quinta-feira, 21 de abril de 2011

Espíritas: Instruí-vos

       "Espíritas: amai-vos, eis o primeiro mandamento; instruí-vos, eis o segundo". Esta frase ditada pelo Espírito de Verdade, em Paris, 1960 (cap. VI, item 5 do Evangelho Segundo o Espiritismo*), há muitos anos tem sido amplamente divulgada no meio espírita. O primeiro mandamento é cristalino, reforçando a base cristã do Espiritismo. É a reprodução das palavras de Jesus, segundo o apóstolo e evangelista João (Jo 14:12): "Este é o meu mandamento: Amai-vos uns aos outros, como eu vos amo". 
       Gostaria de fazer algumas reflexões sobre o segundo, "instruí-vos". Para isto, vou inicialmente reproduzir um trecho do artigo "Por que ler Immanuel Kant", de Pedro Paulo Garrido Pimenta (doutor em filosofia pela USP e prof. de história da filosofia moderna do Departamento de Filosofia da USP), publicado na pag. 98 da revista "MenteCérebro & Filosofia: Kant" (vol. 2 - 2a. ed. rev. - São Paulo: Duetto Editorial, 2011). 
       A razão de começar estas reflexões com um artigo sobre Kant é o fato deste ser um dos maiores expoentes do Iluminismo (muitos o consideram o maior filósofo da Era Moderna), movimento filosófico que foi um verdadeiro "divisor de águas" na cultura ocidental. Pimenta cita, neste artigo, um famoso texto de Kant cujo título traduz por "Que é Ilustração?", mas muitas vezes traduzido por "Que é Esclarecimento?". Traduções deste texto podem ser encontradas na internet, como a deste link, publicada no site da Universidade Federal de Santa Maria.
       As idéias centrais iluministas estão claramente expressas na obra de Kardec (nascido no mesmo ano em que Kant desencarnou, 1804), o qual, além do grande inovador no campo espiritual da humanidade, pode ser visto também como um representante de muitos dos melhores valores do Iluminismo. 
       "Kant viveu e escreveu há mais de 200 anos, num mundo bastante diferente do nosso. Ora, se o intuito da filosofia é (ou deveria ser) explicar as coisas ou fazer-nos pensar sobre elas, fica a pergunta: que teria a nos dizer, ainda hoje, um filósofo tão distante no passado?
       Muita coisa. A partir do instante mesmo em que foi publicada, a Crítica da razão pura causou um impacto que ainda hoje se faz sentir. Não é que as teorias de Kant permaneçam atuais: é que elas não precisam, para se sustentar, de referência a esta ou aquela época.
       O objetivo de Kant foi a razão humana, um poder, ou uma "faculdade", como ele gostava de dizer, que permanece inalterado. É claro, as manifestações dessa racionalidade, que constituem o campo da cultura, mudam de lugar para lugar e se alteram ao longo do tempo. A antropologia estuda e tenta compreender essas variações. Mas, em se tratando do ser humano, somos os mesmos, onde quer que nos encontremos, seja em que período for: sentimos, agimos, falamos, cremos, raciocinamos, construímos objetos e alteramos a realidade à nossa volta, damos sentido a ela conforme os princípios do que Kant chamava de "razão".
       A vida atual é marcada pelo acelerado avanço da tecnologia, um processo que cada vez mais nos distancia daquela referência - a natureza - sem a qual não somos capazes de pensar a cultura. Esse avanço trouxe inegáveis melhorias à humanidade. Já no século 18, porém, Kant alertava, num texto intitulado "Que é Ilustração?", para que não se confundisse o progresso dos conhecimentos e da civilização com o esclarecimento dos homens.
       Este último é uma marca daqueles que, tendo ou não instrução, sabem pensar por si mesmos e ousam fazê-lo, a despeito de múltiplos obstáculos: a superstição religiosa, a coerção social, a censura política, a banalização da informação. É perfeitamente possível ser bem informado e completamente estúpido; no mais das vezes é, por sinal, o que acontece. A saturação de conhecimentos impede o uso livre da razão: satisfeitos com um cabedal de informações, descansamos tranquilos em nossa ignorância de nós mesmos. Mais difícil é pensar sem a direção alheia, descobrir, por conta própria, os poderes, limites e usos da razão. Assim, ler Kant hoje é redescobrir a filosofia,  não como uma relíquia do passado, mas como uma referência atual; é um jeito de evitar essa submissão, tola e desnecessária, ao que há de mais desumano nas coisas feitas pelo homem."
       Frases deste último parágrafo sintetizam idéias básicas desta minha reflexão:
       "É perfeitamente possível ser bem informado e completamente estúpido; no mais das vezes é, por sinal, o que acontece". Concordo, se entendermos  "estúpido" no sentido de obtuso, falho de entendimento, não em decorrência de um transtorno orgânico, mas causado por rigidez mental, dogmatismo, preconceitos e/ou "preguiça mental". Veja, nesse sentido, a fala de Aulus, instrutor de André Luiz, descrita no livro "Nos Domínios da Mediunidade", cap. 5, citada no final da postagem "Espiritismo e Desenvolvimento Científico", de 19/11/2010.
       "A saturação de conhecimentos impede o uso livre da razão: satisfeitos com um cabedal de informações, descansamos tranquilos em nossa ignorância de nós mesmos". Um risco que todos corremos se não estivermos alertas e abertos aos ensinamentos da Vida...
       "Mais difícil é pensar sem a direção alheia, descobrir, por conta própria, os poderes, limites e usos da razão". Esta é, a meu ver, a meta do "instruí-vos": não o mero acúmulo de informações, mas aprender a pensar por conta própria. E isto se aprende praticando, ousando usar seu próprio raciocínio, ir até onde este o levar e submeter suas conclusões aos crivos da razão, dos fatos empíricos e das opiniões contrárias.
       Não quero dizer, com isso, que o acúmulo de informações seja inútil. Claro que não! A informação é matéria-prima para o raciocínio. Mas a informação deve ser digerida, refletida e integrada com os demais conhecimentos da pessoa (gerando, assim, conhecimento útil ao seu detentor), não engolida sem mastigar, sem reflexão. A informação "engolida" sem reflexão pode ser inútil ou até "tóxica" àquele que a engole.


