domingo, 7 de outubro de 2012

Uma Bela Experiência de Cume


O texto abaixo é de um amigo, Fernando Morais Ribeiro, engenheiro elétrico e executivo financeiro bem sucedido com experiência internacional, que decidiu alterar radicalmente o rumo de sua vida profissional, como resultado de uma mudança profunda na sua atitude perante a vida como um todo. Quando o escreveu, sua filha estava com cerca de três meses de idade. Publicou-o pela 1a. vez no seu blog, Pai do Céu, em 18 de junho de 2011. 

Fernando narra aqui uma bela vivência transcendente, experiência que Abraham H. Maslow chamou de “experiência de cume” (“peak experience”) e Carl G. Jung de “experiência numinosa”, na qual entramos num estado de consciência muito diferente do nosso estado habitual de vigília, ampliando nossa percepção e compreensão de nós mesmos e do mundo. 

O nome "O Caderno" tem a ver com a bela canção de Chico Buarque e Toquinho.

O Caderno de Che

Nesse final de semana posso dizer que renasci. Renasci para uma série de coisas das quais havia me esquecido, renasci para mim mesmo, renasci para minha filha, renasci para minha esposa.

Renasci para minha inocência que há tempos havia perdido, renasci para a esperança que existe no coração de cada um de nós, renasci para me aceitar. Renasci para as lágrimas e a gargalhada.

Foram apenas dois dias, duas manhãs, duas tardes, duas noites... mas valeram por uma eternidade, marcaram minhas vidas e minha alma. Minha filha e eu valsamos ao sabor dos nossos sentimentos, transpusemos barreiras que existiam em nossas almas; transformamos o mundo sem fazer esforço; fomos deuses capazes de sublimar atos hediondos.

Fecho meus olhos e ainda consigo ver os olhos trêmulos dela, ligeiramente perdidos no espaço como a procurar um norte; a pequena boca entreaberta como que a admirar cada rodopio e as imagens que passavam na tela; a cabeça a acompanhar a direção que os ouvidos apontavam, escutando palavras que eu somente decifrava; meu rosto colado ao dela, bochechas espremidas e o cheiro delicado de uma luz ardente a queimar em meu coração.

Não me via, mas sei que os meus olhos estavam embargados de água, esperando as comportas de meus olhos se abrirem para uma nova realidade. Continuávamos a dançar ao som de risos leves e soluços há tempos guardados. Ali naquele momento senti algo muito intenso, difícil de descrever, algo que me aproximou de todos e de tudo; fez dos meus inimigos seres queridos; dos amigos, diamantes eternos a serem guardados no meu coração.

Naquele momento me senti divino, não porque sou especial ou qualquer coisa do tipo, mas porque fui capaz de entender, por meros e efêmeros minutos, a plenitude do mundo e a minha pequenez. Ali, naqueles 2 minutos me conectei com algo maior; naqueles 2 minutos entendi porque o Criador - se é que há um - fez o maior de todos os sacrifícios e enviou seu filho para salvar todos os outros e disse ainda assim amar todos da mesma maneira; naqueles 2 minutos fui irmão de todos sobre o planeta; naqueles 2 minutos me fundi com a terra e todos os elementos, éramos um apenas, sem distinção, sem anátemas. E desejei simplesmente que minha filha pudesse ser feliz, que pudesse ser uma fonte de luz a todos a sua volta, tão grande que fosse capaz de absorver a escuridão ao invés de simplesmente iluminá-la.

E me lembrei de como era ser criança, cantando e dançando sem amarras. Ali naquela sala, alcei vôos altos que não tinham jornada, nem tempo de chegar ou partir, não tinham escalas - sonhei que ela podia ler meus pensamentos e que conversávamos sem dizer palavras, conversávamos com nosso olhar, com o toque de nossas mãos e o calor e aconchego do meu colo. E desejei que minha filha parasse de crescer, permanecesse daquela forma para sempre... ao menos em seu coração. Ao fundo, "O Caderno" me lembrava de que um dia raios de mulher irão surgir e, em conjunto com a canção, fiz um pedido à minha filha de que ela também não me esquecesse "num canto qualquer".

Ali naquela sala, naqueles 2 minutos, mesmo num dia cinzento, o sol brilhou mais forte do que nunca e tudo teve um sentido maior. Naqueles dois minutos, minha vida teve um sentido maior; naqueles dois minutos eu tive propósito; naqueles dois singelos minutos fomos a parte e o todo; naqueles dois minutos eu fui uma pessoa melhor. As comportas de minha vista estavam abertas a uma nova realidade, invadidas por sólidos raios de luz que quebrariam qualquer coisa, até o mais duro dos corações. E naquele momento sussurrei para a minha filha "tenha coração" e, pela primeira vez compreendendo o que sempre escutei, escrevi em páginas imaginárias: "Há que endurecer-se, mas sem jamais perder a ternura".


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