domingo, 30 de janeiro de 2011

Saúde Mental e Felicidade - Parte 2: O Efeito Pigmalião

       “Trate um homem como ele é e ele permanecerá como é. Trate um homem como ele pode e deveria ser e ele se tornará o que pode e deveria ser.
       (Johann Wolfgang von Goethe, escritor, cientista e filósofo alemão)

       O nome “Efeito Pigmalião” foi inspirado numa estória contada pelo poeta romano Ovídio1 sobre Pigmalião, um escultor de Chipre que esculpiu uma estátua tão perfeita de mulher que se apaixonou por ela. Pigmalião, então, suplicou à deusa Vênus para que insuflasse vida à estátua e foi atendido. Casou-se com a estátua tornada mulher e foi feliz para sempre...
      Esta  lenda serviu de base para George Bernard Shaw2 criar a peça “Pigmalião”, mais tarde transformada no musical “My Fair Lady”, depois adaptada para o cinema.
       Na peça de Shaw, o personagem prof. Higgins, conversando com seu amigo coronel Pickering, diz que poderia tornar numa duquesa uma mera florista, como aquela que vendia flores na rua, próxima a eles.  Eliza, a florista, ouve o diálogo e vai mais tarde à casa do professor, na esperança desta transformação. Prof. Higgins, desafiado pelo cel. Pickering a cumprir o que dissera, aceita-a como aluna e “cobaia”. Eliza passa, então, por um árduo e massacrante treinamento com o professor, sempre apoiada, contudo, pelo cel. Pickering, até se transformar na lady que já era em potencial.
       Após o sucesso no baile em que foi apresentada à aristocracia, Eliza, diante da auto-glorificação do Prof. Higgins que se achava o único responsável pela vitória, diz ao cel. Pickering:
       “Veja, real e verdadeiramente, tirando as coisas que todos podem adquirir (o vestido, a maneira apropriada de falar e coisas assim), a diferença entre uma lady e uma florista não é como ela se comporta, mas como é tratada. Eu serei sempre uma florista para o professor Higgins, porque ele sempre me trata como uma florista, e sempre tratará. Mas eu sei que eu posso ser uma lady para você porque você sempre me tratou como uma lady, e sempre tratará”.
       Esta fala de Eliza retrata o “Efeito Pigmalião”, nome concebido por Robert Merton, professor de sociologia da Columbia University, para explicar o fenômeno da “profecia auto-realizável”: quando nos imbuímos da certeza de que algo ocorrerá conosco ou com pessoas a quem estamos ligados, inconscientemente dispomos as coisas para que este algo ocorra de fato.
       Pensando em testar esse efeito na interação de professores com seus alunos em classe, os psicólogos sociais Robert Rosenthal3 e Lenore Jacobson realizaram uma experiência que se tornou famosa.
       Numa escola de ensino fundamental, no início do ano escolar, aplicaram a todas as crianças das dezoito salas de aula da escola um teste de inteligência. Em cada sala de aula, os psicólogos escolheram 20% das crianças por sorteio, e disseram aos seus professores (que não sabiam da escolha por sorteio) que os resultados do teste destas crianças indicavam que elas poderiam apresentar surpreendentes resultados positivos no desempenho intelectual durante o ano escolar. A única diferença entre estas crianças e as demais era, portanto, a expectativa criada na mente dos professores.
       No final do ano escolar, todas as crianças da escola foram retestadas com o mesmo teste de inteligência. Em geral, as crianças, cujos professores foram levados a crer que elas mostrariam um grande crescimento no desempenho intelectual, tiveram resultados no teste bem superiores aos das demais crianças da escola.
       Aquelas crianças, no início do ano letivo, não se destacavam das demais. Mas, esperando que se comportassem como crianças inteligentes e talentosas, os professores as trataram como se elas realmente fossem mais inteligentes e talentosas do que a média, e isto fez toda a diferença! Este é o “Efeito Pigmalião”.
       Há uma importante implicação disto para a formação das crenças que desenvolvemos sobre nós mesmos, sobre os outros e o mundo e que têm um significativo papel no nosso bem-estar mental e social, influenciando, portanto, na nossa felicidade.