Numa postagem posterior a esta, de 13/05/2011, "Pensando por si mesmo!", com uma ótima contribuição de Poliana Martins, o tema de pensar por conta própria é retomado e detalhado um pouco mais, com base num texto de Shopenhauer. Veja, também, a postagem "Bendita Dúvida", no qual relaciono os  resultados das pesquisas do psicólogo Ibrahim Senay com o tema fé raciocinada x fé cega.
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*Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo: contendo a explicação das máximas do Cristo, sua concordância com o espiritismo e sua aplicação às diversas situações da vida. Tradução de J. Herculano Pires. - 14a. ed. - São Paulo: Edições FEESP, 1998.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Construindo a Paciência


Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma.” (Tiago 1:4*).
Nessa frase, o apóstolo Tiago** está nos ensinando sobre a importância da paciência para nossa evolução. É isto que ele quer dizer ao escrever sobre construir a “obra perfeita”, para que sejamos “perfeitos e completos”. Nossa obra, aqui na Terra, é evoluirmos, tornando-nos cada vez melhores, aprendendo com os nossos erros e acertos, contribuindo para os nossos próximos e para nós mesmos... E, para isto, a paciência é fundamental!...
Como toda obra sólida, a paciência não é construída de uma só vez. Nós a construímos com os pequenos tijolos das nossas ações do dia-a-dia. Quando “nos pisam no calo” e conseguimos nos manter calmos, deixando de reagir com impaciência e agressividade, estamos construindo nossa paciência. Quando nos dão “uma fechada” no trânsito, e nos abstemos de xingar ou correr atrás para devolver na mesma moeda, estamos construindo a nossa paciência. Quando furam uma fila onde aguardamos há longos minutos, e mantemos a calma, argumentando com tranqüilidade, quando for o caso, estamos construindo nossa paciência.
Quando nos criticam injustamente ou nos provocam, e conseguimos fazer o que Tiago recomenda na mesma epístola (Tg 1:19) – que estejamos prontos para ouvir, mas tardos para falar e nos encolerizar –, nesses momentos, também estamos construindo nossa paciência.
Se os pequenos atos cotidianos de paciência são os tijolos para nossa obra, qual é o seu alicerce? O alicerce, a base sobre a qual construímos em nós uma sólida paciência é constituída de dois fundamentos: a fé e a esperança!
A fé em Deus, a convicção de que somos Seus filhos, de que o Pai Celeste nos ama infinitamente, que tudo o que nos acontece vem para o nosso bem e que, por isto, de tudo podemos tirar uma lição para evoluirmos!
E a esperança, a certeza de que tudo tende a melhorar, e da mesma forma que o sol nasce a cada manhã, novas oportunidades de vida surgirão, pois tudo se renova no Universo de Deus!
Com estes dois fundamentos, a fé e a esperança, temos um alicerce sólido sobre o qual podemos construir nossa obra de paz interior.
O apóstolo Paulo de Tarso nos incentiva, quando escreve, na sua carta aos Gálatas (Ga 6:9*): “Não nos desanimemos de fazer o bem, pois, a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos”. Isto é, se não pararmos no meio do caminho, colheremos os frutos!
Ter paciência não é simplesmente aguardar que as coisas aconteçam, mas trabalhar para que aconteçam e, com paciência, esperar que os frutos apareçam e fiquem maduros para colhermos. Quem tem paciência, persevera, persiste! Não desanima. O desânimo é uma forma de impaciência. Quando desanimamos, estamos perdendo a esperança em Deus, a fé na Sua Bondade, no Seu Amor por cada um de nós. Recuperarmos esta esperança e esta fé é condição importante para recuperarmos nossa própria vida!
Um caso vivido por nosso querido Chico Xavier, contado por Ramiro Gama, no seu livro “Lindos Casos de Chico Xavier”, ensina-nos uma boa providência que podemos usar para desenvolvermos a paciência no dia-a-dia. Chama-se “A Água da Paz”. Passa-se na época em que o jovem Chico morava ainda em Pedro Leopoldo, pequena cidade de Minas Gerais, e realizava reuniões mediúnicas semanais no pequeno e modesto centro espírita que havia fundado com amigos:
 “Em torno da mediunidade, improvisam-se, ao redor do Chico, acesas discussões.
É, não é. Viu, não viu. E o médium sofria, por vezes, longas irritações, a fim de explicar sem ser compreendido. Por isso, à hora da prece, achava-se, quase sempre, desanimado e aflito.
Certa feita, o Espírito de Dona Maria João de Deus compareceu e aconselhou-lhe:
— Meu filho, para curar essas inquietações você deve usar a Água da Paz.
O Médium, satisfeito, procurou o medicamento em todas as farmácias de Pedro Leopoldo. Não o encontrou. Recorreu a Belo Horizonte. Nada. Ao fim de duas semanas, comunicou à progenitora desencarnada o fracasso da busca.
Dona Maria sorriu e informou:
— Não precisa viajar em semelhante procura. Você poderá obter o remédio em casa mesmo. A Água da Paz pode ser a água do pote. Quando alguém lhe trouxer provocações com a palavra, beba um pouco de água pura e conserve-a na boca. Não a lance fora, nem a engula. Enquanto perdurar a tentação de responder, guarde a água da paz, banhando a língua.
Nós também, no nosso cotidiano, podemos usar a água da paz! Esta água, a que se referiu dona Maria João de Deus, não precisa ser uma água tangível, isto é, uma água que podemos tocar com as mãos, mas uma água intangível que podemos criar com a nossa imaginação, com o nosso pensamento.
No dia-a-dia, diante de empurrões, pressões, dores físicas, injustiças, provocações, trânsito complicado, e várias outras coisas que tendem a nos fazer perder a paciência, usemos a água da paz. Nesses momentos, imaginemos que estamos tomando um gole de água pura, a água da paz. E, com nossa imaginação, sintamos esta água pacificadora banhando nossa língua, acalmando-nos. E só a engulamos quando estivermos mais tranqüilos...
Fazendo isto regularmente, estaremos construindo nossa paciência!

