sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Regressão Vivencial na Superação de Fobia


Esta postagem dá continuidade à série sobre regressão vivencial, iniciada em 14/03/2011 com “Terapia de Regressão Vivencial”, seguida em 30/03/2011 por “O Que é Vivenciado numa Sessão de Regressão é Real ou Fantasia?”, e em 02/04/2011 por “Regressão Terapêutica a uma Suposta Vida Anterior”. Na presente postagem, conto um caso real de processo de superação de fobia de dirigir por meio de regressão vivencial.

Júlia (nome fictício) tinha cerca de 40 anos, casada, com um casal de filhos. Trabalhava antes de se casar, mas, na época desta narrativa, apenas ajudava um pouco na empresa do marido.

Freqüentemente, sentia-se insegura em muitas coisas que fazia. Queria fazer tudo perfeito, tinha muito medo de errar. Este medo de errar estava presente também ao dirigir seu carro, um dos motivos que a levaram a fazer psicoterapia. Embora já dirigisse há anos, algumas vezes esta insegurança aumentava e pensava: “se eu pegar o carro, vou bater”. Ao pensar isto, sentia muito medo, até pavor, pois imaginava que, se batesse num outro carro, o motorista deste ficaria enfurecido e a agrediria fisicamente.

Estava com acompanhamento psiquiátrico e já havia feito um curso de direção especializado em ajudar pessoas com fobia de dirigir, porém sem resultados.

É surpreendente como a mente humana funciona! Nunca me canso de admirar sua complexidade e sua lógica, que vai além da simples lógica linear a que estamos acostumados. Esta regressão que descrevo, mostra como um episódio que viveu, muito antes de aprender a dirigir, teve uma forte conexão com sua fobia posterior.

Para entender alguns aspectos desta regressão, alguns dados preliminares são importantes. Seu pai era alcoólico. Quando bebia, ficava violento, embora nunca tenha lhe batido, mas seu comportamento agressivo causava muito medo nela e em toda a família: “quando ele bebia, não era uma pessoa muito boa”.

Quando a regressão começa, Júlia vê-se com cerca de 12 anos, no início da manhã, aprontando-se para ir para a escola. Sai de casa e, como habitual, passa na casa de uma amiguinha para irem juntas. Quando chega lá, a irmã mais velha da menina a atende e lhe diz que a irmã caçula havia ido mais cedo para a escola naquele dia. E lhe dá uma notícia que a deixa profundamente consternada: o pai de Júlia estava deitado, bêbado, em frente ao portão da escola. Provavelmente havia saído de algum bar de madrugada e caíra de bêbado na calçada em frente à escola, ficando lá dormindo até então.

Júlia, neste momento, sente medo, vergonha, um nó na garganta, pressão na cabeça. Sente-se inferior a todo mundo, com inveja das amigas que, a seu ver, tinham pais normais. Pensa que as pessoas estão falando dela coisas como: “coitadinha, tem um pai que não tem responsabilidade para nada”. Quer se esconder: “tenho medo que alguém fale algo para mim”. E pensa: “talvez seja melhor não ir para a escola. É melhor ficar em casa para não ver ninguém”. Mas, decide ir para escola assim mesmo, pois sabe que a mãe, muito brava, não permitiria que voltasse para casa sem ter ido à escola.

Decide, então, entrar na escola pelo portão dos fundos, assim não teria que passar por seu pai dormindo na calçada. Caminha por um terreno baldio que vai dar nos fundos da escola e, andando, fica “segurando a vontade de chorar”, pois não quer “que meus colegas pensem que sou uma coitada”.

Ao entrar na sala de aula, sente-se inferior às colegas que, na sua fantasia, tinham “pais normais”. Por isto, não se sente merecedora de estar ali no meio delas: “sinto que estou invadindo o espaço dos outros. Eu não tenho o direito de estar aqui. Eu sou diferente dos outros”. Sente medo, dor no pescoço, pressão no rosto, vergonha. Acha que sua vergonha está escrita em seu rosto. Acha que estão “rindo de mim, fazendo gozação”. Sente, também, uma tristeza muito grande, angústia, e pensa que é uma “pessoa sem nenhum valor, sem nenhum respeito”. Tem medo de que a agridam, “me joguem pedra”.

