sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O PERDÃO QUE LIBERTA

Só sentimos a necessidade de perdoar quando nos sentimos ofendidos. Por exemplo, se uma criancinha pisa sem querer no nosso pé e não pede desculpas, não nos sentimos ofendidos. Mas, se um adulto faz o mesmo sem se desculpar, podemos nos sentir desrespeitados e daí viria a necessidade de perdoar. E como sabemos se estamos necessitando perdoar alguém? Caso fiquemos “ruminando” o caso, isto é, quando a pessoa e o acontecimento voltam-nos constantemente à mente, acompanhados de algum nível de raiva (explícita ou disfarçada de mágoa, ressentimento ou indignação).

Portanto, o grau em que nos sentimos ofendidos por alguém é diretamente proporcional ao grau de responsabilidade (e portanto consciência) que atribuímos a este alguém pelo ato que nos atingiu direta ou indiretamente. Por exemplo, se uma pessoa que sabemos estar com problemas de memória (por algum transtorno orgânico ou emocional) esquece-se de algum compromisso conosco, ou de nos dar um recado muito importante e urgente, podemos não nos sentir indignados com seu comportamento e, assim, a necessidade de perdoar não se coloca. Mas, se o mesmo ocorre com outra pessoa que sabemos não estar com transtornos de memória, poderemos pensar que foi “pouco caso” da parte dela e, conseqüentemente, indignarmo-nos com ela.

À medida em que nosso conhecimento espiritual e psicológico desenvolve-se  e o colocamos em prática concretamente na nossa vida, cada vez menos sentimos necessidade de perdoar e, quando esta ocorre, o perdão fica mais fácil.

Um gatilho importante da mágoa ou do ressentimento é nos sentirmos injustiçados (desrespeitados, desprezados ou traídos de alguma forma). Quando alguém se sente injustiçado, seu organismo libera um derivado de testosterona chamado diidrotestoterona (DHT). Portanto, quanto mais nos sentimos injustiçados (ou achamos que alguém afetivamente ligado a nós foi injustiçado), mais DHT é liberado no nosso organismo. Este hormônio é uma espécie de testosterona “de alta octanagem”, uma “super testosterona” que aumenta o desejo de embate físico (impulso para discutir e até brigar fisicamente) em situações sociais desafiadoras.

O mecanismo que desencadeia a liberação do DHT é um produto da evolução biológica da espécie humana. No passado biológica da nossa espécie, quando um membro do grupo (família, tribo ou clã) traía seus companheiros, não fazia sua parte do trabalho grupal ou tentava se apoderar da mulher ou dos alimentos dos companheiros, uma reação enérgica e mesmo violenta da parte dos prejudicados poderia ser vantajosa evolutivamente não apenas para os indivíduos atingidos, mas para o grupo como um todo. Eles estariam protegendo sua própria sobrevivência, pois as chances de um indivíduo com poucos alimentos ou sem família sobreviver era menor, afetando também as chances de sobrevivência do grupo, pois a falta de colaboração ou a traição de um dos membros diminuía essas chances num meio ambiente com muitos fatores hostis – animais predadores, outras tribos hostis, fatores climáticos extremos etc.

Entretanto, como Espíritos imortais, somos mais do que os instintos do nosso corpo. Não devemos ignorá-los, pois foram e são importantes para a sobrevivência, mas não podemos ser escravos deles. À medida que evoluímos, podemos e devemos sublimar nossos instintos, redirecionando-os para nos impulsionar em direção a objetivos que contribuam para a nossa evolução e a de nossos próximos.

Disto decorre que podemos aprender a evitar que nossos instintos atuem no automático, em relação a nos sentir ofendidos, injustiçados ou menosprezados. Como o que nos faz sentir ofendidos não é o ato em si de alguém, mas nossa interpretação deste ato (o grau de responsabilidade / consciência que atribuímos à pessoa ou pessoas que praticaram o ato em questão, como comentado acima) e esta interpretação é muito influenciada pelas crenças que temos sobre nós mesmos e sobre as pessoas em geral, então, controlando estas crenças, podemos minimizar e até eliminar o sentimento de termos sido ofendidos.

Quanto mais nos sentimos superiores, “merecedores” de considerações especiais dos outros, mais facilmente nos sentimos ofendidos, pois as pessoas em geral não são obrigadas a nos prestar as homenagens que nossa fantasia considera devidas. Portanto, nossas crenças pessoais que incentivam nossas vaidades, tornam-nos presas mais fáceis da mágoa e do ressentimento. À medida em que colocamos tais crenças “em cheque”, confrontando-as com a realidade por meio dos nossos conhecimentos espirituais e psicológicos, tais crenças se enfraquecem ou se desmancham e, no lugar delas, podemos desenvolver novas e melhores crenças, aquelas que nos põem mais em contato com nosso próximo, de uma maneira mais saudável e igualitária.

A compreensão da lei de ação e reação e suas conseqüências no carma, ajudam-nos a compreender e tolerar melhor determinadas “agressões”, porque nos leva a tomar consciência das vezes que já agredimos voluntária ou involuntariamente algumas pessoas. Mesmo que, na época, fôssemos relativamente inconscientes das repercussões mais amplas desses atos, tanto para nós mesmos, como para o agredido e outras pessoas a ele ligadas. Isto nesta vida. E, em vidas anteriores, podemos ter sido muito piores... Assim, quando somos agredidos, devemos tentar compreender como uma lição a aprender.

Compreender a relativa inconsciência daquele que supostamente nos agrediu não significa que devemos ser coniventes com o seu erro (sobre não ser conivente com o erro e ações a tomar em relação àquele que errou, comentarei numa próxima postagem*), mas isto pode nos ajudar a não ficarmos magoados ou ressentidos ou, quando isto ocorre, facilita-nos perdoar.

Assim, cultivar crenças mais igualitárias e tolerantes ajuda-nos a não nos ofender facilmente e, quando isto ocorre, a perdoar com mais facilidade. E isto é libertador...
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* Reproduzo abaixo o último parágrafo da postagem "10 Atitudes para Criar Filhos Mais Felizes - 3a. Atitude: Habilidades do Relacionamento", de 31/12/2010:
Este último modo parece ser a recomendação de Jesus quando ele diz: "se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente: se te ouvir terá ganho teu irmão" (Mt 18:15). Traduzindo para a linguagem da nossa época, entendo "repreender" no sentido de confrontar, como exposto acima. Mas, antes de confrontar seu cônjuge, é bom lembrar de fazer a autocrítica que Jesus enfatiza, para identificar sua própria responsabilidade no problema: "Por que olhas a palha que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu?" (Mt 7:3).

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