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* Estou usando, para estas citações, a tradução para o português feita por João Ferreira de Almeida (BÍBLIA SAGRADA. Edição revista e corrigida – 77ª impressão, Rio de Janeiro, RJ: Imprensa Bíblica Brasileira, 1993).
** Não há consenso entre os historiadores sobre qual Tiago seria o autor desta epístola. Os candidatos mais prováveis são dois. Um deles, Tiago, conhecido também como Tiago Maior (em estatura física), filho de Zebedeu e irmão do apóstolo João (Mt 10:2), foi um dos doze apóstolos escolhidos por Jesus e morto em 44 dC por ordem de Herodes Antipa I (At 12:2).
O outro é Tiago, filho de Alfeu, também um dos doze apóstolos (Mt 10:3), chamado de "Tiago Menor" (em estatura) (Mc 15:40) e também conhecido por Tiago, o Justo, por sua retidão e religiosidade (vide, nesse sentido, “Paulo e Estêvão”, ditado pelo espírito Emmanuel e escrito pela psicografia de Francisco Cândido Xavier). A maioria dos historiadores modernos inclina-se por ser este o autor da epístola.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Caridade e Redenção


Um fariseu, buscando colocar Jesus à prova, pergunta-lhe: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” Jesus responde-lhe: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito. Este é o maior e primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás teu próximo como a ti mesmo. Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas”. (Mt 22, 34-40).

Caridade, conforme o dicionário Aurélio, significa “no vocabulário cristão, o amor que move a vontade à busca efetiva do bem de outrem (...)”. Caridade é, portanto, amor ao próximo. Mas, o segundo maior mandamento fala de amar o próximo como a si mesmo, não mais, nem menos do que a si mesmo. Sendo assim, a caridade, na sua forma completa, significaria também a caridade consigo mesmo. E mais, talvez a caridade na qual há uma abdicação de si mesmo em proveito de outrem seja uma caridade desequilibrada, até uma não caridade.
Tudo isto pode parecer uma extrapolação teórica demais, até bizantina (lembrando as prolixas e improdutivas discussões dos teólogos de Bizâncio), mas, nós, psicoterapeutas, atendemos a várias pessoas que abdicaram de si mesmas. Pessoas que não conseguem dizer não aos outros, que têm dificuldade de tomar, sozinhas, decisões pessoais, às vezes até as mais simples, que “vivem” em função de outros, muitas vezes excedendo seus próprios limites físicos e emocionais para satisfazer a esses outros. Muitas delas têm Transtorno de Personalidade Dependente (F60.7 do CID-10). Costumam ser muito ansiosas e é freqüente terem dores crônicas em várias partes do corpo e, às vezes, “migrantes”, isto é, que mudam de lugar. Este não é um transtorno incomum. Tais pessoas precisam aprender a ser mais caridosas consigo mesmas, a se amar. Parecem até, embora inconscientes disto, idolatrar o outro (filho, mãe, pai, cônjuge etc.), “endeusando-o” e, com isto, renegando o primeiro mandamento – “não terás outros deuses diante de mim” (Êxodo 20:3).
O outro desequilíbrio é amar mais a si do que ao próximo. No extremo, isto pode significar o Transtorno de Personalidade Anti-Social (F60.2 do CID-10). Um nome mais conhecido popularmente que se dá à pessoa que apresenta este transtorno de personalidade é “psicopata”, ou “sociopata”. São pessoas que, ao contrário daquelas descritas no parágrafo acima, “endeusam” a si mesmas. Suas vontades e desejos, para eles, sobrepõe-se a todos. Os demais são apenas instrumentos ou objetos para elas, por isto podem roubar, enganar e, em casos mais graves, até matar pessoas sem sentir culpa aparente. Digo aparente porque, mais tarde (às vezes só após a atual existência) ou mais cedo, a voz da consciência moral (que acredito todos tenhamos como parte fundamental de nossa herança divina), ultrapassará todos os mecanismos de auto-engano em que a pessoa se envolveu e gritará aos seus ouvidos espirituais. Aí a dor começará a fazer o seu papel redentor (como nos lembra, p. ex., a história de Gregório, contada no livro “Libertação” de André Luiz).
Tudo isto me leva a crer que a caridade equilibrada – o amor ao próximo como a si mesmo – é, psicologicamente, a atitude mais saudável. E o que isto tem a ver com redenção do Espírito? Redenção é o ato de redimir, ou remir, que vem do latim, redimere, ‘adquirir de novo’. Um significado de redenção poderia ser, então, o ato de readquirir, readquirir a nossa ligação com a Essência Divina, ou seja, com Deus, o amor divino, expresso no primeiro maior mandamento.
Um outro significado de remir, ainda segundo o “Aurélio”, é “tirar do cativeiro, do poder alheio; resgatar”. Em termos espirituais, penso que significa nossa libertação, emancipação da tirania dos instintos. Os instintos, em si, são saudáveis, fazem parte do processo da Vida. Tornam-se prejudiciais apenas quando se sobrepõem à razão, à consciência maior. Neste caso, nos escravizam no egocentrismo, no qual o que importa apenas é nosso prazer e evitarmos tudo o que impede este prazer, ou seja, tudo aquilo que contraria nossos instintos. Já vimos acima que, no extremo, isto poderá nos levar, ao longo de encarnações, até o desequilíbrio da psicopatia. A libertação dos instintos, na prática, portanto, se dá pelo contato com os outros, pelo amadurecimento no relacionamento interpessoal, pela caridade equilibrada, ou seja, pela prática de amar o próximo como a si mesmo.
Um terceiro significado de redimir, ou remir, é “indenizar, compensar, reparar, ressarcir”. Espiritualmente, penso que um significado disto é que o processo de nossa libertação passa necessariamente pela reparação do mal que cometemos a outros, embora esta reparação possa começar, ou talvez até ser realizada inteiramente em proveito de terceiros, que não aqueles diretamente atingidos, pois talvez nem sempre seja possível a reparação diretamente àquele a que vítimizamos.
O início do processo de redenção começa ao tomamos consciência mais plenamente do mal que ocasionamos a outrem. Aí a dor redentora começa a atuar como um aguilhão, impulsionando-nos à reparação. E esta pode implicar, também, no perdão de atos que nos vitimizam atualmente, pois são, frequentemente, expressões da lei do retorno, “chumbo trocado” cujo início pode ter ocorrido em outra existência.
O perdão sincero é uma das belas expressões da verdadeira caridade que não ajuda apenas àquele a quem perdoamos, mas muito a nós mesmos.

