sábado, 18 de agosto de 2012

CRIVOS DA RAZÃO – Parte 6: A Falácia do Argumento Contra a Pessoa – 3ª parte

Um Contraponto: Para uma melhor compreensão do argumento ou ideias de uma pessoa, há situações nas quais pode ser pertinente analisar suas características pessoais ou as circunstâncias em que foram emitidos. 

Por exemplo, analisando a obra de um escritor ou filósofo, as características da sua personalidade, história de vida e as circunstâncias nas quais escreveu sua obra pode ser útil para a compreender melhor. Contudo, esta análise não demonstra a verdade ou falsidade de suas ideias.


Veja-se, por exemplo, o filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712 - 1778). Entre os historiadores, parece haver consenso de que, com seu livro Emílio, ele deu início à pedagogia moderna*. É relevante sua influência no pensamento de Pestalozzi**, o mestre de Kardec. O verbete da Stanford Encyclopedia of Philosophy sobre o legado de Rousseau (http://plato.stanford.edu/entries/rousseau/#Leg) indica o impacto direto do seu pensamento na filosofia moral de Kant e, indiretamente, em Hegel e Marx. Na filosofia política contemporânea, é clara sua influência na obra "Uma Teoria da Justiça", do filósofo americano John Raws (1921 - 2002). 

A verdade ou falsidade de suas ideias e a relevância da sua influência na pedagogia e na filosofia moral e política devem ser analisadas independente de aspectos que podem ser considerados chocantes da sua vida pessoal, mas que podem ajudar a compreender alguns aspectos de sua obra: 


"Em 1745 Rousseau conheceu Thérèse Levassaeur, uma lavadeira doméstica semi-analfabeta que se tornou sua amante e, mais tarde, sua mulher. De acordo com o relato do próprio Rousseau, Thérèse deu-lhe cinco filhos que foram depositados no hospital de enjeitados logo após o nascimento, uma quase certa sentença de morte na França do século dezoito. O abandono por Rousseau das suas crianças foi mais tarde usado contra ele por Voltaire.(http://plato.stanford.edu/entries/rousseau/#Lif).

Voltaire (1694 - 1778, imagem acima), portanto, usou tais fatos sobre a vida de Rousseau como argumentum ad hominem para combater suas ideias.

Se não deve ser critério para se determinar a verdade ou falsidade de seu argumento ou ideias, o caráter de uma pessoa pode ser relevante, contudo, na consideração da sua sinceridade e na tomada de decisão em situações práticas. (http://philosophy.lander.edu/logic/person.html). Veja, neste sentido, o item "Pergunte-se Por Quê", na postagem "Crivos da Razão - parte 5: A Falácia do Apelo à Autoridade".
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* Nicola, Ubaldo. Antologia Ilustrada da filosofia: das origens à idade moderna. São Paulo: Globo, 2005.
** Incontri, Dora. Pestalozzi: educação e ética. São Paulo: Sciopione, 1997.

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