visto na clínica, podendo até ser camuflado por uma pretensa humildade); e (2) a acídia, uma autodesvaloriação desequilibrada, na qual a pessoa desacredita de tudo, a começar de si mesma.
     A vacina e o remédio contra esses vícios são conhecidos também pela tradição cristã. Paulo de Tarso sintetiza sublimamente este remédio/vacina num trecho de sua 1a. carta aos coríntios (I Cor 13: 1-13), na qual as frases finais ensinam-nos que: "Por hora, subsistem a fé, a esperança e a caridade - as três. Porém a maior delas é a caridade". 
     Lembrando que caridade é a tradução latina do grego ágape (amor fraternal, altruísta), Paulo de Tarso reforça o remédio prescrito por Jesus - "amarás teu próximo como a ti mesmo", em harmonia com o amor a Deus (Mat 22: 34-40, Mar 12: 28-34 e Luc 10: 25-28) - para as doenças da alma.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Uma parábola sobre o céu e o inferno

O poeta na floresta
Minha amiga Poliana Martins enviou-me esta estória que ela acha ser de Robert B. Dilts, mas não tem certeza. Independente de ser ou não dele, é muito boa, e a adaptei para o blog. Obrigado Poliana!

Conta-se que um poeta estava um dia passeando em uma floresta, quando de repente surgiu diante dele o maior dos poetas romanos, Virgílio. 

Virgílio diz ao apavorado poeta que o destino havia sorrido para ele, pois tinha sido escolhido para conhecer os segredos do Céu e do Inferno. O poeta, apavorado, mas curioso, concorda. Virgílio, então, leva-o primeiramente ao inferno.

Retrato de Virgílio por
Botticelli
Quando chegaram, o poeta ficou surpreso por encontrar um lugar semelhante à floresta onde estavam, e não feito de fogo e enxofre, nem infestado de demônios alados e criaturas nojentas exalando fogo, como ele esperava.

Virgílio conduziu o poeta por uma trilha. Quando se aproximavam de um aglomerado de rochas cobertas de arbustos, o poeta sentiu o cheiro de um delicioso ensopado. Junto com o cheiro, entretanto, vinham misteriosos sons de lamentações e ranger de dentes. 
Virgílio e o poeta com um guia

Ao contornar as rochas, deparou-se com uma estranha cena. Havia uma grande clareira com muitas mesas grandes e redondas. No meio de cada mesa havia uma enorme panela contendo o ensopado cujo cheiro agradável o poeta sentira, e cada mesa estava cercada de pessoas muito magras e famintas. Cada pessoa segurava uma colher com a qual tentava comer o ensopado. O cabo das colheres, entretanto, era duas vezes mais comprido do que os braços das pessoas que as usavam. Devido a isto e ao tamanho da mesa, as pessoas não conseguiam colocar a comida na boca. Havia muita revolta e imprecações enquanto cada pessoa tentava desesperadamente pegar, sem conseguir, pelo menos uma gota do ensopado.

O poeta ficou muito abalado com a terrível cena e suplicou a Virgílio que o tirasse dali. Virgílio, então, transportou-se com ele ao Céu.  Quando chegaram, o poeta surpreendeu-se novamente ao ver uma cena que não correspondia às suas expectativas. Aquele lugar era muito semelhante ao que eles tinham acabado de deixar. Não havia grandes portões de pérolas, nem bandos de anjos a cantar. Novamente Virgílio conduziu-o por uma trilha aonde um delicioso cheiro de comida vinha de trás de rochas e arbustos.

Desta vez, entretanto, o poeta ouviu cantos e risadas ao se aproximaram. Quando contornarem a barreira, ficou muito surpreso por encontrar um quadro quase idêntico ao que eles tinham acabado de deixar: grandes mesas cercadas por pessoas com colheres de cabos desproporcionais e uma grande panela de ensopado no centro de cada mesa. A única e essencial diferença entre aquele grupo de pessoas e o que eles tinham acabado de deixar, era que as pessoas neste grupo estavam usando suas colheres para alimentar uns aos outros.

Esta é, da minha experiência de vida, a grande diferença. O céu e o inferno derivam de atitudes mentais nossas. Fortes evidências a partir de experimentos da Psicologia Cognitiva e das Neurociências indicam que não são os eventos exteriores que nos traumatizam ou nos fazem felizes, mas sim a maneira como os encaramos, como os processamos em nossa mente. E a maneira como processamos estes eventos tem muito a ver com as crenças saudáveis ou não que temos sobre nós mesmos, os outros e o mundo em geral. 

Felizmente, podemos mudar crenças rígidas, preconceituosas e pessimistas em crenças mais saudáveis. Há vários caminhos para isto. A própria Vida nos apresenta inúmeras oportunidades para este aprendizado. Nem sempre conseguimos fazer isto sozinhos, mas, se tivermos "olhos para ver", perceberemos pessoas que podem nos ajudar nestes sentido. E até animais podem ser nossos guias! Quantas vezes tenho visto pessoas com depressão sairem dela ao adotarem e cuidarem de um cão...

Mas, fundamentalmente, lembrar que não estamos sozinhos, que, como diz a bela canção de Tom Jobim (Wave) "é impossível ser feliz sozinho", reafirmando o caminho da felicidade (o Reino dos Céus) iluminado por Jesus: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito. Este é o maior e primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás teu próximo como a ti mesmo. Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas”. (Mt 22, 34-40). Neste sentido, veja, por exemplo, as postagens posteriores Caridade e Redenção e Reflexões sobre o Perdão.

Veja também outras contribuições de Poliana a este blog: "No Reino das Borboletas" e "Pensando por Si Mesmo!"

Atualização de Cultura, por Deolindo Amorim

Este lúcido texto do jornalista, escritor e conferencista espírita brasileiro,   Deolindo Amorim (1906 - 1984), publicado no Anuário Espír...