Sobre mais sobre o perdão nas postagens: O Perdão que Liberta e Reflexões sobre o Perdão

sábado, 2 de abril de 2011

Regressão Terapêutica a uma Suposta Vida Anterior

Conforme prometi na postagem anterior, “O que é Vivenciado numa Sessão de Regressão é Real ou Fantasia?”, narro aqui um caso real de regressão, no qual emerge a questão: realidade ou fantasia do inconsciente? Como nos demais casos que expus, o nome e demais dados que possam identificar o paciente foram alterados. Contudo, na essência o caso ocorreu conforme narrado. Sintetizei, aqui, duas sessões de regressão que enfocaram o mesmo tema e suposto evento traumático. Eventos podem ser sentidos como traumáticos pelas pessoas não só quando elas o sofreram como vítimas, mas também quando tiveram, na situação, um papel de algoz, isto é, de agressor ou responsável pelo sofrimento de outra pessoa. Nas situações de algoz, a dor que o paciente sente após o ato cometido (imediatamente, ou tempos depois) é moral, de remorso, auto-recriminação. No caso aqui narrado, a paciente vivenciou ambos os papeis – como algoz e como vítima – e ambas as dores.
Cláudia é uma advogada, por volta dos 50 anos de idade na época, casada e com filhos. Quando chegou à Clínica, estava deprimida. Parecia estar sem ânimo e perspectivas em relação à vida em geral, embora estivesse sob medicação psiquiátrica. Apesar de ter vindo à procura de terapia de regressão vivencial, era algo cética a respeito e não gostava de rever seu passado. Isto ficou claro por seus comentários nas sessões de anamnese1 e por sua resistência em recordar fatos do seu passado, mesmo aqueles que pareciam não ter carga emocional significativa.
No início da sessão seguinte a uma primeira tentativa, frustrada, de fazê-la regredir, emergiu em Cláudia um sentimento que já havia aparecido nas sessões de anamnese – um sentimento difuso de culpa. Mas, neste momento, além deste sentimento difuso habitual, havia um foco mais concreto: sentia-se culpada por não conseguir regredir. Utilizando este sentimento como ponto de partida, o psicoterapeuta tentou, então, uma abordagem alternativa – o processo de regressão por intensificação emocional, inspirado no método da palavra ou frase chave de Netherton2.
O resultado foi surpreendente para Cláudia. De repente, ela começou a dizer “acho que estou ficando louca, acho que estou ficando louca!”. O psicoterapeuta, entretanto, estava tranqüilo, pois sabia que Cláudia entrava finalmente num estado alterado de consciência (EAC) adequado à regressão, e estava vivenciando algo que contradizia a realidade a que estava habituada e ao seu ceticismo. Pergunta-lhe, então, sobre a razão dela pensar que estava “ficando louca”. E Cláudia começa, então, a narrar o que estava vivenciando.
Vê-se num ambiente muito diferente da sala em que está. Este ambiente que percebe é um grande salão, onde parece estar ocorrendo um julgamento, numa época muito antiga. Quando o psicoterapeuta pergunta-lhe que época é esta, responde que parece ser a Idade Média, final do século XIII. Quando é perguntada sobre o local, identifica-o como o sul da França atual, próximo à Espanha (durante a regressão, muitos pacientes descrevem a experiência como um “sonho acordado”, durante o qual parecem viver duas personalidades – aquela que estão vivenciando na regressão e a atual, que fica como um observador. As respostas às perguntas do psicoterapeuta podem vir de uma das duas personalidades).
Continuando, Cláudia vê-se como a pessoa que está presidindo ao julgamento: é um cardeal, inteligente, poderoso, aparentemente sem escrúpulos ou compaixão na busca do poder. Sua palavra é decisiva neste julgamento que envolve, além de outras pessoas, uma mulher que Cláudia reconhece como sua mãe da vida atual, já falecida.
Muitas dessas pessoas que estão sendo julgadas têm algum grau de parentesco com este cardeal, que pode, se quiser, absolvê-los, pois sabe que eles não têm outra culpa a não ser uma crença diferente daquela imposta oficialmente pela Igreja (aparentemente são cátaros). A mulher chora e suplica por misericórdia, em vão. O cardeal, com quem Claudia se identifica, não faz tentativa alguma para salvá-la, nem aos demais, embora a condenação equivalha à pena de morte. Sabe que, se não os condenar, ficará mal aos olhos de seus pares e, assim, perderá pontos importantes na sua luta pelo poder.
Mais tarde, ainda nessa suposta vida passada, vê-se com mais de setenta anos: sente-se desconfortável, entorpecido e angustiado, com um forte sentimento de culpa, remorso por muitas coisas que fez em sua vida, mas principalmente pela lembrança daquele julgamento. Está de frente para uma janela e, de repente, alguém (que entrou silenciosamente no aposento), o esfaqueia pelas costas. Porém, a dor que sente é no peito, no coração, onde a faca parece tê-lo atingido. A dor da facada parece se misturar com uma dor de angústia. Mas, sente também que é “um alívio” e pensa: “é bom eu ir embora, eu não valho nada, eu não presto para nada”. Dói-lhe a garganta, sente a boca seca.
Em seguida, vê-se fora do corpo e, olhando-o estirado no chão, pensa: “eu não sou nada, eu fiz tudo errado”. Sente desgosto de si mesmo e pensa ainda: “eu não me suporto por ser assim, por tudo que eu fiz”. Identifica seu assassino: é parente da mulher que foi condenada à morte. Mas não sente qualquer sentimento negativo por ele, apenas um alívio por ter terminado essa vida.
Estes pensamentos são o que, na Terapia de Regressão Vivencial, chamamos de decisões emocionais que a pessoa toma no momento mais traumático. Neste momento muito dolorido, tais decisões emocionais gravam-se profundamente no inconsciente e passam a funcionar como programações negativas, afetando pensamentos, emoções, percepções e comportamentos da pessoa, como um vírus digital que afeta o desempenho de um computador. Mas podem ser anuladas, ao serem recuperadas por meio do processo de regressão que possibilita ao paciente reviver a situação traumática e as emoções, sensações e pensamentos vividos e que são, então, reconstruídos no contexto da sua personalidade atual.
A catarse3 alivia Cláudia e a coloca num estado mais calmo, adequado à elaboração da redecisão, isto é, da frase que sintetiza a mudança de pensamentos e emoções que já está começando a acontecer nela. Esta frase funcionará, numa analogia com um vírus de computador, como uma “vacina”, anulando total ou parcialmente o “vírus”, a programação negativa gravada em seu inconsciente. No caso, a frase escolhida por Cláudia, ainda em estado alterado de consciência, é uma forma de se redimir: “eu dedico a minha inteligência para fazer o bem”. Ao falar a frase, Cláudia sente alívio e tranqüilidade, o que indica que teve ressonância emocional profunda para ela.
Esta redecisão foi apenas o início da caminhada de Cláudia em direção a uma melhor qualidade de vida. Outras regressões (algumas em outras supostas vidas passadas e outras na vida atual) se sucederam, seguidas de sessões que a ajudaram a integrar melhor essas vivencias à sua vida cotidiana, e praticar concretamente suas redecisões.
O que Cláudia vivenciou, nesta regressão, foi real ou imaginário? A solução para esta dúvida não é simples e talvez seja muito difícil chegar-se a uma resposta conclusiva sobre algo que supostamente teria acontecido séculos atrás, embora todos os dados descritos (muitos detalhes não estão aqui narrados por questão de espaço) durante a regressão sejam coerentes com dados históricos da época, inclusive nomes e locais. No entanto, esta regressão foi terapêutica para Cláudia e a redecisão tomada a ajudou, e tem ajudado, a tomar decisões que a têm levado a progredir em direção a uma vida mais produtiva e feliz.
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1 Anannese: reminiscência, recordação. Nas sessões de anamnese, que antecedem as primeiras regressões, faço um levantamento com o paciente de sua história de vida, antecedentes familiares, sua concepção, gestação, infância, adolescência, idade adulta até o momento atual. A anamnese  é, de fato, um processo de regressão em vigília, durante o qual, além da verificação da existência ou não de fatores que desaconselham a regressão (como doenças cardíacas descompensadas, tendências psicóticas e outros), há o fortalecimento da relação de confiança psicoterapeuta-paciente, uma definição mais acurada do tema ou temas que serão abordados nas sessões de regressão. Isto tudo tem, muitas vezes, um efeito psicoterapêutico, propiciando alguma melhoria nos sintomas que levaram o paciente à psicoterapia.
2 Netherton, M., and Shiffrin, N. Past Life Therapy. Morrow: New York, 1978.
3 Catarse: o efeito salutar provocado pela conscientização de uma lembrança fortemente emocional e/ou traumatizante, até então reprimida.