       No artigo anterior, “Saúde e Felicidade - Parte 1, dei o exemplo da Lúcia, que desde a infância tinha a crença pessoal “sou tão burra, não consigo aprender as coisas direito”, apesar de ter um potencial normal de aprendizagem. O início desta crença podem ter sido as repetidas “broncas” de sua mãe - “você é tão burra, não consegue aprender as coisas direito” -, quando ela tinha alguma dificuldade normal em aprender algo.
       Estas repetidas mensagens negativas, vinda de uma pessoa afetivamente significativa para a pequena Lúcia, podem ter começado a criar nela uma crença de que era “burra”. Nas situações em que ficava mais ansiosa, como numa prova escolar, essa “mensagem” gravada no seu inconsciente emergia na forma de pensamentos automáticos, dificultando sua concentração, fazendo-a até esquecer coisas que havia compreendido e memorizado ao estudar para a prova. Conseqüentemente, ia mal.
       A nota baixa na prova “confirmava”, para Lúcia e sua mãe, que ela era “burra” mesmo. Isto fortalecia sua crença. Numa próxima prova, a possibilidade desta crença atrapalhar seu desempenho tornava-se maior, num círculo vicioso que envolveria, posteriormente, mensagens negativas semelhantes de professores e colegas de escola.
       A partir do que foi narrado acima, vale fazermos uma pergunta a nós mesmos: Estamos contribuindo para a criação ou fortalecimento - em nossos filhos, alunos e subordinados - de crenças positivas, ou negativas, sobre si mesmos, sobre os outros e o mundo?
       Se quisermos contribuir de forma positiva, como fazer? O prof. Rosenthal aponta-nos um caminho: o desenvolvimento de quatro fatores-chaves nestes relacionamentos:
       1.     Clima afetuoso – crie um clima amigável. Um clima amigável contribui para uma comunicação mais aberta e clara, tanto por meio de palavras como de comportamentos;
       2.     Instrução e desafios – invista na instrução deles, mas desafie-os também com metas elevadas que os impulsionem a crescer, a se superarem;
       3.     Oportunidades de acerto – crie oportunidades que os ajudem a acertar, como tempo e outras condições, que aumentem as suas chances de atingirem metas elevadas;
       4.     Feedback – dê a eles constantes informações, por meio de palavras e comportamentos, sobre como estão se saindo na execução de suas tarefas (profissionais ou escolares).
       E isto vale também no relacionamento consigo mesmo: (1) crie um clima amigável para você – seja uma companhia agradável para si mesmo, acolha-se, divirta-se, aprenda a rir de si mesmo, cultive seu humor! (2) Invista em sua própria instrução, atualize-se, desenvolva suas habilidades, crie e acredite em metas elevadas para si mesmo, que o impulsionem a crescer, a se superar! (3) Crie oportunidades para acertar, estabeça metas intermediárias atingíveis (degraus que, quando galgados, o aproximam cada vez mais de seu objetivo maior), invista seu tempo e seu dinheiro para galgar estes degraus e invista principalmente na construção da sua rede de relacionamentos (sua network). (4) Avalie-se de tempos em tempos – em que medida suas atividades atuais estão (ou não) o ajudando a atingir suas metas? E à cada meta que alcançar, a cada bom resultado que conseguir, congratule-se, comemore!
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1 Publius Ovidius Naso (43 a.C. – 17 d.C), poeta latino, conhecido nos países de língua portuguesa por Ovídio. Seus versos influenciaram Dante, Milton e Shakespeare.
2 George Bernard Shaw (1856 - 1925), escritor, jornalista e dramaturgo irlandês. Vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1925.
3 Rosenthal, R. & Jacobson,L. (1968, 1992) Pygmalion in the classroom: Teacher expectation and pupils' intellectual development (Irvington publishers: New York).

Veja, também, a série "10 Atitudes para Criar Filhos mais Felizes" que começa com a 1a. atitude: Amor e Carinho.

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