Quando o psicoterapeuta pergunta o que tem a ver o que ela está vivenciando com seu medo de dirigir, Júlia percebe que, também no trânsito, sente-se invadindo um espaço que não é dela, um espaço onde não tem direito de estar, pois é diferente, inferior às outras pessoas. E que, por isto, sente medo e imagina que, se fizer algo errado, não haverá tolerância com ela, vão agredi-la, talvez até matá-la, pensa.

O psicoterapeuta lhe diz que ela pode começar a mudar aquela crença negativa sobre si mesma, a crença de que é inferior às outras pessoas. E lhe pergunta: “você quer mudar isto? Sim ou não?“ (Esta pergunta é importante, pois a mudança de crenças profundamente arraigadas, para ser efetiva, deve ser algo que o paciente queira realmente, porque se sentir que é uma decisão de outra pessoa, não dele próprio, a mudança não perdurará). Júlia responde: “sim, eu quero ser igual a todo mundo, a todas as pessoas”.

O psicoterapeuta a ajuda, então, a elaborar o que, na Terapia de Regressão Vivencial, chama-se “redecisão”  ̶  uma frase que sintetiza, cognitiva e emocionalmente, a mudança que já está sendo desencadeada a partir daquela catarse* que Júlia está vivenciando. No processo de elaboração da frase de redecisão (processo que o psicopsicoterapeuta conduz apenas na forma, não no conteúdo, o qual deve ser genuinamente do paciente). Iniciando a superação do seu trauma e, conseqüentemente, da crença negativa que tem sobre si mesma, Júlia diz, já enfocando o ato de dirigir: “eu posso ser igual às outras pessoas”. A partir daí, percebe que pode fazer “tudo o que as outras pessoas normais fazem”, chegando, então, na sua frase de redecisão: “eu dirijo o carro com segurança”.

O psicoterapeuta testa, através de algumas perguntas, a ressonância emocional que tem, para a Júlia, a frase que ela elaborou na sua redecisão e se ela a consegue colocar em prática concreta. Júlia diz que se sente aliviada e realizada, e sente que consegue “ser igual às outras pessoas” e que dirigir para ela “é importante, eu me sinto grande, importante” (em contraste com a maneira com que, muitas vezes, se sente: pequena e sem importância).

No processo de uma sessão de regressão, após a redecisão há, como já comentado em postagens anteriores, um processo de desprogramação das emoções e sensações doloridas revivenciadas na sessão e o fortalecimento de emoções e sensações que ajudam a superá-las e que apóiam a redecisão. Além disto, o psicoterapeuta também ajuda o paciente a imaginar uma situação, num futuro próximo, na qual ele coloca em prática a redecisão, com naturalidade, bem como a programar os próximos passos neste sentido. No caso da Júlia, os próximos passos programados foram: vir à próxima sessão dirigindo e, durante a semana, praticar dirigindo em pequenos percursos.

Já na sessão seguinte (a sessão integrativa, na qual o psicoterapeuta auxilia o paciente a integrar melhor, a sua vida atual, o que vivenciou durante a regressão), Júlia descreveu um progresso significativo, sentindo-se mais segura ao dirigir. Contudo, chegara à sessão de táxi, pois ainda não estava se sentindo suficientemente segura. Entretanto, na sessão seguinte à sessão integrativa, chegou dirigindo pela primeira vez.

No decorrer do processo terapêutico, sua segurança e habilidade no trânsito foram crescendo, a tal ponto que Júlia não apenas chegava a todas as sessões dirigindo, como também ia sem medo para todo o lado. O próprio marido, embora muito cioso de sua própria habilidade como motorista, confessou-lhe que ela estava dirigindo melhor do que ele.
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*Catarse: efeito salutar provocado pela conscientização de uma lembrança fortemente emocional e/ou traumatizante, até então reprimida. (Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda, 1a edição. Ed. Nova Fronteira).

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