quarta-feira, 30 de março de 2011

O Que é Vivenciado Durante uma Sessão de Regressão é Real ou Fantasia?


       Numa postagem anterior, “Terapia de Regressão Vivencial”, explanei sobre alguns aspectos desta técnica de psicoterapia, exemplificando com um caso real. Na presente postagem, vou avançar um pouco mais sobre este assunto.
       Uma questão que, por vezes, preocupa pessoas interessadas na Terapia de Regressão Vivencial, é se os acontecimentos vividos durante uma sessão de regressão são reais ou fantasias. Para responder a esta questão, são importantes alguns esclarecimentos prévios sobre como funciona nossa memória.
       Não recordamos os fatos vividos da mesma forma como um computador recupera dados registrados em seu disco rígido (HD). Porém, “a neurociência demonstra que o encéfalo1 não armazena propriamente registros factuais, mas sim traços de informações que serão usados para reconstruir as memórias, nem sempre representando um quadro fiel ao que foi vivenciado no passado. Para executar tal processo, diferentes partes do encéfalo (...) codificam, armazenam e recuperam as informações que serão usadas para criar memórias. Por conseguinte, sempre que um evento traumático ou emocional é recuperado, ele pode ser submetido a uma mudança cognitiva e emocional.” (Peres et al., 2005).2

