quarta-feira, 27 de outubro de 2010

CRIVOS DA RAZÃO - Parte 2: Raciocínio Indutivo

Argumentação Indutiva
(Fonte: Law, Stephen. Kit de Ferramentas da Filosofia em "Guia Ilustrado Zahar: Filosofia". - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008)


       A argumentação dedutiva não é a única forma legítima de raciocínio. O raciocínio indutivo também possibilita tirarmos uma conclusão de premissas. Mas, ao contrário do raciocínio dedutivo, no indutivo as premissas não levam a uma conclusão lógica necessária, nem é esta a intenção. Espera-se apenas que as premissas forneçam apoio racional à conclusão.


       GENERALIZAÇÕES


       Vamos supor que eu queira confirmar que todos os pêssegos têm caroços. Como fazer, uma vez que não posso verificar todos os pêssegos que existem? Uma idéia é cortar 1.000 pêssegos e verificar se todos têm caroço.
       Corto o pêssego 1: tem caroço. 
       O pêssego 2 tem caroço.
       O pêssego 3 tem caroço...
       E assim por diante até... O pêssego 1.000 tem caroço.
       Conclusão: Todos os pêssegos têm caroço.
       Quanto mais pêssegos eu corto e encontro caroço, mais razoável torna-se minha conclusão que o próximo pêssego que cortar também terá caroço.
       Este raciocínio contém 1.000 (!) premissas e uma conclusão, mas estas premissas não levam logicamente à conclusão. Continua sendo possível que o pêssego 1.001 não tenha caroço.
       Contudo, embora não sejam dedutivamente válidos, supomos que esses raciocínios indutivos podem nos dar boas razões para considerar verdadeiras suas conclusões. Certamente, quanto mais pêssegos com caroços eu observo, mais razoável é que creia que todos os pêssegos têm caroço.
       Este tipo de raciocínio é chamado indução enumerativa: observamos muitos casos em que X é Y, e assim generalizamos para a conclusão de que todos os Xs são Ys (ou que o próximo X será Y).


       INDUÇÃO E CIÊNCIA EMPÍRICA



       Cientistas constroem teorias que devem valer para todos os lugares e tempos, inclusive no futuro e no passado distantes. Mas eles não podem observar todos os tempos e lugares. Assim, devem se basear no que podem observar para justificar suas afirmações. É o raciocínio indutivo que lhes permite isso. P. ex., os cientistas podem notar que toda ação que observam foi acompanhada de uma reação equivalente e contrária. Usando a indução enumerativa concluem que todas as ações são acompanhadas por reações equivalentes e contrárias. Ou observando certos fenômenos astronômicos, percebem que a existência de uma entidade teórica como o buraco negro fornece a melhor explicação possível para eles, e assim concluem que buracos negros existem. Essa seria uma aplicação científica de inferir a melhor explicação.


       DECIFRAR ENIGMAS


       A indução enumerativa não é a única forma de raciocínio indutivo: outro tipo é chamado de "inferência à melhor explicação". Neste caso, a existência de algo pode ser admitida como a melhor explicação disponível de alguma outra coisa:
       X é observado.
       A existência de Y fornece a melhor explicação possível para X.
       Conclusão: Y existe.
       P. ex., suponha que eu esteja investigando a cena de um roubo ocorrido instantes atrás. Vejo um par de sapatos aparecendo sob uma cortina repuxada e se mexendo um pouco. Não há garantia lógica de que haja alguém ali, é claro - talvez  os sapatos estejam vazios e a cortina sendo soprada pelo vento. Mas, haver alguém pode ser a melhor explicação disponível para o que posso observar. Neste caso, é razoável que eu conclua que há uma pessoa escondida ali. Este é um exemplo concreto de "inferência à melhor explicação".


       Depois de naufragar, chego a uma ilha deserta e vejo pegadas que não são minhas. Concluo que há mais alguém na ilha, pois é a melhor maneira de explicar porque as pegadas estão ali.

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