       Isto significa que, quando memorizamos um fato, este não fica guardado todo num único local em nosso encéfalo, mas aspectos diferentes dele ficarão gravados em diferentes locais do encéfalo. Por exemplo, imaginemos que estamos vendo pela primeira vez uma arara. Ao olharmos para ela, sua imagem é recebida e fragmentada pelas milhões de células da nossa retina (chamadas de fotorreceptoras, ou seja, receptoras de estímulos luminosos). Um grupo destas células capta as cores - algumas captam o vermelho, outras captam o verde e outras o azul, num sistema similar ao usado pelos aparelhos de televisão, embora o nosso seja muito mais sofisticado e preciso. Um outro grupo de fotoreceptoras capta os tons de cinza, um terceiro grupo capta a distância da imagem e sua profundidade, e um quarto grupo capta a intensidade da luz que vem da imagem. Cada aspecto da imagem da arara assim fragmentada é processada e armazenada em diferentes partes do encéfalo. Então, uma outra parte do encéfalo junta todos estes aspectos da imagem, formando a síntese que representa para nós a imagem da arara.
       Se, entretanto, quando estamos vendo a arara experimentarmos uma forte emoção, por exemplo, soubermos que alguém de quem gostamos muito morreu, a imagem-síntese da ave que nosso encéfalo construirá poderá ser diferente daquela formada numa situação emocionalmente neutra para nós. Além disto, poderá ficar gravada em nossa memória com uma carga emocional de tristeza. Porém, vendo outras araras posteriormente, em situações mais agradáveis, esta imagem-síntese poderá se modificar, ficando mais de acordo com a arara real, assim como a tristeza associada poderá ir se dissipando, dando lugar a uma carga emocional neutra ou até positiva. Ou seja, esta imagem-síntese que formamos é dinâmica e, a cada vez que é evocada, pode ser modificada, por influência de novas experiências e emoções, como mostra o exemplo, e mesmo por algumas condições orgânicas da pessoa no momento.
       Por outro lado, observamos na prática psicoterápica que, quando o paciente revive um fato, principalmente quando ocorrido num passado remoto, algumas vezes o reconstrói misturando-o com elementos de sua experiência atual, como filmes ou livros que leu, estórias que ouviu, paisagens e edificações que conheceu. Daí pode surgir a dúvida: não será apenas uma recordação de algo que leu, ouviu ou viu em algum lugar? Uma falsa memória? É uma dúvida razoável.
       Uma resposta a esta dúvida é que, ao reconstruímos nossas memórias, elas são influenciadas por algumas das nossas condições orgânicas e emocionais no instante em que as evocamos, mas também pelo repertório de conhecimentos, habilidades e experiências que adquirimos até o momento. Assim, algo que vivemos aos seis anos de idade e que nos deixou muito felizes, aos sete anos recordaremos de uma maneira e aos vinte e sete de maneira diversa.
       Uma outra resposta pode ser dada por esta reflexão: por que aquele conteúdo emergiu exatamente naquele momento, ao revivê-lo em estado alterado de consciência (EAC)? Não é por acaso. Durante a sessão psicoterapêutica, o que emerge do inconsciente tem um significado específico relacionado ao tema que está sendo tratado, como a prática clínica tem mostrado inúmeras vezes.
       Tendo em vista as considerações acima, algo que é muito importante para o processo de reestruturação de memórias traumáticas por meio da Terapia de Regressão Vivencial é se essas memórias emerjam espontaneamente do inconsciente do paciente, sem que seu conteúdo tenha sido induzido pelo psicoterapeuta. O psicoterapeuta conduz o processo de regressão, não seu conteúdo. Por exemplo, ao tratar de um tema, como a “dificuldade de tomar decisões que envolvam laços afetivos”, o psicoterapeuta auxilia o paciente a focar o tema antes e durante a indução ao estado alterado de consciência necessário para a regressão. Contudo, não o induz a reviver qualquer fato específico. Orienta-o apenas a reviver um fato traumático que tenha dado origem ou reforçado a “programação negativa” que está lhe causando dificuldades na sua vida pessoal ou profissional.
       Se o fato traumático revivido pelo paciente durante a sessão de regressão é espontâneo, significativa e emocionalmente real para ele, a elaboração deste fato, auxiliada pelo psicoterapeuta, torna-se um importante fator no processo de superação do trauma e, conseqüentemente, na solução das dificuldades decorrentes. Isto é o que tem mostrado não só a minha prática psicoterapêutica, mas igualmente a prática de muitos outros psicólogos e psiquiatras que atuam nesta abordagem psicoterapêutica.
       Numa próxima postagem, vou clarear melhor o que expus acima, por meio de exemplos reais de reestruturação de memórias traumáticas.
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1 Encéfalo: parte do sistema nervoso central, contida no crânio, que compreende o cérebro, o cerebelo e a medula alongada.
2 Peres, J.F.P., Mercante, J.P.P., Nasello, A.G. Promovendo resiliência em vítimas de trauma psicológico. Rev Psiquiatr RS. 2005;27(2):131-138.

domingo, 20 de março de 2011

Causas e Soluções de Muitas das Nossas Aflições

Reflexões sobre os itens 4 e 5, Cap. V, do Evangelho Segundo o Espiritismo.

       Todos enfrentamos, durante nossa vida, aflições decorrentes de problemas, decepções, sofrimentos físicos e morais. Quais as causas dessas aflições? Essas causas podem se originar tanto na vida atual, como de vidas anteriores...
       Veremos que muitas das nossas aflições são conseqüências de coisas que fizemos ou deixamos de fazer nesta vida.  Vamos ver, também, como evitar muitas dessas aflições.
       Quantas coisas deixamos por terminar, desde tarefas domésticas, relacionamentos, cursos, projetos, por falta de perseverança!...

       Por desorganização, quantos documentos, prazos, compromissos perdemos na nossa vida, desperdiçando oportunidades valiosas... E depois reclamamos da nossa falta de sorte, da falta de oportunidades!
       Nas épocas em que temos mais condições, por imprevidência deixamos de guardar dinheiro para os períodos difíceis, e quando estes ocorrem, queixamo-nos da má sorte, e sonhamos soluções mágicas, como ganhar na loteria e coisas parecidas...
       Isto ocorre também por não controlarmos nossos desejos e ansiedades: às vezes nos excedemos na comida, na bebida, na direção de veículos, no sexo...
       E quando as conseqüências desses excessos surgem mais tarde sob a forma de acidentes, doenças do corpo e da mente, queixamo-nos da má sorte, reclamamos da nossa infelicidade, quando ela foi provocada por nós mesmos...
       Por vezes, por vaidade tola, para manter “as aparências”, gastamos dinheiro que não temos, para comprar coisas de que não precisamos, para impressionar pessoas com quem não nos afinamos, para parecermos quem não somos.
       Reclamamos que somos infelizes no casamento, mas é possível que tenhamos entrado nessa união por outros motivos que não por uma afinidade de alma com o cônjuge, visando à construção de uma família saudável. Contudo, podemos ainda, se realmente quizermos, desenvolver o amor conjugal e familiar verdadeiros...
       Queixamo-nos de nossos filhos, de sua falta de respeito e de sua ingratidão, mas nos esquecemos de quantas vezes deixamos de atuar com amor e firmeza, corrigindo seus erros e más tendências, mostrando-lhes o caminho do bem e fortalecendo suas boas tendências. E assim, com nossa complacência, permitimos que se desenvolvessem neles o orgulho, o egoísmo e a vaidade, que lhes ressecaram o coração.
       Por não controlarmos nossa cólera, entramos em disputas, conflitos e brigas improdutivas e desnecessárias, que nos envenenam e aos outros...
       E depois nos colocamos como vítimas, acusando o outro de algoz, culpando-o por nossa infelicidade, esquecendo-nos convenientemente do que dissemos e fizemos (ou deixamos de fazer por negligencia ou teimosia) que levou a tais conflitos...
       Percebemos, então, que muitas das nossas aflições se devem a nós mesmos... Somos os autores de grande parte nossos de infortúnios atuais!
       Mas, evitaremos muitos desses males na medida em que trabalharmos para o nosso adiantamento moral, reformando-nos intimamente, e para o nosso adiantamento intelectual, estudando e aprendendo sempre mais...

       A justiça humana alcança algumas faltas e as pune. O condenado pode dizer, então, que sofreu a conseqüência do que fez. Mas a justiça não alcança, nem pode alcançar todas as faltas. Geralmente, ela castiga as que causam prejuízo à sociedade, e não as que prejudicam apenas a nós mesmos...

       A Justiça Divina, por sua vez, alcança a todas as faltas, nada lhe escapa... Não há falta, por menor que seja, que escape à lei da ação e reação. Desde faltas mais graves, crimes, até mesmo as pequenas, como se exceder num almoço, com o conseqüente mal-estar posterior, ou numa palavra mais áspera, com conseqüências prejudiciais para o relacionamento e a paz interior.
       Contudo, o objetivo da Justiça Divina não é punir, fazendo-nos sofrer, para que “paguemos” pelo mal que fizemos a nós e a outros, mas nos ensinar, de maneira que este aprendizado fique profundamente gravado em nosso espírito, para que não o esqueçamos tanto no presente como no futuro.
       Para isto, não basta apenas compreendermos racionalmente as conseqüências para nós e para os outros do que fizemos de errado. Isto é necessário, mas não é suficiente. Precisamos sentir de fato, de coração, que erramos, percebendo as conseqüências do que fizemos, para que o aprendizado penetre no fundo de nossa alma, modificando-nos. E este aprendizado é provado e reforçado pela reparação dos males que causamos.
       Compreender e sentir o que fizemos de errado, e repará-lo, se possível para quem causamos algum mal. Quando isto não for possível, ajudarmos outras pessoas a superar males semelhantes, pois, como escreveu o apóstolo Pedro em sua 1ª epístola (cap. 4, versículo 7), “o amor cobre a multidão dos pecados”.
       Este aprendizado pode surgir, entretanto, um pouco tarde, quando muito da nossa vida já foi desperdiçada e perturbada... Podemos pensar, então: “Se no começo da vida eu soubesse o que sei agora, quantas faltas teria evitado!... Se eu tivesse que recomeçar, eu teria me portado de maneira diferente. Mas não há mais tempo!”...
       Como o trabalhador negligente que diz “perdi o meu dia”, cada um de nós que despertamos tarde para a Lei Divina, dirá “perdi a minha vida”... Mas, assim como para o trabalhador o sol nasce no dia seguinte, e começa uma nova jornada na qual pode recuperar o tempo perdido, para nós também brilha o sol de novas oportunidades a cada dia, que podemos aproveitar... Lembremo-nos de que, “embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim” (Chico Xavier).
       É difícil fazermos isto sozinhos. Mas, ao elevarmos nossos pensamentos e sentimentos a Deus, numa oração sincera, no íntimo de nosso coração, pedindo forças e compreensão para colocarmos em prática nossos bons propósitos, esta força e esta compreensão nos virá... Nunca estamos sozinhos... O Plano Espiritual sempre nos acompanha e vela por nós!

segunda-feira, 14 de março de 2011

Terapia de Regressão Vivencial

       Numa postagem anterior, comentei sobre como as gestalts abertas inconscientes (situações não resolvidas que suprimimos da nossa consciência pela ”repressão”) drenam a nossa energia. E, enquanto não resolvidas, podem ficar gravadas em nosso inconsciente como “programações negativas”. Comentei, também, que estas “programações negativas” podem ser combatidas por meio de processos que permitam ao paciente reviver e reelaborar o episódio traumático. Um destes processos é a técnica Peres de Regressão Vivencial, a Terapia Reestruturativa Vivencial Peres (TRVP), criada pela psiquiatra dra. Maria Júlia Prieto Peres.
       Para explicar o que é e como funciona a Terapia de Regressão Vivencial, vou contar um caso real de sua utilização. Por questões éticas, o nome da paciente é fictício, informações que permitiriam identificá-la foram mudadas, e há seu consentimento para a publicação deste caso.

       Vera, 43 anos, divorciada, dois filhos. Seu problema: sentia-se insegura em tomar decisões importantes para a sua vida, deixando que outros as tomassem. Tinha muita dificuldade em dizer não, abdicando-se de suas próprias necessidades para atender a dos outros, e se sentia constantemente insegura e ansiosa. Isto ocorria tanto em casa (morava com a mãe, que “mandava” nela e nos netos), como no trabalho (permitia que até colegas dessem-lhe ordens). A sessão de regressão vivencial, descrita a seguir, faz parte de um conjunto de sessões a que Vera se submeteu, durante um período de seis meses, enfocando o tema: a relação de excessiva dependência da mãe.
       Após o terapeuta aplicar uma técnica de relaxamento que leva Vera a um estado aprofundado de consciência, orienta-a para que reviva um evento relacionado ao tema, que esteja na origem do problema que está sendo trabalhado na sessão. Porém, que seja um evento que ela tenha, no momento, condições emocionais de vivenciar e elaborar.
       No início da regressão, Vera começa a chorar. Quando perguntada sobre o motivo do choro, fala que se vê deitada no chão, chorando. Tem três anos de idade. “Acho que ela não gosta de mim”, diz com voz meio infantil. O terapeuta pergunta quem é ela e Vera responde: “Minha mãe”.
       Continuando, diz: “Está escuro, não tem nenhuma luz”. Tem medo, treme, sente-se sufocar. Sente-se triste e rejeitada. A mãe está ao lado – “Ela está vendo eu chorar. Ela não me dá a mão. Ela só olha para mim.” Pede colo à mãe, mas esta não lhe responde, nem faz qualquer gesto em sua direção. “Eu tou sozinha. O que eu vou fazer sozinha? Não quero mais ficar sozinha”. Sente-se triste, com “um grande vazio”.
       Acha que sua mãe não está se importando – “Não fica com pena”. Vê, então, sua mãe esticando os braços em sua direção: “Engraçado, ela com o braço esticado e eu olhando pra ela. Eu estava pedindo colo pra ela, mas agora não”. Ambas, mãe e filha, ficam quietas, olhando uma para outra. Vera sente que sua mãe está pedindo ajuda: “É engraçado o que eu estou sentindo. É como se ela estivesse pedindo ajuda também. Eu pedindo ajuda e ela pedindo ajuda”.
      Vera toma consciência, então, que sua mãe não queria ter tido uma filha. Não queria ter ficado grávida. Neste momento, reage e lutando contra a tristeza, contra o sentimento de rejeição, o medo e a sensação de sufocamento consegue se sentar, e isto é uma grande vitória para ela que, assim, retoma contato com suas forças internas.
       Com Vera ainda em estado aprofundado de consciência, o terapeuta a orienta para que identifique, em relação a tudo o que vivenciou, o momento mais traumático, mais significativo. Identifica-o como o momento em que, no chão, encolhida, pede colo à mãe, mas esta só olha e não faz nada. O terapeuta conduze-a, então, a revivenciar este momento, explorando-o mais a fundo. Revivencia as emoções, sensações, pensamentos e intuições já descritos e percebe outras coisas: vê-se, em determinado momento, como se encolhesse  ̶Como se eu estivesse encolhendo, encolhendo, encolhendo, diminuindo. Estou encolhida como se fosse morrer”.
      O terapeuta ajuda-a a aprofundar a elaboração da vivência. Ela percebe, então, com mais clareza, as carências e fragilidades da mãe, tanto na época, como na atualidade, e sente compaixão por ela. Aprofunda, também, a consciência de suas forças internas e formula uma redecisão de vida baseada naquela vivência: “Eu supero as minhas dificuldades”.
      A elaboração da redecisão é um dos momentos-chave de uma terapia bem sucedida de regressão vivencial, e deve brotar do próprio paciente com a ajuda do terapeuta, que age como um “parteiro” facilitador do processo. A redecisão deve ser sentida pelo paciente como algo que elimina total ou parcialmente as percepções e “mandatos” ou “programações” negativas induzidas pela situação traumática ocorrida no passado.
       Ao dizer a frase da redecisão, Vera sente “uma força que vem de dentro”. O terapeuta pede, a seguir, que visualize uma cena em que esteja aplicando naturalmente a redecisão. Vera visualiza-se no meio de muitas pessoas agitadas, nervosas e, ao contrário do que faria habitualmente (também ficaria nervosa, até mais do que as pessoas ao redor), vê-se calma, raciocinando com clareza e encontrando solução adequada à situação.
      A sessão continua com um processo de desprogramação que permite que a recordação permaneça, mas sem a carga pesada das sensações e emoções negativas, agora já elaboradas, e termina com a programação positiva – um processo de fortalecimento da redecisão e das emoções e imagens positivas associadas.
      A sessão seguinte é uma sessão de integração, isto é, uma sessão para ajudá-la a integrar em sua vida diária tudo o que viveu. É muito comum, durante a semana, o paciente ter novos “insights”, isto é, compreender, com mais detalhes, a relação causal do que vivenciou na sessão com padrões de comportamentos que tem tido em sua vida e que a prejudicam. A sessão de integração serve, também, para avaliar como a redecisão está sendo aplicada na sua vida e o ajudar nesta aplicação.
       No caso da Vera, posteriormente coisas importantes ocorreram, já perceptíveis na sessão de integração e reforçadas com as sessões de regressão e integração seguintes: começou a perceber sua mãe de outra maneira, perdendo o medo e estabelecendo com ela uma relação mais madura, colocando limites aos seus comportamentos dominadores e assumindo mais seu papel de mãe junto aos dois filhos, orientando-os com maior segurança. Também no trabalho começou a atuar mais assertivamente, tomando decisões e se posicionando mais claramente em reuniões, ocupando seu espaço legítimo e ampliando suas chances de crescimento, passando a ser notada positivamente por superiores e colegas, não mais se sentindo “invisível” como se sentia antes.
       
       Um alerta! É importante ressaltar que a terapia de regressão vivencial é uma técnica complexa, que atua profundamente no inconsciente e, por isto, se não for bem conduzida, por profissional habilitado, poderá fazer mais mal do que bem. Além disto, há casos para os quais é adequada e outros para os quais não é. Por estas razões, só deve ser aplicada por psicólogos ou psiquiatras com uma formação específica neste campo, o que inclui terem se submetido, como pacientes, a um processo de terapia didática em regressão vivencial.

terça-feira, 8 de março de 2011

Brilhe Vossa Luz!


       “Brilhe vossa luz diante dos homens” (Mt 5, 16).

       Quando, em termos mundanos, fala-se de brilhar, normalmente isto significa sobrepujar outras pessoas em competições, derrotar adversários de maneira “brilhante”, muitas vezes os humilhando. Não é deste “brilho” que fala Jesus. Entendo que a luz a que Jesus se refere não é a luz que humilha, mas a que orienta, não é uma luz que “gela” com esnobação o adversário, mas a que aquece com amor. 

       Esta luz é resultante de um árduo trabalho interno, semelhante à criação de um diamante, inicialmente um pedaço de carvão que, submetido a fortíssimas pressões e temperaturas, transforma-se em diamante bruto (nosso potencial interno). Mas, este diamante, para brilhar, ainda precisa da lapidação, do contato com outros diamantes (pois só um diamante lapida outro), para se tornar um brilhante. Ou seja, nosso potencial interno de contribuição aumentará gradativamente o brilho da luz de que fala Jesus, à medida em que praticarmos a convivência harmoniosa e produtiva com os nossos próximos (sermos parte da solução, não do problema), submetermo-nos à lapidação do “bom combate”, do qual falava Paulo de Tarso.

Atualização de Cultura, por Deolindo Amorim

Este lúcido texto do jornalista, escritor e conferencista espírita brasileiro,   Deolindo Amorim (1906 - 1984), publicado no Anuário Espír...